O Colégio de Santa Clara, na Terceira, inicia o ano letivo com 383 alunos. Em Ponta Delgada, o de São Francisco Xavier recebe cerca de 300. Da creche ao segundo ciclo, as duas instituições apostam numa educação que junta conhecimento e valores, mas enfrentam novos desafios, da diversidade cultural à sustentabilidade e à relação com as famílias.


O primeiro dia de aulas traz sempre mochilas novas, reencontros e alguma ansiedade. Mas, nos dois colégios católicos dos Açores, o início de mais um ano letivo traz também uma pergunta maior: que pessoas se quer ajudar a formar?
No Colégio de Santa Clara, dirigido pelas Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, a aposta deste ano passa por olhar para os Açores como território educativo. No de São Francisco Xavier, das Irmãs de São José de Cluny, o caminho faz-se sob o lema “Coragem para sonhar e fé para agir”, com uma forte aposta na interioridade, na cidadania e na descoberta de talentos.
Em ambos, a diversidade cultural é uma realidade cada vez mais presente e obriga a escola a ensinar também uma competência que não cabe nos manuais: aprender a viver com o outro.
Santa Clara: conhecer as ilhas, reconhecer os outros
“Açores, pequenas ilhas, grandes valores” é o tema que orienta o novo ano no Colégio de Santa Clara.
A escolha pretende aproximar os alunos da história, da cultura e das tradições do arquipélago, mas também transformar esse conhecimento em experiências de cidadania e de valores humanos e religiosos.
“Pretendemos que os nossos alunos conheçam não só a história, cultura e tradições, mas que também façam a vivência de alguns valores humanos, religiosos e a nível de cidadania também na nossa escola”, afirma a diretora Irmã Helena Godinho.
A responsável diz que a instituição quer explorar a ideia de um arquipélago constituído por nove ilhas, cada uma com as suas características, mas pertencentes a uma mesma comunidade. E é precisamente aqui que entra uma das questões que mais desafiam atualmente a escola: a diversidade.
O Colégio de Santa Clara acolhe crianças de diferentes nacionalidades, entre elas brasileiras e chinesas. No ano passado recebeu também alunos iranianos. A integração, porém, não termina no momento da matrícula.
“Nós aceitamos todos e procuramos integrar, mas tem que ser sempre feito um trabalho também com as crianças”, afirma.
A dificuldade está, muitas vezes, em levar os próprios alunos a compreenderem que a diferença não constitui uma ameaça.
“Cada vez mais precisa ser desenvolvida nas crianças a aceitação porque está um pouco complicado, às vezes, aceitarem a diferença do outro, logo de tenra idade”, lamenta.
A questão ultrapassa ainda a presença de estrangeiros. Famílias de diferentes origens fazem com que várias culturas convivam dentro da própria comunidade escolar.
“Nós não somos todos da mesma cultura, não somos todos iguais e isso é muito difícil”.
É uma realidade que o colégio procura trabalhar através de atividades ligadas à cultura, à religião e à cidadania, trazendo também pessoas de diferentes áreas e experiências para contactar com os alunos.
São Francisco Xavier: sonhar, acreditar e agir
Em Ponta Delgada, o Colégio de São Francisco Xavier escolheu como tema para o biénio “Coragem para sonhar e fé para agir”.
Para a diretora, Irmã Domingas Lisboa, a mensagem é clara: não basta ensinar as crianças a projetar o futuro; é necessário ajudá-las a acreditar que podem construí-lo.
“Não basta sonhar, é preciso ter fé, acreditar e coragem para agir. No fundo, fazer acontecer”, refere.
É nesta conjugação entre conhecimento, formação humana e espiritualidade que a instituição coloca uma das suas marcas mais fortes.
“Queremos realmente formar pessoas na sua globalidade, com uma identidade forte, católica, cristã, articulando com as dimensões académicas na formação humana e espiritual”, acrescenta.
Uma das preocupações particulares do São Francisco Xavier é a interioridade. Num quotidiano dominado pela velocidade, pelos ecrãs e pela dificuldade em parar, o colégio procura criar momentos que permitam às crianças desenvolver essa capacidade.
“Hoje em dia é difícil o silêncio, é difícil parar” afirma a pedagoga.
A proposta passa por ensinar, desde cedo, que também há valor no silêncio, na reflexão e na capacidade de olhar para dentro.
Da sala de aula para a comunidade
É na forma de concretizar estes princípios que as duas instituições mais claramente se distinguem.
No Colégio de Santa Clara, o território açoriano assume um papel central. História, tradições, religião e cidadania são trabalhadas a partir da realidade próxima dos alunos. A Semana da Família, por exemplo, incluirá uma atividade relacionada com o Espírito Santo, procurando juntar tradição, participação familiar e dimensão religiosa.
No São Francisco Xavier, a intervenção é mais diversificada e estende-se a várias áreas, sem descurar a cultura tradicional que é sempre celebrada nos momentos certos como o Natal, a Quaresma ou o Espírito Santo. Saúde, ambiente, leitura, desporto, cidadania e literacia financeira fazem parte de um conjunto de projetos que procura proporcionar experiências para além do currículo.
A sustentabilidade é uma dessas apostas. O colégio prepara a utilização de painéis solares e pretende que a educação ambiental tenha consequências práticas.
A educação ambiental “não deve ficar apenas nas salas de aula”, mas refletir-se “em comportamentos e escolhas concretas”, refere a diretora.
A cidadania passa também por projetos de literacia financeira, em articulação com o banco de Portugal, a segurança rodoviária, limpeza da costa e sensibilização para as migrações e o multiculturalismo, com o envolvimento de entidades externas.
Na leitura, a preocupação é recuperar o contacto com o livro entre crianças cada vez mais expostas aos ecrãs. No desporto, modalidades como ballet, karaté, ténis e basquetebol permitem explorar interesses diferentes e identificar capacidades.
A intenção é que cada criança encontre espaços onde possa experimentar, descobrir e crescer.
A família como parte da equação
A relação com os pais é outra das preocupações assumidas pelo São Francisco Xavier.
Para a Irmã Domingas Lisboa, educar é uma responsabilidade partilhada e a escola deve criar condições para um diálogo permanente com as famílias.
“Queremos também fortalecer a relação entre a escola e a família, através do diálogo, da colaboração e da confiança.” A abertura do ano letivo inclui, por isso, um encontro com os pais que, além das questões práticas, abordará temas como a parentalidade e a relação das crianças com os ecrãs.
O colégio começa também o ano a trabalhar a sua própria equipa. O acolhimento e a formação dos colaboradores são entendidos como uma condição para garantir um acompanhamento mais atento dos alunos. E a comunidade será novamente chamada a encontrar-se na Festa do Laço, marcada para 18 de setembro.
“É uma oportunidade de encontro, de convívio e de pertença à nossa comunidade educativa” diz a Irmã Domingas Lisboa.
Santa Clara quer uma escola onde se seja feliz
No Colégio de Santa Clara, a Irmã Helena Godinho parte de outra imagem para definir a escola que pretende: uma segunda casa. Uma casa onde os alunos aprendam, mas também onde se sintam bem e tenham vontade de estar. Para isso, os professores e educadores enfrentam um desafio crescente: manter a atenção e a motivação de crianças habituadas a estímulos constantes. A resposta passa por diversificar atividades, mas sem perder de vista a dimensão educativa de cada momento.
“Cada atividade que se está a fazer tem de ter sempre em conta que essa atividade tem uma componente educativa e que os valores são para serem vividos independentemente do conteúdo da disciplina”, afirma a diretora.
A Irmã Helena Godinho rejeita, assim, a ideia de que a educação para os valores possa ser confinada a uma disciplina específica.
“No ensino da matemática ou do português temos de transmitir valores. Uns não estão separados dos outros.”
É uma visão que coloca a formação humana no centro do quotidiano escolar, em vez de a reservar para momentos específicos.
As dificuldades também fazem parte do novo ano
Por detrás dos projetos estão desafios que condicionam a gestão diária.
No Santa Clara, a diretora identifica dificuldades na contratação de profissionais, sobretudo pessoas que se identifiquem com o espírito da instituição, e aponta também os constrangimentos financeiros provocados pelo aumento dos custos e pelas limitações das famílias. A menor vivência religiosa de algumas famílias é outro dos desafios apontados pela responsável.
No São Francisco Xavier, a questão financeira também preocupa, mas junta-se-lhe uma outra: a necessidade de aumentar o número de alunos.
A Irmã Domingas Lisboa lembra os 133 anos de presença da instituição nos Açores e considera que os colégios católicos constituem uma mais-valia para a região.
A sustentabilidade das instituições é, por isso, uma preocupação que ultrapassa a gestão de cada estabelecimento e toca também o futuro de um modelo educativo com uma longa presença na sociedade açoriana.
Duas identidades, uma mesma responsabilidade
Santa Clara e São Francisco Xavier não são escolas iguais. Mas há uma fronteira comum: nenhuma das duas instituições entende que preparar uma criança para o futuro seja apenas garantir bons resultados académicos.
Conhecimento, autonomia, cidadania, capacidade de relacionamento, sentido de responsabilidade e valores fazem parte da mesma formação.
E, para Irmã Helena Godinho, tudo começa por uma condição elementar: as crianças precisam de se sentir seguras.
“Procurem estar com as crianças” é o conselho que deixa às famílias que lhes confiam os filhos.
“Deixem-nos crescer junto do pai e da mãe, que é para eles se sentirem amados.” E conclui: “Eles têm que se sentir seguros, amados, que nós gostamos deles.”
Num novo ano letivo marcado por mudanças na população escolar, novos hábitos e novas exigências, é talvez esta a mensagem que melhor sintetiza a missão assumida pelos dois colégios: ensinar crianças a conhecer o mundo, sem esquecer de as ensinar a viver nele com os outros.





