Por Carmo Rodeia

Vivemos uma Europa secularizada, acelerada e hiperconectada, onde a eficiência, a produtividade e a visibilidade parecem medir o valor das pessoas. As redes sociais aproximam-nos de muitos, mas nem sempre nos tornam próximos de alguém. E, no meio de tanta conexão, cresce a solidão; no meio de tanta informação, a sede de sentido.
É neste contexto que a Igreja é chamada a perguntar-se: como viver e contagiar o Evangelho na Europa de hoje?
Como Igreja sinodal, precisamos de aprender a discernir entre o “parar” e o “vai”. Parar para escutar Deus e o outro; parar diante da dor, da dúvida, da fragilidade e até da revolta. Há pessoas que, antes de uma resposta sobre Deus, precisam simplesmente de alguém que permaneça. Mas também precisamos de saber dizer “vai”: sair das nossas seguranças, atravessar fronteiras e chegar às periferias existenciais, aos desanimados, aos sós, aos indiferentes e também àqueles que se afastaram da Igreja porque nela não encontraram acolhimento e por ela se sentem magoados.
Parar não é ficar parado. E ir não é correr. Às vezes, ir é permanecer junto de quem sofre, independentemente da sua condição social. E, muitas vezes, parar para escutar é já o primeiro gesto missionário.
Talvez uma das grandes tentações do nosso tempo seja a de transformar tudo em eficiência. A própria Igreja não está imune a isso. Reuniões por Zoom, formulários, grelhas, avaliações, processos e estratégias podem ser úteis, mas nenhuma metodologia substitui o encontro. Por isso, tanto se tem dito à cerca da sinodalidade como modo de ser da Igreja.
Aqui, a passagem de Betânia, da qual eu gosto tanto, é particularmente iluminadora. Marta anda atarefada, preocupada com muitas coisas, enquanto Maria escolhe “a melhor parte”. É fácil reconhecer a Marta moderna: responde a todos os emails, cumpre todas as tarefas, ajuda aqui e ali, toca em todos os ramos da vida. Até que um dia já não consegue mais. E, mesmo quando o corpo pede descanso, sente culpa por não estar a produzir. Porque é isso que tantas vezes aprendemos: valemos pelo que fazemos.
Mas o Evangelho pergunta outra coisa: quem somos? E quem somos para Deus?
Talvez também nós, dentro da Igreja, precisemos de aprender novamente a escolher a melhor parte: não a inatividade, mas a prioridade; não a fuga à responsabilidade, mas a capacidade de distinguir o essencial do acessório. Quem não se dá tempo dificilmente consegue dar tempo aos outros. Uma Igreja que quer escutar precisa de aprender a parar.
É precisamente aqui que pode nascer um diálogo novo com o mundo.
Não devemos ter medo da secularização. Ela não é apenas perda de fé; é também um território de perguntas e procura. Por detrás da indiferença pode existir sede de sentido; por detrás da necessidade permanente de conexão, uma profunda necessidade de relação; por detrás da obsessão pelo sucesso, a pergunta sobre o verdadeiro valor da vida.
Por isso, a Igreja não pode dialogar com o mundo começando por condená-lo. Tem de começar por escutá-lo.
Falar a linguagem do mundo dentro da Igreja é escutar as perguntas do nosso tempo sem perder o Evangelho. Falar a linguagem da Igreja no mundo, sem sermos “beatos”, é anunciar o Evangelho sem perder as pessoas. Mesmo que sejam e pensem de maneira diferente de nós.
Jesus é o grande mestre deste diálogo. Falava de Deus a partir da vida: sementes, pão, trabalho, filhos, festas, redes, vinhas, feridas. Começava na experiência humana para a abrir à transcendência.
Talvez seja esse também o caminho da Igreja: perguntar antes de responder: O que estás a viver? O que te preocupa? O que te faz sofrer? O que esperas? O que procuras?
A grande profecia do nosso tempo pode ser a proximidade e presença.
Num mundo onde as redes sociais mostram vidas editadas, perfeitas e felizes, a Igreja pode oferecer espaços onde não seja preciso fingir. Onde a fragilidade não seja vergonha. Onde seja possível cair e recomeçar. Mesmo que o cânone não o permita explicitamente.
Num mundo que descarta quem já não produz – o idoso, o doente, o pobre, o dependente, o estrangeiro, quem fracassou – a Igreja deve ser o lugar onde cada pessoa possa experimentar: “Tu não vales pelo que produzes. Vales porque és amado.”
Esta é uma palavra profundamente profética, mas não precisa de ser uma palavra contra o mundo. A Igreja pode simplesmente mostrar que outra maneira de viver é possível. Porque o Evangelho não nos torna menos humanos. Torna-nos mais plenamente humanos.
A magnífica humanidade de Cristo – que se aproxima, escuta, toca as feridas, senta-se à mesa, chora, perdoa, serve e entrega a vida – revela que a fé não é fuga da humanidade, mas caminho para a sua plenitude.
É aqui que a magnífica humanidade de Cristo pode gerar uma humanização magnífica da sociedade.
Evangelizar não é apenas levar pessoas para dentro da Igreja. É deixar que o Evangelho transforme a maneira como vivemos juntos: como cuidamos, como exercemos o poder , sem que o outro tenha de perecer; como usamos a tecnologia, como acolhemos a diferença, como perdoamos e como damos lugar a quem ficou para trás.
Esta até pode ser uma mensagem que o mundo talvez não queira ouvir, mas de que pode precisar profundamente.
Porque o mundo diz: sê bem-sucedido. O Evangelho diz: sê fiel. O mundo diz: tem mais. O Evangelho diz: sê mais. O mundo diz: procura o poder. O Evangelho diz: faz-te servidor.
Mas tudo isto só será credível se for testemunhado.
É aqui que reencontramos a força do contágio.
O Evangelho sempre se espalhou através de pessoas contagiadas por Cristo: pessoas que receberam misericórdia e aprenderam a perdoar; pessoas acolhidas que se tornaram acolhedoras; pessoas que encontraram uma alegria que não conseguiram guardar para si.
O Papa Francisco falava, a este propósito, de uma espécie de “santa inveja”: alguém olha para a vida de outro e pensa: “Se isto é bom para ele, porque não há de ser bom para mim?”
É o contágio da alegria, da fraternidade, da esperança.
Mas também podemos contagiar o contrário: divisões, julgamentos, boataria, calúnia, indiferença, competição, fechamento. Por isso, talvez a pergunta decisiva não seja apenas “como anunciar o Evangelho?”, mas: “Que Evangelho está a nossa vida a anunciar?”
É aqui que permanece atual a antiga expressão atribuída a Tertuliano: “Vede como eles se amam.”
Talvez este continue a ser um dos anúncios mais poderosos da Igreja.
Não apenas: vede como rezam, como incensam, como falam de Deus. Mas: vede como se amam; como cuidam; como perdoam; como levantam quem caiu; como permanecem junto de quem sofre; como continuam a esperar.
Talvez seja esta a grande missão da Igreja na Europa: não ser uma Igreja contra o mundo, nem uma Igreja conformada com o mundo, mas uma Igreja no mundo, com o mundo e para o mundo. No essencial, uma Igreja capaz de fazer uma pergunta ao mundo não apenas com palavras, mas com a própria vida: “E se fosse possível viver de outra maneira?” E talvez, ao encontrar uma comunidade assim, alguém pudesse perguntar: “Que Deus é este que torna estas pessoas assim?”.
Continuação de bom verão. As pausas, em família, sobretudo quando ela está a crescer, dão-nos paz.