Formação para voluntários e técnicos na Terceira decorreu no Salão da Cáritas e foi orientada por Henrique Joaquim, professor e atual gestor do Fundo de Emergência Social da Fundação Jerónimo Martins

O Movimento Comunidades Vivas promoveu, ontem e hoje, na ilha Terceira, duas ações de formação que reuniram voluntários e técnicos de intervenção social para reforçar competências, estreitar a articulação entre diferentes agentes e consolidar um modelo de intervenção comunitária centrado na proximidade e na dignidade da pessoa.
Ao longo de dois dias, o Movimento Comunidades Vivas apostou na capacitação dos agentes locais, distinguindo, mas aproximando, os papéis do voluntário e dos profissionais da intervenção social. A primeira formação, destinada aos voluntários, centrou-se na identificação e sinalização de situações de vulnerabilidade social, enquanto a segunda reuniu técnicos das redes sociais dos municípios de Angra do Heroísmo e da Praia da Vitória para refletir sobre os princípios éticos e comunitários que sustentam o projeto e a necessidade de respostas cada vez mais articuladas.
As sessões foram orientadas por Henrique Joaquim, antigo diretor-geral da Comunidade Vida e Paz, ex-coordenador da Nova Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem Abrigo 2025-2030, professor da Universidade Católica Portuguesa e atual gestor do Fundo de Emergência Social da Fundação Jerónimo Martins.
Em declarações ao Sítio Igreja Açores, Henrique Joaquim afirmou que o principal objetivo destas duas ações foi criar “dois espaços, acima de tudo, de reflexão e formação sobre o que pode ser o papel quer dos voluntários, quer dos profissionais no desenvolvimento e na construção do Movimento Comunidades Vivas”
O especialista explicou que o Movimento Comunidades Vivas assenta na construção de comunidades capazes de cuidar dos seus membros, sobretudo daqueles que vivem em maior vulnerabilidade.
“Ter uma comunidade viva significa ter uma comunidade local capaz de cuidar de todas as pessoas, estar atenta às que estão em situação de maior vulnerabilidade social, para que todas tenham a resposta mais adequada possível à sua situação”, afirmou.
Segundo Henrique Joaquim, a crescente complexidade dos problemas sociais exige uma intervenção integrada, que combine a proximidade dos voluntários com a intervenção técnica especializada.
“Hoje estamos a falar de vulnerabilidades sociais que são cada vez mais complexas e que muitas vezes radicam na dificuldade que as pessoas têm no acesso e na efetivação dos seus direitos”, sublinhou.
Nesse contexto, defendeu que os voluntários desempenham um papel insubstituível por estarem inseridos nas comunidades e serem frequentemente os primeiros a identificar sinais de fragilidade. Contudo, frisou que a sua missão passa pela sinalização e encaminhamento das situações, e não pela intervenção técnica.
“O papel do voluntário não é fazer um diagnóstico social nem elaborar um plano de intervenção. O seu papel é saber transmitir, pelas vias próprias, a sinalização dessa situação a uma equipa de profissionais e confiar que esses profissionais darão a resposta adequada”, explicou.
O formador alertou ainda para a necessidade de ultrapassar respostas meramente assistencialistas. Embora o apoio imediato possa ser necessário, considera que só uma abordagem estruturada permite quebrar ciclos de vulnerabilidade.
“O facto de eu conseguir providenciar alimentos, uma consulta ou uma renda resolve o problema naquele momento, mas o problema pode continuar lá. O desafio é encaminhar essa situação para uma rede estruturada, capaz de construir uma resposta consistente que não só resolva o problema como, de preferência, o possa prevenir no futuro”, afirmou.
Henrique Joaquim acredita, por isso, que esta complementaridade entre voluntários e profissionais permitirá tornar as comunidades mais preparadas para responder aos desafios sociais atuais.
“Não é um trabalho deste lado e daquele que depois se soma; é um trabalho coletivo em que cada um tem um papel diferente, mas ambos contribuem exatamente para o mesmo fim: construir uma comunidade mais viva e orientada para o bem comum”, concluiu.
As duas formações integram o percurso de capacitação promovido pelo Movimento Comunidades Vivas, uma iniciativa coordenada pela Cáritas da ilha Terceira, que aposta na criação e fortalecimento das comunidades, na formação dos agentes locais e na articulação entre voluntariado e respostas sociais, procurando desenvolver um modelo sustentável e replicável noutras realidades.
Esta não é a primeira formação do Movimento. Em maio passado o salão da Cáritas da ilha Terceira recebeu a formação “Não me esqueci de ti”, que teve como foco o desenvolvimento de competências de relação de ajuda, escuta ativa, empatia e intervenção comunitária de proximidade, enquadrando-se na preparação e capacitação de voluntários e agentes sociais para responder a situações de vulnerabilidade e emergência social nas comunidades.
O encontro reforçou os princípios que estão na base do Movimento Comunidades Vivas, apresentado no dia 3 de março, após nove meses de trabalho em formato de laboratório social, marcado pela escuta ativa, diagnóstico participado e identificação de necessidades e recursos em várias comunidades da ilha, nomeadamente São Mateus, Santa Bárbara, Vila Nova e a cidade de Angra do Heroísmo.
Sob o lema “Ajuda-me a ajudar”, o Movimento Comunidades Vivas assume-se como um projeto dinâmico e em permanente construção, aberto à participação de novas comunidades e parceiros, procurando criar um modelo sustentável e replicável noutras realidades.








