O Santuário do senhor Bom Jesus é nesta altura lugar de peregrinação obrigatória para quem regressa ao Pico de férias

A ilha do Pico prepara-se para viver uma das suas maiores manifestações de fé e identidade cultural com as Festas do Senhor Bom Jesus Milagroso, que começam oficialmente a 25 de julho, com a tradicional Regata dos Baleeiros, e se prolongam até 7 de agosto, reunindo milhares de peregrinos, emigrantes e visitantes no Santuário de São Mateus. O dia grande da festa é o 6 de agosto, dia em que a Igreja assinala liturgicamente a festa da transfiguração do Senhor.
A festa, este ano, será presidida por D. Roberto Mariz, bispo auxiliar do Porto, enquanto a pregação das nove celebrações ficará a cargo dos sacerdotes da ilha do Pico, cada um responsável por um dos dias. A escolha dos pregadores resultou de uma decisão tomada em reunião pastoral, refletindo a vontade de envolver todo o presbitério da ilha nesta preparação espiritual. O tema orientador será o mesmo que marcou o programa pastoral da Diocese de Angra para este ano: “Cristão, que dizes de ti mesmo?”. Ao longo dos nove dias, cada sacerdote desenvolverá uma dimensão dos três grandes eixos de formação propostos pela Diocese, procurando ajudar os fiéis a refletirem sobre a identidade e a missão do cristão no mundo atual.
Este ano, as celebrações assumem um significado particular, numa altura em que o Santuário do Senhor Bom Jesus Milagroso assinala 64 anos da sua criação canónica. Instituído a 1 de julho de 1962 por decreto episcopal de D. Manuel Afonso de Carvalho, o santuário é hoje um dos maiores centros de peregrinação e religiosidade popular dos Açores. A devoção, contudo, é bem mais antiga e remonta a 1862, quando uma imagem do Ecce Homo foi trazida do Brasil, dando origem a uma tradição que atravessa gerações e continua profundamente enraizada na população picoense.
Regata dos Baleeiros abre as festividades
A tradicional Regata dos Baleeiros, marcada para o dia 25 de julho, às 10h00, inaugura simbolicamente o programa festivo, estabelecendo a ligação entre a fé, o mar e a identidade baleeira da ilha do Pico.
Dois dias depois, a 27 de julho, inicia-se o novenário de preparação espiritual para a grande festa. Às 19h30 realiza-se a Procissão da Mudança, que este ano apresenta uma alteração no seu percurso. Em vez de passar por detrás da igreja, a procissão descerá pela Estrada Regional e seguirá pela escadaria de acesso ao santuário, marcando o início das celebrações religiosas. As missas da novena decorrem todas às 19h30.
Para além da dimensão religiosa, o programa volta a integrar momentos dedicados à cultura tradicional açoriana.
No dia 2 de agosto realiza-se um serão musical protagonizado por um grupo de violas da terra, instrumento emblemático da tradição açoriana.
Já no dia 4 de agosto, o recinto acolhe um espetáculo de folclore com a participação de grupos dos Açores e de Vila Nova de Gaia, reforçando os laços culturais entre os Açores e o Continente português. A organização destes momentos culturais conta com o forte empenho da Casa do Povo de São Mateus, parceira habitual das festividades.
Dia 6 é o ponto alto das celebrações
O dia 6 de agosto constitui o momento mais intenso da festa.
Às 16h00 será celebrada a Missa Solene, seguindo-se, às 18h30, a tradicional Procissão Solene do Senhor Bom Jesus Milagroso, considerada um dos maiores momentos de manifestação pública da fé nos Açores.
Este ano, a procissão regressa ao seu percurso mais antigo, descendo até ao Passo e seguindo depois em direção à igreja, recuperando o chamado “giro primitivo”, uma alteração que muitos fiéis aguardavam com expectativa: parte do Santuário, percorre a estrada regional, passa pelas ruas da Boa Vista e do Passo Branco, regressa à Estrada Regional e Santuário.
No dia seguinte, 7 de agosto, às 19h30, realiza-se a Procissão da Mudança, encerrando oficialmente as festividades.
Reconhecendo a importância histórica, religiosa e social destas celebrações, o Governo dos Açores voltou a conceder tolerância de ponto aos trabalhadores da Administração Pública Regional cujos serviços estejam sediados na ilha do Pico no dia 6 de agosto.
Num despacho publicado em Jornal Oficial, o executivo regional destaca que as Festas do Senhor Bom Jesus Milagroso representam, desde 1862, um dos maiores acontecimentos religiosos da Região Autónoma dos Açores, reunindo anualmente milhares de pessoas numa demonstração de fé profundamente enraizada na identidade picoense.
Com mais de um século e meio de história, a devoção ao Senhor Bom Jesus Milagroso continua a afirmar-se como um dos mais importantes patrimónios espirituais dos Açores.
Entre a oração, a peregrinação, as tradições populares e o reencontro das famílias, as festas voltam a transformar São Mateus no coração religioso da ilha do Pico.
A coincidência entre a festa litúrgica da Transfiguração do Senhor, celebrada a 6 de agosto, e a grande solenidade do Senhor Bom Jesus Milagroso confere um significado espiritual particularmente profundo às celebrações. Enquanto a Transfiguração revela Cristo glorioso no Monte Tabor, fortalecendo a fé dos apóstolos antes da sua paixão, a imagem do Bom Jesus, representada no Ecce Homo, apresenta Jesus flagelado e coroado de espinhos, expressão do seu sofrimento redentor. Estas duas realidades completam-se na mensagem cristã, recordando que o Senhor que sofre é o mesmo que reina na glória. Também a subida ao Monte Tabor simboliza a elevação espiritual, convidando os fiéis e peregrinos a fazerem, no contexto das festas do Pico, a sua própria subida interior, renovando a esperança e a confiança em Cristo no meio das provações da vida.