Senhor Santo Cristo da Caldeira encerra grandes festas de verão em São Jorge

A partir de segunda feira e até sexta, dia 4 de setembro haverá confissões, terço e missa ao fim da tarde. Na quinta realiza-se também uma procissão de velas na Fajã da Caldeira de Santo Cristo

Foto: Igreja Açores/DS (Arquivo)

A ilha de São Jorge prepara-se para viver, no primeiro domingo de setembro, uma das celebrações mais marcantes do seu calendário religioso e cultural. A Festa do Senhor Santo Cristo da Caldeira encerra as grandes festas de verão da ilha e volta a reunir fiéis, peregrinos, romeiros e visitantes num cenário singular, onde a espiritualidade se cruza com a natureza, o silêncio e a fraternidade.

O programa religioso estende-se por vários dias e inclui celebrações durante a semana, entre os dias 31 de agosto e 6 de setembro, com terço e confissões, ao final da tarde. A quinta-feira é particularmente dedicada a Nossa Senhora de Fátima, com missa seguida de procissão de velas.

No domingo, 6 de setembro dia maior da festa, é celebrada uma missa às 9h00, especialmente dirigida aos peregrinos, seguindo-se, às 11h00, a missa solene. A celebração culmina com a procissão e o tradicional sermão da praça.

A pregação estará a cargo do padre Manuel António das Matas, reitor do Santuário do Senhor Santo Cristo da Caldeira, que enquadra a festa no tema do ano pastoral: “Cristão, que dizes de ti mesmo?”. A reflexão será centrada no Batismo e no compromisso que dele decorre.

“É um lugar onde as pessoas estão receptivas à mensagem”, sublinha o sacerdote em declarações ao Igreja Açores, defendendo que a festa constitui uma oportunidade para refletir sobre a condição de batizados e sobre o modo de construir “uma Igreja mais comprometida e ativa”.

Mas a Festa do Senhor Santo Cristo da Caldeira ultrapassa a dimensão estritamente litúrgica. Para o padre Manuel António das Matas, é também um momento privilegiado de encontro entre pessoas e comunidades, com particular destaque para a participação dos romeiros e para o almoço fraterno previsto para sábado, com sopas do Espírito Santo.

O cenário da Caldeira ajuda a explicar a força de atração desta celebração. A paisagem, o silêncio e o sossego do lugar criam um ambiente particularmente favorável à interioridade, mas também ao convívio.

“Como é um lugar tão aprazível, com uma bela paisagem, o silêncio, o surf ajudou muito no passado, a juventude da ilha… há uma série de componentes”, explica o reitor.

A presença de jovens e de pessoas de diferentes pontos dos Açores é uma das características da festa. Há quem procure o convívio, quem acampe, quem aproveite a natureza e quem chegue movido pela fé ou pela tradição familiar.

“Eu penso que as pessoas buscam o convívio, neste silêncio e na beleza da natureza”, considera o sacerdote, acrescentando que aquele lugar é “muito convidativo para refletir sobre a vida”.

A festa recebe também muitos visitantes provenientes do Pico e de outras ilhas, contribuindo para uma afluência que transforma a Caldeira, durante estes dias, num espaço de encontro.

“Não é só a parte de estar no convívio, mas também tem esta parte boa deles participarem na Eucaristia”, salienta o padre Manuel António das Matas.

Para muitos, a peregrinação representa igualmente um momento de ação de graças e de pedido de forças para o novo ano. Entre a caminhada, o acampamento, o convívio e a participação nas celebrações religiosas, a experiência assume diferentes dimensões.

“É o estar, o viver que nós compreendemos”, resume o reitor.

A devoção ao Senhor Santo Cristo da Caldeira está profundamente ligada à identidade religiosa de São Jorge. A tradição remonta a uma lenda local segundo a qual a imagem do Senhor Santo Cristo teria sido encontrada por um pastor a flutuar numa lagoa.

A imagem teria sido levada repetidamente para o povoado, regressando sempre, de forma misteriosa, ao lugar da fajã. Daí nasceu a convicção popular de que “o Santo Cristo quer estar lá em baixo na caldeira”, dando origem a um culto que atravessou gerações e continua a marcar a espiritualidade da ilha.

A devoção ao Senhor Santo Cristo tem, aliás, expressão em várias ilhas dos Açores — São Miguel, Santa Maria, Graciosa, São Jorge e Flores —, bem como no continente português e nas comunidades da diáspora.

O atual santuário é um dos seis santuários diocesanos. Ao longo dos anos, o espaço tem vindo a afirmar-se não apenas como destino de peregrinação, mas também como lugar de retiro, oração e encontro.

Entre as experiências mais marcantes recentemente vividas na Caldeira, o reitor destaca a “Aldeia da Esperança” e, de forma particular, a adoração do Santíssimo Sacramento que ali se fez, sobretudo na noite de encerramento da iniciativa, que juntou cerca de 300 jovens de todas as ilhas.

“Ficou uma marca. A adoração do Santíssimo foi um acontecimento muito bom”, recorda.

Também o retiro de sacerdotes da Diocese, realizado em abril deste ano, encontrou na Caldeira um espaço privilegiado para a oração e a fraternidade.

“Foi muito bom, grande espiritualidade e fraternidade”, afirma o sacerdote, revelando que haverá novas iniciativas no espaço no próximo ano.

Para o reitor, a beleza natural e o ambiente de silêncio tornam o santuário particularmente adequado a estas experiências: “Acho que o espaço e o ambiente são muito convidativos. Reúne beleza e espiritualidade e as pessoas hoje sentem falta disso, nem que seja apenas por uns dias”.

É precisamente essa conjugação entre fé, natureza, encontro e tradição que leva o padre Manuel António das Matas a deixar um convite aberto a toda a comunidade.

“Quero convidar toda a gente a vir a esta festa”, afirma.

E o convite não se dirige apenas aos devotos do Senhor Santo Cristo. O sacerdote considera que a experiência pode ser significativa também para quem chega sem uma relação particular com a devoção.

“Mesmo os que não são devotos do Santo Cristo… são sempre momentos marcantes e encontros fora de série para todos”, sublinha.

“Só o estar, a fraternidade que se gera e se alimenta e, se pudermos fazer esse encontro com o Senhor, todos beneficiaremos”, conclui o reitor.

A Festa do Senhor Santo Cristo da Caldeira assume assim um lugar particular no calendário da ilha de São Jorge: é a celebração que encerra as grandes festas de verão no triângulo, mas também uma espécie de passagem para um novo ciclo, entre a ação de graças pelo caminho percorrido e o pedido de força para o ano que começa.

Curiosamente, também na Diocese, o encerramento das grandes festas de verão acontece em dois santuários diocesanos. Depois da celebração de São Jorge, é a vez da ilha Terceira, onde, no segundo domingo de setembro, se realiza a Festa da Serreta, em honra de Nossa Senhora dos Milagres.

 

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