“Fico surpreendido com o número de pessoas que retomam o caminho da fé”, admitiu Leão XIV

O Papa apelou hoje, em Paris, ao acompanhamento permanente dos novos batizados, sublinhando o número crescente de adultos que procuram os sacramentos numa sociedade francesa “fortemente secularizada”.
“Este fenómeno, que contradiz qualquer atitude derrotista e aquilo que o Papa Francisco chamava de pessimismo estéril, deve ser acolhido com espírito de responsabilidade”, declarou Leão XIV, pedindo às comunidades católicas que reconheçam e guardem “a pequena chama que o Espírito Santo acendeu na escuridão da noite”.
Mais de 21 mil adultos e adolescentes receberam o sacramento do Batismo na Vigília Pascal de 2026, segundo dados divulgados pela Conferência Episcopal Francesa (CEF).
“Tal como vós e juntamente convosco, fico surpreendido com o número de pessoas que retomam o caminho da fé e com a quantidade de adultos que solicitam os sacramentos da iniciação cristã”, indicou o Papa.
O pontífice falava no Instituto Católico de Paris, perante pessoas que se preparam para receber os sacramentos da iniciação cristã (Batismo, Confirmação e Eucaristia) e recém-batizados,
“O espanto perante o que está a acontecer a muitos dos nossos irmãos e irmãs não deve fechar-nos numa alegre ingenuidade; pelo contrário, devemos comprometer-nos, procurar, questionar e empreender ações pastorais concretas”, observou.
O encontro que contou com vários testemunhos, como o de Jaodie (que escolheu o nome Josué para o Batismo), o qual relatou as suas hesitações num percurso inicialmente solitário, marcado pelo receio de julgamento devido à sua aparência magrebina, sublinhando como a inserção nas atividades paroquiais o ajudou a progredir “com mais confiança e menos timidez”.
Marielle, batizada como adulta em 2025, por influência da filha de 20 anos, e agora delegada na Assembleia Sinodal, questionou o Papa sobre como “evitar o vazio pós-batismal” e superar o receio de assumir responsabilidades apostólicas que parecem “vertiginosas”.
Sophie, que prepara candidatos ao Batismo há dez anos na Diocese de Evry, sublinhou a exigência de respeitar o ritmo do outro: “As pessoas não são os meus catecúmenos, mas discípulos de Cristo”.
A partir das inquietações apresentadas, o Papa recuperou uma expressão do episcopado francês para exigir uma Igreja em “estado de iniciação”.
“Estar em estado de iniciação significa acolher as novas pessoas que procuram Deus, vendo nisso uma oportunidade e uma missão”, explicou o pontífice.
Leão XIV sublinhou que, após o batismo, é necessário integrar plenamente os recém-batizados em espaços familiares, garantindo uma “formação o mais integral possível”, capaz de abranger as dimensões bíblica, teológica e moral.
A liturgia assumiu particular relevo na intervenção, com o pontífice a recusar a ideia de que a celebração dos ritos seja uma realidade “posterior” à catequese.
“Com os seus ritmos, linguagens e ritos, a liturgia faz parte do mesmo caminho de conversão e preparação para os sacramentos”, sustentou.
Perante pessoas marcadas por “experiências dolorosas, situações de solidão e feridas profundas”, pediu um “sábio equilíbrio” que permita escutar cada história e, simultaneamente, encorajar os novos fiéis “a enfrentar os exigentes desafios da fé”.
“Ao olhar para vós, queridos catecúmenos e neófitos, vejo não só o fruto do Espírito que vos pôs neste caminho, mas também uma promessa de fecundidade para a Igreja na França. Sede também vós missionários do Evangelho nesta sociedade”, desafiou Leão XIV, evocando a fecundidade de Santo Agostinho e de figuras francesas como Santa Teresinha do Menino Jesus e São Martinho de Tours.
O Papa chegou ao Instituto Católico após ter visitado uma instituição para pessoas em situação de exclusão social, sendo recebido pelo arcebispo de Paris, D. Laurent Ulrich, e pelo reitor da instituição, padre Emmanuel Petit.
Num momento simbólico, o arcebispo entregou ao Papa o instrumento de trabalho da Assembleia Eclesial Provincial, fruto da consulta a 45 mil fiéis das dioceses parisienses.

A ‘Maison Bakhita’
O Papa visitou a ‘Maison Bakhita’, um centro diocesano de acolhimento de pessoas em situação de exclusão, em Paris, denunciando novas formas de escravatura económica e cultural.
“Santa Bakhita compromete-nos a ver quem não é visto, a resgatar quem hoje a economia e a cultura fazem escravo, a honrar a dignidade infinita de cada irmão e irmã, nos quais o próprio Jesus bate à nossa porta”, declarou Leão XIV, no primeiro compromisso deste segundo dia de visita à capital francesa.
Evocando o exemplo de Josefina Bakhita (1869-1947), antiga escrava sudanesa que dá nome à instituição, o pontífice encorajou os projetos de solidariedade a tomarem “decisões e investimentos contra a corrente”, promovendo uma partilha onde “ninguém é tão pobre que não tenha algo para oferecer”.
No segundo dia da viagem a França, Leão XIV deixou um apelo transversal num ambiente sociopolítico frequentemente marcado pelo debate tenso sobre a imigração.
“Estou feliz por começar convosco este meu segundo dia em Paris, nesta casa que testemunha a toda a cidade ser possível encontrar-se e viver juntos com dignidade e em paz”, apontou.
O Papa sustentou, numa breve intervenção, que a verdadeira história da humanidade não é escrita “por quem parece vencer, impondo-se e ocupando o espaço”, mas por quem decide abrir espaço e “inicia processos de paz”.
O encontro contou com o testemunho de refugiados e pessoas assistidas em várias instituições católicas.
Meysam, um refugiado afegão acolhido em 2015, relatou como a ‘Maison Bakhita’ lhe devolveu a esperança e lhe permitiu tornar-se voluntário num atelier de costura, sublinhando a alegria de ensinar o ofício a mulheres exiladas.
Por sua vez, Blessing, mulher de 31 anos, partilhou o seu percurso de libertação de redes de exploração com o apoio da associação ‘Aux Captifs la Libération’, que a ajudou a regularizar os documentos e a encontrar trabalho num restaurante.
O painel incluiu ainda Lise-Marie, acompanhada pela estrutura ‘A Bras Ouverts’, que evidenciou a importância da amizade e da inclusão para pessoas com deficiência.
“Continuai a dar testemunho do cuidado mútuo que, por meio do acolhimento fraterno, dos percursos formativos e do diálogo com a cidade, eleva o espírito e humaniza o mundo”, recomendou o Papa.
A Maison Bakhita, dirigida pelas Irmãs Scalabrinianas, acolhe migrantes de diversas proveniências, independentemente da sua filiação religiosa.
Leão XIV ofereceu à instituição um painel com a imagem da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, recordando na dedicatória oficial que a vocação da casa passa por acompanhar quem chega com a “fadiga da viagem e as feridas da separação”.

O desafio aos jovens: rejeitar ditadura dos “likes”
Leão XIV encontrou-se ontem ao final do dia com dezenas de milhares de jovens, que convidou a abandonarem um estilo de vida focado nas métricas digitais, rejeitando a “ânsia” consumista.
“Esse estilo de vida leva-nos a querer ter tudo, mas a não ser ninguém; a receber uma quantidade de ‘likes’, mas permanecendo sozinhos connosco mesmos”, declarou Leão XIV.
A vigília de oração no ‘Stade de France’, em Saint-Denis, encerrou o primeiro dia da visita papal com a presença de cerca de 80 mil jovens de todo o país.
“Sabemos, infelizmente, que existem forças contrárias à nossa ligação com Deus, potências que visam dividir pessoas e povos, colocando-os uns contra os outros”, lamentou.
No encontro, o pontífice alertou que uma sociedade indiferente a Deus se torna “alheia à questão do homem”.
“Ao afirmar que Deus está morto, é o homem quem se perde: se Deus não está com ele, o homem já não tem salvação e perde o sentido da existência”, observou.
A celebração foi estruturada num formato de diálogo, com dois jovens a dirigirem as suas inquietações diretamente ao Papa.
Chloé, estudante de farmacologia de 25 anos ligada ao coletivo ‘La Cité Céleste’, questionou Leão XIV sobre como conciliar a força do ímpeto missionário com a convivência com pessoas de outras crenças nos bairros populares da Ilha de França.
Na resposta, o Papa indicou que o Evangelho “não leva ao conflito, mas convida sempre ao perdão”.
“A mensagem cristã não constitui um obstáculo à convivência fraterna; pelo contrário, promove-a”, sustentou.
Leão XIV advertiu que é “impossível testemunhar Cristo sem amar aqueles a quem queremos anunciá-lo”, sublinhando que a missão católica “não está em contradição com o respeito pelas outras religiões”, uma vez que a Igreja não rejeita nada do que nelas existe de “verdadeiro e de santo”.
François, estudante de agronomia e dirigente escutista na Borgonha, expressou a dificuldade da juventude em discernir a sua vocação num mundo onde a ansiedade e a incerteza “fragilizam o entusiasmo” perante missões que parecem desmesuradas.
Leão XIV reconheceu que a “precariedade dos projetos de futuro”, a “fragilidade das relações”, o “cansaço digital” e a “ansiedade perante as alterações climáticas” são estados de espírito reais que marcam a atual geração.
Como antídoto contra o medo, o Papa exortou os jovens à oração e ao serviço, pedindo que troquem as lamentações por responsabilidade e assumam corajosamente a resposta: “Eis-me aqui, Senhor!”.
Recorrendo à figura de Santa Joana d’Arc, o pontífice convocou a juventude para um combate da fé, sublinhando que a luta cristã “não recorre às armas da violência, do desprezo ou da opressão”.
O evento incluiu o espetáculo ‘Nas pegadas dos santos de França’ que evocou figuras como o Beato Marcel Callo e Santa Teresinha do Menino Jesus, culminando com a veneração de relíquias da Santa Túnica e de vários santos.
“Estes santos mudaram a história, tendo levado muitos do sofrimento à esperança, porque, acima de tudo, mudaram o seu próprio coração, transformando-o à luz da fé”, disse o Papa.
Na sua reflexão, o pontífice apontou a fé como fundamento dos “princípios de igualdade e fraternidade” que inspiram a sociedade francesa.
“Mais do que meras prescrições legais, são as escolhas radicais e corajosas de um coração livre”, justificou.
Ao início da tarde deste sábado, Leão XIV preside a uma Missa na Praça da Concórdia, num perímetro alargado para acolher centenas de milhares de fiéis, antes de viajar da capital francesa para o Santuário de Lourdes.
(Com Ecclesia e Vatican News)