O tempo, esse tesouro

Pelo cónego Hélder Miranda Alexandre

Pe. Hélder Miranda

O Papa Leão XIV adverte na Encíclica Magnifica Humanitas: “não se devem subestimar as formas mais subtis de dependência ligadas à economia digital da atenção, na qual plataformas e serviços são concebidos para captar o tempo e o olhar dos utilizadores, explorando as suas fragilidades e enfraquecendo a liberdade interior” (n. 170).

De facto, para a inteligência artificial, o tempo é feito de microssegundos, sem qualquer qualificação humana: está sempre projetada para o futuro, quase sem memória. Não nos concede tempo, e sentimo-nos esmagados por essa velocidade. Tornamo-nos escravos, sob o risco de deixar de viver verdadeiramente.

Durante este ano jubilar sacerdotal, para mim e mais dois companheiros de viagem, intuímos que a comemoração das bodas de prata é apenas uma gota no oceano da existência, e até não passa de uma pequena semente no caminho construído com a comunidade cristã. Contudo, na sua singularidade torna-se saboroso com quem o partilhamos e amamos, mas cruel com os que perdemos. Cada vez mais compreendo que não pode ser desperdiçado.

O Cardeal Martini recomendava aos seus padres um critério chave para a prioridade das escolhas, baseado nas palavras de Jesus: “Eu faço sempre o que agrada ao Pai” (Jo 8, 29). Um critério de fé e obediência. Na verdade, folheando as páginas do Evangelho, Jesus sabia que não podia fazer tudo e recusava-se a perder tempo com o que não lhe dizia respeito. Apesar das inúmeras solicitações, foi sempre senhor do seu tempo e não hesitava em desiludir o povo quando a missão o chamava para outro lugar. Uma leitura atenta descobre o significado dos tempos bíblicos e a sua mensagem extraordinária. Nada é por acaso.

Martini identifica sinais de alarme de um tempo mal vivido, também para nós, padres e leigo: agitação constante e nervosismo, fadiga física e psicológica que conduz ao descontentamento, à desilusão e à amargura, talvez até a um burnout silencioso; lamentações pela falta de apoio e pelo peso de tudo; inconstância e indiferença em relação aos outros.

No domingo passado, o Senhor pediu que não desperdiçássemos oportunidades. O tesouro está diante de nós, a pérola foi encontrada. Não há tempo a perder quando se encontra o essencial, desde que se renuncie ao que não importa verdadeiramente. Atrever-me-ia mesmo a dizer que o próprio tempo é esse tesouro capaz de abrir as portas da eternidade.

As férias e as pausas são uma oportunidade para refletir e interiorizar o tempo que temos. Eis algumas sugestões martinianas: fazer um elenco do que é importante, identificar em que perdemos demasiado tempo e em que podemos investir mais. Às vezes, é preciso refazer esse elenco, colocando a oração no início e como fundamento do que se decide; procurar a ajuda de alguém que nos ajude a reorientar; saber delegar, essa ascese verdadeiramente difícil. É preciso saber pedir ajuda e aceitar, com humildade, que outros podem realizar determinadas tarefas tão bem ou até melhor do que nós.

As dimensões do tempo entrelaçam-se com as dimensões da nossa vida. Passamos por crises de uma etapa para outra. Segundo Guardini, entre a infância e a juventude ocorre a crise da puberdade; entre a juventude e a idade adulta, a crise da experiência; entre a idade adulta e a maturidade, enfrentamos a crise dos próprios limites; entre a maturidade e a velhice, surge a crise do afastamento (R. Guardini, As Idades da Vida, p. 6).

Estas crises não são um fracasso, mas etapas naturais do crescimento humano. São sinais que pedem discernimento, nunca realidades a absolutizar. Acolhê-las com maturidade é aprender a viver. E talvez não exista experiência mais profundamente humana do que viver o tempo no amor, que dá ao tempo o seu verdadeiro sentido e o abre à eternidade.

 

 

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