Projeto @Barca quer transformar jovens em protagonistas da mudança em Santa Maria

Projeto da Associação SalvaTerra é, para já, o único dos Açores entre os 20 primeiros projetos financiados pela Fundação Jornada. A iniciativa aposta na mentoria e no desenvolvimento de competências de crianças e jovens de famílias vulneráveis, procurando responder também ao novo rosto da pobreza

Foto: Associação SalvaTerra, ilha de Santa Maria

 

Há um novo `barco´ a preparar-se para partir em Santa Maria. Chama-se @Barca e tem como destino uma intervenção social de continuidade, assente na capacitação, na inclusão e, sobretudo, na capacidade dos próprios jovens para serem agentes de mudança.

Promovido pela Associação SalvaTerra, o projeto acaba de ser contemplado com financiamento da Fundação Jornada, criada na sequência da Jornada Mundial da Juventude de Lisboa, em agosto de 2023. É, nesta primeira fase de apoios, o único projeto açoriano selecionado entre 20 iniciativas de todo o país.

Mais do que financiar atividades pontuais, o apoio permite à SalvaTerra testar um novo modelo de intervenção social dirigido a crianças e jovens de famílias vulneráveis que a associação já acompanha, mas também a uma realidade que começa a ganhar expressão: a das famílias que trabalham, mas cujos rendimentos já não são suficientes para fazer face às despesas.

“O Projeto Barca é um projeto para ativar a nossa juventude, a juventude de Santa Maria, mas também, ao mesmo tempo, para dar resposta a uma necessidade que nós vamos sentindo por trabalharmos com famílias vulneráveis”, explica Rita Marques, responsável pelo projeto, numa entrevista ao Igreja Açores. A preocupação, acrescenta, é apoiar “as crianças filhas destas famílias que recebem outro tipo de apoios sociais”, mas para as quais falta um acompanhamento mais dirigido.

É dessa necessidade que nasce a @Barca que pretende transformar beneficiários em protagonistas..

O projeto começou já a ganhar forma com um bootcamp de formação dirigido a jovens, seguido de um primeiro campo de férias destinado a estas crianças. A formação de jovens mentores contou com a colaboração dos Gambozinos, movimento ligado à Companhia de Jesus com três décadas de experiência na preparação de animadores e na dinamização de campos de férias com crianças de diferentes origens socioeconómicas.

A experiência dos Gambozinos introduziu também em Santa Maria uma lógica de inclusão que cruza diferentes contextos sociais. A associação laical e com membros de diversas proveniências, trabalha com crianças oriundas de realidades socioeconómicas distintas, procurando criar espaços onde essas diferenças deixam de ser barreiras e passam a ser parte da experiência comum.

Foi esse modelo que a SalvaTerra quis trazer para a ilha.

Mas o campo de férias foi apenas o ponto de partida. A ambição é que o @Barca não fique confinado a uma semana ou a um conjunto de atividades durante o verão.

“Gostaríamos de inaugurar um programa de mentorias em que os jovens seriam um adulto de referência para estas crianças”, explica Rita Marques. A ideia é estabelecer “um trabalho de continuidade ao longo do ano” e, em paralelo, desenvolver competências académicas, artísticas e desportivas.

Os jovens que participam no projeto assumem, assim, um papel pouco habitual nas respostas dirigidas à juventude: deixam de ser apenas destinatários de atividades pensadas por adultos e passam a ser responsáveis pela sua concretização e pelo acompanhamento de outros.

No primeiro campo de férias, foram 15 os jovens mais velhos envolvidos na dinamização das atividades. A SalvaTerra pretende agora aprofundar esse protagonismo de mentorias, encontros e assembleias juvenis (já realizaram três e contaram com o apoio da Pastoral Juvenil da ilha), onde os próprios participantes podem refletir sobre projetos que gostariam de desenvolver e procurar apoio para os concretizar.

“Tipicamente, nós temos grupos desportivos que preparam coisas para os jovens, associações culturais que preparam coisas para os jovens, as escolas organizam coisas para os jovens e aqui tentamos de facto pôr os jovens num papel protagonista de intervenção, de uma qualquer mudança”, sublinha Rita Marques.

A aposta passa também por proporcionar às crianças contactos e experiências que nem sempre estão ao seu alcance no quotidiano, através do convívio com outras crianças, e neste processo, encontrem pares de referência da sua idade e possam estabelecer relações com jovens mais velhos, de forma permanente, ao longo do ano, em áreas tão diversas como os estudos, a dimensão artística, desportiva ou cultural.

Uma resposta a um novo rosto da pobreza

Para a presidente da SalvaTerra, Dulce Resendes, o projeto @Barca insere-se numa mudança mais profunda na própria missão da associação.

A SalvaTerra nasceu ligada ao combate à pobreza e ao trabalho desenvolvido através dos centros de recursos comunitários, inicialmente com o objetivo de dotar pessoas abrangidas por medidas sociais de competências que lhes permitissem uma futura integração no mercado de trabalho. Ao longo dos anos, esse trabalho foi-se alargando à comunidade, através de projetos como o Banco dos Bens Usados, o Banco do Bebé, a Carpintaria Social ou a Loja Social.

Hoje, porém, o público que procura a associação está a mudar.

“O que estamos a ver neste momento é que o nosso público está a mudar”, afirma Dulce Resendes. “Temos muita gente dependente dos apoios sociais, mas depois há uma nova franja de novos pobres que são pessoas que trabalham mas que não ganham o suficiente para pagar todas as despesas.”

Habitação, saúde e outras despesas correntes estão a colocar sob pressão famílias que, apesar de terem rendimentos provenientes do trabalho, vivem situações de fragilidade económica.

“A pobreza tem hoje outro rosto”, resume a presidente da SalvaTerra.

É também perante esta realidade que a associação entende ser necessário mudar a natureza das respostas. Se durante muitos anos a intervenção esteve muito centrada numa lógica assistencial, agora a aposta passa também por criar condições para que as próprias famílias e, sobretudo, as crianças e jovens, adquiram ferramentas que lhes permitam quebrar ciclos de vulnerabilidade.

“Nós agora queremos mudar um bocadinho a base assistencial, não é só dar. Nós queremos também ajudar estas famílias a empoderar estas crianças, a ficarem com outras competências, a terem outro sentido do seu valor”, explica Dulce Resendes.

A mentoria é, por isso, uma das peças centrais do @Barca. Jovens mais velhos e preparados assumem-se como figuras de referência para crianças que podem estar em risco de exclusão ou de dificuldades de integração.

O financiamento da Fundação Jornada permite à SalvaTerra testar este modelo ao longo de um primeiro ano. A associação conta também com o apoio da Câmara Municipal de Vila do Porto e de outros parceiros locais, como a Pastoral Juvenil da ilha de Santa Maria.

Para Rita Marques, o primeiro balanço não deverá ser medido apenas pelo número de atividades realizadas. O verdadeiro objetivo será perceber o que funciona e retirar aprendizagens para uma intervenção futura.

“Gostávamos daqui a um ano de poder de facto ter aprendido, de ter testado esta forma de intervir socialmente”, afirma.

Há, contudo, resultados que já começam a ser visíveis: as relações criadas entre crianças e jovens durante as primeiras atividades e os laços que se estabeleceram entre participantes. E há uma ambição maior. A de contrariar a ideia de que os jovens estão desligados da comunidade ou pouco interessados em participar.

“Esta questão de nós estarmos a envolver estas crianças e estes jovens neste projeto pode ser uma sementinha que fica para um envolvimento à medida que eles vão crescendo”, acredita Rita Marques. Uma semente que permita perceber que “eles podem ser e são um agente de mudança”.

Para Dulce Resendes, o caminho está apenas a começar. A expectativa é que, com o tempo, as crianças revelem menos dificuldades de aprendizagem e de integração social.

Com uma história ligada ao combate à pobreza e à promoção de competências, a Associação SalvaTerra, em Santa Maria, desenvolveu ao longo dos anos uma intervenção assente nos centros de recursos comunitários e numa lógica de economia solidária.

A entrevista a Rita marques e Maria Dulce Resendes pode ser ouvida na integra este domingo, no programa de rádio Igreja Açores, depois do meio dia na Antena 1 Açores e no Rádio Clube de Angra. Fica também disponível em podcast em www.igrejaacores.pt

 

@BARCA, de Santa Maria, integra os 20 primeiros projetos apoiados pela Fundação Jornada

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