O primeiro dos três dias de preparação deixou um desafio que ultrapassa o calendário festivo: colocar Cristo no centro, escutar a sua Palavra e assumir, no quotidiano, a “cruz do amor” como caminho de discipulado

O bispo de Aveiro abriu esta quarta-feira os três dias de preparação para a Festa do Senhor da Pedra, em Vila Franca do Campo, colocando Cristo no centro da celebração e desafiando os fiéis a traduzirem a fé em escuta, misericórdia e entrega. D. António Moiteiro, que preside este ano às festas, deixou uma pergunta à comunidade: “Que lugar ocupa Jesus na nossa vida e qual é o centro da nossa fé?”
A resposta, para o bispo de Aveiro, começa por recentrar a fé na figura de Jesus.
A partir do Evangelho da Transfiguração, o prelado lembrou que não há verdadeira vida cristã sem escuta e que a Palavra só ganha sentido quando deixa de ser apenas ouvida para se transformar em vida.
“Jesus é o centro da festa e é nele que depositamos toda a nossa fé e a nossa confiança”, afirmou, numa celebração que marcou o arranque das festividades que terão o seu ponto alto no próximo domingo, com a missa solene e a procissão.
A escolha da Transfiguração como ponto de partida da reflexão permitiu ao prelado colocar a festa no seu essencial: antes de ser tradição, encontro ou manifestação religiosa, a celebração do Senhor da Pedra é, para a comunidade cristã, uma oportunidade para voltar a olhar para Cristo.
Na Transfiguração, explicou, é o próprio Pai quem revela a identidade do Filho. Mas essa revelação não surge isolada. O bispo estabeleceu uma linha de continuidade entre três momentos da vida de Jesus: o Batismo no Jordão, a tentação no deserto e a Transfiguração. Em todos eles, a relação entre o Pai e o Filho ajuda a compreender a identidade de Cristo e o caminho que é proposto aos seus discípulos.
É nesse caminho que surge a cruz. Não uma cruz entendida como sofrimento procurado ou como resignação perante as dificuldades, mas como expressão concreta do amor. D. António Moiteiro rejeitou uma leitura da cruz como “masoquismo” ou como uma espécie de resposta automática aos problemas da vida. A cruz de cada cristão, explicou, está no quotidiano e na capacidade de viver segundo o amor de Cristo.
“A cruz do amor é a que devemos seguir”, afirmou.
A expressão tornou-se uma das ideias centrais da homilia. Seguir Jesus, sublinhou o bispo de Aveiro, significa assumir a lógica daquele que “deu a vida por nós” e se entregou para que outros tivessem vida. É uma escolha que se concretiza nas relações com os outros, na misericórdia, na compaixão e na disponibilidade para servir.
Daí as perguntas lançadas diretamente aos fiéis: “Que cristão sou eu? O que é que Jesus me pede hoje como discípulo? Como é que Jesus me salva?”
Mais do que perguntas retóricas, estas interpelações foram deixadas como um exame à forma como cada pessoa vive a sua fé. Por isso, apelou a que cada cristão possa ser uma “pedra viva”.
A imagem da “pedra viva” serviu para lembrar que a Igreja não é apenas um espaço ou uma instituição, mas uma comunidade construída também pela vida e pelo testemunho dos seus membros.
Ser cristão, neste contexto, disse, significa ser uma dessas “pedras vivas”: alguém cuja fé se manifesta para lá dos momentos de culto e se traduz em gestos concretos de amor, misericórdia e compromisso com os outros.
É também essa dimensão que dá à Festa do Senhor da Pedra uma importância que ultrapassa o calendário religioso.
Luís Gomes, vice-provedor da Santa Casa da Misericórdia de Vila Franca do Campo e presidente da comissão organizadora da festa, destacou, na abertura das festas, precisamente essa dimensão comunitária e espiritual.
“É um momento especial para Vila Franca do Campo”, afirmou, sublinhando que a festa “tem uma dimensão que vai para além do convívio e da celebração”. A devoção ao Senhor da Pedra, acrescentou, está “muito enraizada no nosso povo”, constituindo um património espiritual que a atual geração tem a responsabilidade de preservar e transmitir às futuras gerações.
A Festa do Senhor da Pedra vive, assim, numa espécie de fronteira entre a fé e a memória coletiva. É uma celebração religiosa, mas é também um dos momentos do verão em que Vila Franca do Campo volta a reunir a sua comunidade, incluindo muitos emigrantes que regressam à terra para cumprir uma tradição familiar.
Luís Gomes destacou precisamente essa capacidade de a festa abrir portas e criar reencontros, num acolhimento que se estende aos que estão longe durante grande parte do ano, mas que continuam ligados à terra através destas tradições.
Todos os anos, a celebração coloca lado a lado gerações diferentes: os que mantêm a devoção herdada dos pais e avós, os que regressam da diáspora e os que encontram na festa uma oportunidade de reencontro com a comunidade.
Promovida pela Santa Casa da Misericórdia de Vila Franca do Campo, a Festa do Senhor da Pedra é a última grande festa religiosa do verão em São Miguel.
Sábado e domingo reúnem as três principais celebrações religiosas da festa dedicada ao Senhor Bom Jesus da Pedra com a procissão da mudança da Imagem da Igreja da Misericórdia para a Igreja Matriz de São Miguel Arcanjo que, no domingo acolhe a solene eucaristia e de onde partirá também a procissão.
As cerimónias em honra do Senhor Bom Jesus da Pedra realizam-se no último domingo de agosto, “pelo menos desde 1903”, data da autorização do Papa Leão XIII para que as festividades fossem reconhecidas, como está expresso num documento da Sagrada Congregação dos Ritos, que a Santa Casa guarda no seu arquivo.
“Não é fácil precisar” quando começou o culto e as festas, mas “há uma lenda” que refere que a imagem Senhor da Pedra apareceu na praia do Corpo Santo “dentro de uma caixa de madeira”, “em data desconhecida”.
As duas imagens – a primitiva e a atual – representam a imagem do “Ecce Homo”, o Cristo coroado de espinhos, sentado numa pedra.


