Mulheres na Igreja: uma pergunta que continua a desafiar-nos

Por Carmo Rodeia

 

Há perguntas que regressam ciclicamente à vida da Igreja não porque alguém pretenda provocar ruturas, mas porque a própria realidade insiste em colocá-las. A participação das mulheres é uma delas.

Ao longo de dois mil anos de Cristianismo, poucas evidências históricas são tão claras: sem as mulheres, a Igreja não seria aquilo que é. Constituem a maioria dos fiéis, das catequistas, das missionárias, das consagradas e das voluntárias, mas o seu contributo vai muito além dos números. Algumas das maiores renovações espirituais da Igreja nasceram da sua fé, da sua inteligência e da sua coragem.

O próprio Evangelho coloca as mulheres num lugar singular. Maria acolhe o anúncio da Encarnação com o seu «faça-se»; Maria Madalena é a primeira testemunha da Ressurreição e recebe de Cristo a missão de anunciar aos Apóstolos que Ele está vivo, razão pela qual a tradição cristã lhe atribuiu o título de apostola apostolorum.

Ao longo dos séculos, esta presença nunca deixou de marcar a história da Igreja. Santa Catarina de Sena influenciou decisivamente o regresso do Papa Gregório XI de Avinhão para Roma e interveio com notável autoridade durante o Grande Cisma. Santa Teresa de Jesus reformou o Carmelo e renovou profundamente a espiritualidade cristã. Santa Teresa de Lisieux tornou-se padroeira das missões sem jamais abandonar o convento, enquanto Santa Teresa de Calcutá transformou a misericórdia numa linguagem universal. A estas poderiam juntar-se Hildegarda de Bingen, Clara de Assis, Edith Stein, Brígida da Suécia e tantas outras mulheres que ensinaram a fé, inspiraram reformas e continuam a moldar gerações de cristãos.

Perante esta realidade, impõe-se uma pergunta: como compreender que mulheres cuja autoridade espiritual é reconhecida pela própria Igreja permaneçam excluídas dos ministérios ordenados? A questão não é nova, nem pode ser reduzida a uma disputa de poder ou à simples importação de reivindicações sociais para o universo eclesial. Trata-se, antes de mais, de uma interrogação sobre a coerência entre a história da Igreja e a sua organização institucional.

São João Paulo II ofereceu, na Carta Apostólica Mulieris Dignitatem (1988), uma das mais profundas reflexões do Magistério sobre a dignidade da mulher, afirmando a igual dignidade de homem e mulher enquanto criados à imagem de Deus e valorizando o chamado “génio feminino”. Poucos anos depois, porém, em Ordinatio Sacerdotalis (1994), declarou que a Igreja “não tem de modo algum a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres”, considerando esta posição definitiva. É nesta tensão entre igualdade de dignidade e diferença de funções que continua a situar-se o debate.

O Papa Francisco procurou recentrar esta discussão. Em 2013, apelou ao desenvolvimento de uma verdadeira teologia da mulher e recordou que a Igreja é feminina; é a Igreja, não o Igreja. A Igreja é esposa e é mãe. Mais do que uma imagem simbólica, tratava-se de um desafio à própria compreensão da Igreja e ao lugar concreto das mulheres na sua missão e nas suas estruturas.

Durante o seu pontificado foram dados passos significativos. O Motu Proprio Spiritus Domini abriu oficialmente às mulheres os ministérios instituídos de leitora e acólita, aos quais se juntou posteriormente o ministério de catequista. Na prática, estas decisões reconheceram juridicamente serviços que inúmeras mulheres desempenhavam há décadas nas comunidades cristãs.

Também o processo sinodal alimentou expectativas de uma participação mais ampla. O Documento Final da XVI Assembleia Geral do Sínodo sobre a Sinodalidade reconheceu que muitas mulheres continuam a encontrar obstáculos ao pleno reconhecimento da sua vocação, denunciou o clericalismo e o machismo como fatores de empobrecimento da missão da Igreja e defendeu uma participação efetiva das mulheres nos processos de discernimento e decisão sempre que a ordenação não seja requisito.

Muitos viram neste caminho a possibilidade de uma abertura ao diaconado feminino. No entanto, o recente Relatório do Grupo de Estudo n.º 5 concluiu que não existem condições para admitir mulheres ao ministério ordenado, incluindo o diaconado, por considerar que o sacramento da Ordem constitui uma única realidade, estruturada em três graus inseparáveis. Assim, admitir mulheres ao diaconado significaria alterar uma compreensão teológica que a Igreja afirma não ter autoridade para modificar.

A decisão confirmou a posição tradicional da Igreja, mas não encerrou o debate. Pelo contrário, tornou ainda mais evidente a tensão entre o reconhecimento crescente do papel das mulheres na vida e na missão eclesial e a manutenção dos limites relativos ao acesso aos ministérios ordenados. É precisamente nesta tensão que continua a situar-se uma das questões mais desafiantes para a Igreja contemporânea.

Apesar da manutenção da disciplina relativa ao sacramento da Ordem, o pontificado do Papa Francisco marcou uma mudança profunda na presença das mulheres nas estruturas de governo da Igreja. Convencido de que a valorização do seu contributo exigia mais do que declarações de princípio, promoveu reformas que permitiram a leigos e leigas assumir responsabilidades anteriormente reservadas ao clero. A Constituição Apostólica Praedicate Evangelium abriu caminho a esta transformação, que se traduziu num aumento significativo da presença feminina na Cúria Romana e em nomeações inéditas para cargos de elevada responsabilidade.

Entre elas destacam-se a irmã Simona Brambilla, primeira mulher a dirigir um Dicastério, a irmã Raffaella Petrini, nomeada presidente do Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano, e a irmã Nathalie Becquart, a primeira mulher com direito de voto numa Assembleia do Sínodo dos Bispos. Pela primeira vez, mulheres passaram igualmente a integrar o Dicastério para os Bispos, participando no processo de discernimento para a escolha dos novos bispos. Sem alterar a doutrina sobre a ordenação, estas decisões modificaram de forma duradoura a participação feminina nos processos de governo da Igreja.

O Papa Leão XIV tem dado continuidade a este caminho. As suas primeiras nomeações mostram que a presença das mulheres nos organismos centrais da Santa Sé deixou de ser encarada como exceção para assumir um caráter estrutural. A escolha de María Montserrat Alvarado para prefeita do Dicastério para a Comunicação, da irmã Alessandra Smerilli para dirigir o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral e da irmã Tiziana Merletti para a secretaria do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada confirma uma orientação que reforça a participação feminina nos níveis mais elevados da governação da Igreja. Também a nomeação de mulheres para organismos consultivos demonstra a intenção de integrar o seu discernimento em áreas tradicionalmente reservadas ao clero.

Mas será este o caminho suficiente para responder à questão de fundo?

O teólogo dominicano português Frei Bento Domingues entende que não. Ao longo dos últimos anos, tem defendido que a multiplicação de ministérios para leigos e a atribuição de cargos de governo às mulheres representam avanços importantes, mas não resolvem o problema estrutural da sua exclusão dos ministérios ordenados. Na sua perspetiva, enquanto as mulheres permanecerem afastadas dos ministérios que estruturam sacramentalmente a vida da Igreja, continuará a existir uma forma de marginalidade incompatível com a igualdade de dignidade proclamada pelo próprio Magistério.

Frei Bento Domingues vai mais longe ao sustentar que as justificações teológicas para excluir as mulheres da ordenação resultam sobretudo de condicionamentos históricos e culturais, mais do que da prática de Jesus ou da mensagem do Evangelho. Em diferentes intervenções públicas, sobretudo entrevistas e textos de opinião, que publica ao domingo no jornal Público, lamentou que as mulheres “ainda não tenham presente nem futuro” na Igreja, considerando que as reformas atualmente em curso, embora relevantes, permanecem insuficientes por não enfrentarem a questão central.

Independentemente da posição que cada um assuma neste debate, uma realidade permanece incontornável. A Igreja reconhece nas mulheres uma autoridade espiritual que atravessa toda a sua história. Reconhece-as como santas, doutoras da Igreja, missionárias, fundadoras, místicas, educadoras e protagonistas de algumas das suas mais profundas reformas. Ao mesmo tempo, mantém inalterada a doutrina que reserva o sacramento da Ordem aos homens.

É precisamente nesta tensão que o debate continua vivo. Não apenas porque interroga a organização da Igreja, mas porque questiona de que forma os dons distribuídos pelo Espírito encontram expressão nas suas estruturas. A pergunta formulada há alguns anos (2015) pelo Pontifício Conselho para a Cultura continua, por isso, a conservar toda a sua força: Porque é que uma presença tão grande de mulheres na Igreja não incidiu nas suas estruturas?

Talvez não exista ainda uma resposta consensual. Mas a história deixa uma certeza difícil de contestar: sem as mulheres, a Igreja nunca teria sido aquilo que é. O desafio que permanece é discernir de que modo essa evidência histórica poderá continuar a traduzir-se, com fidelidade ao Evangelho e à tradição viva da Igreja, em formas cada vez mais plenas de participação, corresponsabilidade e reconhecimento. É uma questão que não se resolverá apenas com nomeações, nem apenas com debates sobre a ordenação, mas com um discernimento eclesial capaz de escutar, sem receio, aquilo que a própria história do cristianismo continua a dizer.

 

 

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