D. Armando Esteves Domingues presidiu este domingo às celebrações do Senhor Santo Cristo dos Milagres, em Brampton e elogiou os açorianos que não “têm medo de falar de Deus”

Na primeira vez que presidiu às festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres no Canadá, o Bispo de Angra deixou um desafio direto à comunidade açoriana: quem foi “revestido de Cristo” pelo Batismo não pode responder à violência com violência, ao ódio com vingança ou às feridas com mais feridas, na homilia da Missa solene da festa, este domingo.
D. Armando Esteves Domingues afirmou que a Paixão e Morte de Jesus obrigam o cristão a uma outra gramática – a do perdão, da misericórdia e do amor – num mundo marcado por guerras e tragédias.
“Cristo é o vosso emblema”, afirmou D. Armando Esteves Domingues, lembrando que pelo Batismo “somos revestidos de Cristo”. Essa condição, explicou, confere ao cristão uma identidade muito mais profunda do que aquela que resulta de qualquer documento ou pertença. E essa identidade tem consequências.
“Quem se veste de Cristo não pode simplesmente reproduzir a gramática do mundo. Não pode responder à agressão com agressão, à vingança com vingança, ao ódio com ódio”, enfatizou.
É precisamente diante da imagem do Senhor Santo Cristo que esse desafio se torna mais difícil e mais concreto.
D. Armando Esteves Domingues convidou mesmo os fiéis a colocarem-se diante da imagem, a olharem Cristo nos olhos e a entrarem no mistério daquele rosto marcado pelo sofrimento.
“Já tive tentação de o abraçar”, confessou o Bispo, ao falar da contemplação do Ecce Homo.
Abraçar Cristo significa também, explicou, acompanhá-lo no caminho do Calvário e reconhecer esse caminho nas “feridas concretas da existência: no irmão difícil a quem não se consegue perdoar, nas pequenas guerras de todos os dias, na dificuldade de ser generoso, de partilhar a vida e os projetos”.
“É aí que a devoção deixa de ser apenas tradição e se transforma em vida” concluiu.
O prelado diocesano foi particularmente incisivo perante a realidade de um mundo onde as guerras continuam a produzir morte e destruição.
“Nesta humanidade aparentemente perdida entre bombas e tragédias, há lugar para Deus e para a paz”, afirmou.
O problema, acrescentou, não está apenas em um mundo sem Deus, mas também na imagem errada de Deus que tantas vezes se constrói: um Deus vingativo, capaz de justificar a posse da terra, a violência ou a destruição do outro.
“Um Deus que não é amor” não é o Deus do Evangelho
Por isso, diante da violência, o cristão não pode aceitar a lógica da violência. E diante do ódio não pode escolher a vingança.
“A última palavra deve sempre pertencer ao amor”, afirmou.
O Bispo de Angra lembrou que o imenso perdão de Deus só se torna verdadeiramente eficaz quando passa para a relação com os outros. O perdão recebido não pode ficar fechado dentro de cada pessoa. Tem de ser oferecido. E isso significa perdoar também quando custa.
“O amor verdadeiro não foge das feridas da vida, permanece.”
Uma Igreja que não tem medo de falar de Deus
O Bispo de Angra deixou também uma palavra de reconhecimento à comunidade açoriana no Canadá, que descreveu como uma “ comunidade viva”, que “crê, que preserva a sua identidade e que não deve ter medo de falar de Deus”, na praça pública, em qualquer lado.
“Às vezes penso que nalguns sítios já é quase pecado mortal falar de Deus”, afirmou.
Para D. Armando Esteves Domingues, a fé não pode ser uma realidade guardada para os dias de festa.
“Feliz quem alimenta a vida com a fé e que não a mete na gaveta para a ir buscar apenas em dia de festa”, disse.
A fé, acrescentou, não é mero otimismo. É esperança. É acreditar que Deus permanece ao lado do ser humano mesmo quando “a vida parece enevoada”. E essa esperança permite acreditar que o ódio não terá a última palavra.
As Portas da Cidade como ponte entre duas pátrias
As duas décadas do culto no Canadá ficaram também marcadas pela inauguração do Monumento das Portas da Cidade, um símbolo escolhido pela comunidade açoriana para assinalar a ligação à terra de origem, nomeadamente a Ponta Delgada
Na homilia, D. Armando Esteves Domingues encontrou nas portas uma imagem particularmente forte da experiência da emigração.
“São portas de entrada e de saída, um permanente vai e vem entre duas pátrias. São ligação às origens, aos costumes, à cultura e à fé, mas também sinal de abertura e de diálogo com o país que acolheu os açorianos” disse.
As portas, afirmou, devem lembrar uma comunidade que não esquece de onde vem, mas que também olha para o futuro.
“Uma ponte entre Açores e Canadá. Entre memória e futuro. Entre identidade e encontro”, afirmou. E até aqui o Bispo encontrou uma dimensão espiritual: Nossa Senhora de Fátima, titular da paróquia onde estas festas têm lugar, é chamada “Porta do Céu”.
As celebrações começaram na quinta-feira com a Missa dos Doentes, antes da mudança da imagem e da grande procissão solene.



