Ainda há homens assim

Pelo padre José Júlio Rocha

Foto: Igreja Açores / JC

É difícil encontrar, pelo caminho, um homem como Cândido Mendes. Já vai nos 71 anos de vida e tem-na vivido com a plenitude que ela lhe concede. Nasceu na Fonte do Bastardo, por meados dos anos cinquenta, e é meu primo, dado que a sua avó, Maria Borba, era irmã da minha avó, Olívia. Filho de uma casa abundante de treze irmãos, Cândido emigrou para os Estados Unidos em meados dos anos setenta e por lá ficou.

Ingressou na Força Aérea americana e subiu na hierarquia até se aposentar como Major. Foi, no seu trabalho, um homem respeitado e, sobretudo, amado. Vive, hoje, nos arredores de Washington, mas tem uma casa nas encostas do Pico dos Borbas, na sua terra natal, casa herdada pela família da esposa, apalaçada, com uma vista belíssima e uma capela que lhe faz companhia.

Cândido é um homem bom. Cultiva a bondade, virtude rara e mal-amada. Helena, a esposa com quem convive há cinquenta anos, é uma daquelas mulheres que sabe cuidar, sobretudo porque Cândido é um aventureiro destemperado, capaz de se pôr a caminhar por horas, capaz de aventuras que preocupam a família, porque, como vou dizer adiante, Cândido está doente. E Helena zela por ele mais do que uma esposa.

No dia 11 de setembro de 2001, Cândido estava a trabalhar numa das alas do Pentágono, em Washington, quando o avião embateu. O estrondo foi devastador. Durante cerca de quatro horas, com as comunicações falidas, Cândido deambulou pelas ruas, à volta do Pentágono, sem se aperceber do que tinha acontecido, e a família, em pânico, sem saber dele. Graças a Deus nada de grave lhe aconteceu.

Mas o mais extraordinário de Cândido é a sua doença. Há 21 anos que ele padece de uma doença oncológica na boca. Já foi submetido aos mais variados tratamentos, desde operações de mais de sete horas até tratamentos inovadores. Ninguém sobrevive a um cancro de 21 anos. À exceção de Cândido. A sua resiliência e alegria de viver vencem todos os obstáculos e ele é a prova viva de que a boa vontade humana consegue vencer obstáculos e doenças intransponíveis. Como dizia Einstein, se quisermos, tudo é milagre.

Tive a honra de privar com ele durante seis dias, na semana passada, numa viagem que fizemos, 56 pessoas num autocarro, pelas cidades mais importantes do norte de Espanha. Se havia alguém que caminhava mais do que os outros, era o Cândido; se havia alguém mais curioso, com mais perguntas dos que os outros, era o Cândido; se havia alguém mais entusiasmado, ingénuo, quase uma criança a descobrir o mundo, era o Cândido. Um exemplo.

Cândido tem posições políticas e sociais profundamente equilibradas. É um sábio que lê muito, um homem que olha o mundo com os olhos magnânimos de quem rejeita os novos ímpetos políticos e prefere o equilíbrio. Profundamente católico sem entrar nos ímpetos integristas de muitos católicos americanos, sonhou sempre fazer o Caminho de Santiago.

E nós, os amigos, decidimos fazer-lhe uma surpresa. Chegados a Santiago de Compostela, eu, ele e o incrível Carlos, levámo-lo para o início do caminho português dentro da cidade. Pusemos-lhe uma vieira ao peito e demos-lhe um cajado. E lá foi ele, caminhando depressa, à nossa frente, até chegar à Plaza del Obradoiro, onde os 56 membros do grupo o esperavam com palmas e o conduziram até à catedral para dar um abraço ao Santo.

As suas palavras de agradecimento foram: “Os tratamentos tiraram-me a saliva da boca e as lágrimas dos olhos. Não pensem que eu não estou a chorar.”

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