A ouvidoria da Ribeira Grande é o lugar dos Açores onde a tradição cultural se alia à fé com as Cavalhadas

As Festas de São Pedro arrancam esta sexta-feira, na Ribeira Seca, concelho da Ribeira Grande, com o início do tríduo de preparação para a solenidade do padroeiro, um dos momentos religiosos mais marcantes da freguesia e do concelho, que alia a devoção popular a uma forte componente religiosa cultural.
A primeira celebração do tríduo realiza-se hoje, às 19h30, e será orientada pelo padre Tiago Tédeu. Amanhã, sábado, a celebração decorre às 18h00, com a pregação do padre Carlos Simas, ouvidor da Ribeira Grande, terminando no domingo, às 10h00, com o padre Nelson Vieira.
As festividades culminam na segunda-feira, dia de São Pedro, com duas celebrações eucarísticas: a tradicional Missa da Alvorada, às 5h00, e a Missa Solene da Festa, às 10h30. Ambas serão presididas pelo padre Pedro Lima, pároco de Santa Luzia, em Angra do Heroísmo, e assistente nacional da Liga Operária Católica (LOC).
Em declarações ao sítio Igreja Açores, o padre Carlos Simas, ouvidor da Ribeira Grande, sublinha que São Pedro ocupa um lugar único na vida da Igreja.
“A liturgia do dia recorda-nos, antes de mais, a profissão de fé de Pedro, quando reconhece Jesus como o Messias, o Filho de Deus vivo. É sobre essa fé que Cristo estabelece a unidade da Igreja, confiando a Pedro a missão de ser a rocha sobre a qual ela assentará”, explica.
O sacerdote recorda que Pedro é, simultaneamente, o pescador de homens, o primeiro Papa e o homem da unidade, escolhido por Jesus para congregar todos aqueles que lhe foram confiados.
Apesar dessa missão, Pedro é também apresentado como um homem profundamente humano. A sua fragilidade torna-se, segundo o responsável, uma mensagem de esperança para os cristãos.
“Pedro mostra-nos que a Igreja pode ser frágil nos seus membros, mas permanece firme porque a sua cabeça é Cristo. A fragilidade de Pedro é também a nossa fragilidade. O que prevalece é a fé, essa confiança em Jesus Cristo que nos sustenta e nos conduz ao Pai”, afirma.
Entre os símbolos associados ao apóstolo destacam-se as chaves, sinal da autoridade que Cristo lhe confiou sobre a Igreja, e o rebanho, expressão da missão de cuidar e conduzir o povo de Deus. Para o sacerdote, estes símbolos remetem para uma missão que continua atual: responder diariamente à pergunta que Jesus dirige a Pedro nas margens do mar de Tiberíades -“Tu amas-me?” – um desafio que “continua a ser dirigido a todos os cristãos”.
A forte devoção popular a São Pedro explica igualmente o lugar que ocupa entre os santos populares. O padre Carlos Simas lembra que, na Ribeira Seca, esta tradição ganhou especial força após os sismos que atingiram São Miguel. Segundo a tradição, a imagem de São Pedro permaneceu intacta, alimentando entre a população a convicção de uma especial proteção divina e fortalecendo a devoção ao santo.
A dimensão religiosa cruza-se, assim, com uma forte identidade cultural. Para além dos arraiais e dos momentos de convívio, um dos pontos altos das festas continua a ser a realização das Cavalhadas de São Pedro.
Segundo o ouvidor da Ribeira Grande, esta tradição começou de forma modesta, com um pequeno grupo de cavaleiros que prestava homenagem ao santo junto ao adro da igreja. Hoje, transformou-se numa das maiores expressões etnográficas da freguesia.
“Este ano teremos cerca de 140 cavaleiros. A participação cresceu de tal forma que já não é possível fazer apenas a volta ao adro da igreja, sendo necessário um percurso mais alargado. As cavalhadas continuam a ser uma expressão pública da fé e da devoção a São Pedro, profundamente enraizada na identidade da Ribeira Seca”, refere.
O padre Carlos Simas destaca ainda que as festas começam muito antes do dia principal. A preparação da ornamentação, os ensaios, os encontros e o trabalho comunitário fazem parte integrante da celebração.
“A festa começa nos preparativos. É aí que se constrói o convívio, a alegria e o sentido de comunidade. Estar com as pessoas, partilhar tempo, preservar as tradições e preparar juntos a celebração também é viver o cristianismo”, afirma.
O sacerdote espera que todos os momentos religiosos das festividades ajudem a renovar a fé dos participantes e reforcem a verdadeira devoção ao padroeiro.
“Trabalhamos para que a dimensão religiosa toque o coração de todos e para que, acima de tudo, se viva uma verdadeira devoção a São Pedro”, conclui.
Também em Ponta Delgada, as verbenas de São Pedro têm uma longa tradição.