
Os cardeais reunidos em consistório extraordinário debateram esta sexta-feira, no Vaticano a “cultura do poder” e da violência, num encontro marcado pela solidariedade com as vítimas do sismo na Venezuela.
O prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, cardeal Víctor Manuel Fernández, defendeu a necessidade de “superar a teoria da guerra justa” perante o uso abusivo que é feito deste conceito em diversos cenários internacionais.
Numa intervenção divulgada pela sala de imprensa da Santa Sé, o colaborador do Papa mostrou-se crítico da natureza “extremamente desproporcional das intervenções militares em Gaza e no sul do Líbano”, por parte do exército de Israel.
O cardeal argentino sublinhou que a legítima defesa deve ser entendida num “sentido mais estrito” e nunca confundida com ações preventivas que carecem de provas concretas.
O prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé apontou a desproporção das operações militares no Médio Oriente como exemplos que “ultrapassam excessivamente os limites da legítima defesa”.
O responsável alertou para uma “profunda transformação cultural” que favorece a normalização da violência e a reabilitação da guerra como um instrumento aceite na política internacional.
Esta “cultura do poder”, explicou o cardeal, atua através da desinformação e da “ridicularização do adversário”, preparando o terreno para que novos conflitos ocorram sem resistência efetiva por parte das populações.
Os trabalhos iniciaram-se com uma oração pelas vítimas dos sismos de quarta-feira na Venezuela, que causaram centenas de mortos e milhares de feridos e desaparecidos.
A sessão da tarde centrou-se na análise do capítulo quinto da encíclica ‘Magnifica Humanitas’, de Leão XIV, que aborda a questão da guerra e da reconciliação.
Os grupos de trabalho manifestaram a urgência de abandonar a “globalização da indiferença” e de construir uma civilização assente no amor e no bem comum.
Vários cardeais convergiram na rejeição da “lógica da guerra justa”, defendendo que o Evangelho não se impõe através da força.
A reflexão dos membros do Colégio Cardinalício destacou o papel do Papa como garantia de independência da Igreja face ao poder político e económico.
Papa e Cardeais assumem preocupação com isolamento na sociedade

O consistório extraordinário debateu hoje a construção do bem comum face ao isolamento social, com os cardeais a exigirem que os católicos sejam “arquitetos sábios” na defesa de uma sociedade global fraturada.
O encontro, no Auditório Paulo VI, dedicou a sua terceira sessão a uma reflexão sobre os desafios contemporâneos, cruzando as inovações tecnológicas com a crise de sentido que afeta as novas gerações.
Os grupos de trabalho identificaram “profundas fraturas” entre povos e no interior das famílias, alertando que o individualismo contemporâneo alimenta a perigosa ilusão de que “os outros existem para o nosso sucesso”.
Segundo nota enviada aos jornalistas, pela sala de imprensa da Santa Sé, sinalizaram o crescimento de uma atitude identitária “tribal” como mecanismo de defesa face à ausência de “relações significativas” e à instabilidade institucional.
A introdução dos trabalhos esteve a cargo do cardeal Stephen Brislin, arcebispo de Joanesburgo em 2024, que cruzou a teologia cristã com as orientações do quinto capítulo da encíclica ‘Magnifica humanitas’, de Leão XIV.
O relator traçou um paralelo bíblico entre a construção de Babel e a edificação de Jerusalém, alertando que qualquer busca de unidade desvinculada de uma perspetiva superior “conduz à confusão” e à fragmentação.
A assembleia analisou também o impacto antropológico da inteligência artificial, exigindo que o avanço tecnológico não reduza o ser humano a “números e estatísticas” e que preserve intacta a dignidade do trabalho humano.
Os cardeais sublinharam o dever da Igreja de contrariar a polarização crescente e alertaram que a construção do bem comum exige “uma linguagem do coração para superar o conformismo”.
O colégio cardinalício recomendou a promoção do ensino da Doutrina Social da Igreja e o apoio à formação de futuros “servidores públicos” capazes de olhar além do ganho imediato e do lucro económico.
A reflexão coletiva sublinhou que a resposta institucional passa por afastar dinâmicas de “polarização e de integralismo”, abraçando um modelo sinodal capaz de sarar feridas e reconstruir a “cidade de todos”.
Leão XIV marcou presença na abertura e no final da sessão, exortando o colégio de cardeais a alargar o impacto dos debates na vivência pastoral das respetivas dioceses.
O programa oficial inclui um debate com o Papa, esta tarde, sobre a implementação do Sínodo e encerra-se na segunda-feira com a Missa da solenidade de São Pedro e São Paulo.
O Colégio Cardinalício tem 241 cardeais oriundos de 92 países dos cinco continentes, incluindo Portugal, entre os quais 117 eleitores.
(Com Ecclesia e Vatican News)
Vaticano: Papa pede apoio “forte, explícito e público” aos cardeais