Jovens de 12 das 17 ouvidorias da diocese de Angra assumem 12 compromissos, que traduzem o desejo dos jovens de passar da escuta à ação e de construir comunidades onde o outro seja reconhecido como irmão

A fraternidade não pode ficar apenas como uma palavra ou como o resultado de um encontro. Tem de se transformar em caminho, compromisso e ação. Esta é uma das ideias centrais que emergem do II Encontro Diocesano da Juventude de Angra, realizado de 4 a 6 de setembro, no Santuário do Senhor Bom Jesus do Pico, e que encontra expressão concreta na Carta da Fraternidade, assumida pelos jovens participantes e já entregue ao bispo de Angra.
Elaborada ao longo do encontro, a carta reúne 12 compromissos que cada jovem é chamado a levar para a sua comunidade e para a vida da Diocese. Entre eles estão o propósito de ter “maior abertura para cativar mais jovens”, procurar que “o meu próximo não se sinta sozinho”, “dar voz e lugar ao outro”, “ser Jesus para o outro” e “transformar barreiras em pontes e persistir diante das adversidades”.
Para Gisela Batista, diretora do Serviço Diocesano à Juventude de Angra, estes compromissos representam precisamente a passagem da escuta para a ação.
“O trabalho desenvolvido no encontro não pretendeu apenas ouvir os jovens, mas criar com eles um caminho que possa ser concretizado nas paróquias, nas ouvidorias e na própria Diocese”, avança a dirigente.
“Esta carta de compromissos vem nesse seguimento. Já no primeiro encontro fizemos isso. Ela traça o caminho espiritual que estamos a tentar fazer com os jovens, não só fazer esse trabalho de escuta, mas também passar dessa escuta para a ação”, explicita.

A responsável sublinha que essa ação só ganha sentido quando é assumida por todos.
“A ação só faz sentido quando todos, em conjunto, caminhamos juntos, quando todos nos comprometemos a fazer a nossa parte”, afirmou, apontando para a necessidade de um caminho de maior fraternidade nas comunidades.
A diretora do Serviço Diocesano à Juventude considera que o desafio colocado aos jovens ultrapassa a simples participação em atividades. Trata-se de uma mudança na forma de olhar e de se relacionar com o outro.
“A verdadeira fraternidade, claro, é quando deixamos de olhar para o outro como outro, mas o vemos como irmão”, afirmou Gisela Batista, associando esta atitude à própria experiência cristã: “Jesus fez-se Deus connosco. Temos de nos fazer com os irmãos. É nesse novo nós que está o essencial da fraternidade”.
É também neste horizonte que a responsável enquadra aquilo que se espera da futura Aldeia 2027, iniciativa diocesana prevista para decorrer de 19 a 23 de julho do próximo ano, na Ouvidoria da Povoação, em São Miguel, sob o tema “Da Esperança à Fraternidade”.
“Esperamos muitas coisas da Aldeia: o encontro pessoal com Deus, mas o que queremos mesmo é esse salto que é o encontro com o irmão”, afirmou.
A experiência vivida no Pico parece ter confirmado que este é um desejo já presente entre os próprios jovens. Durante as dinâmicas realizadas no encontro, particularmente nos momentos de partilha sobre a “estrada da vida”, Gisela Batista diz ter percebido uma forte procura de comunhão.
“Desde sexta-feira, no final do dia, já nas últimas dinâmicas em que convidávamos os jovens a trilhar a sua estrada de vida, percebemos que os jovens estavam sedentos de comunhão”, relatou.
Segundo a diretora, os jovens chegaram mesmo a partilhar “aspetos de intimidade pessoal” por sentirem que estavam num espaço seguro, “entre pares”. Para Gisela Batista, esse ambiente de confiança foi uma das expressões mais significativas da fraternidade experimentada durante o encontro.
A Carta da Fraternidade assume, neste contexto, uma importância que ultrapassa o caráter simbólico de uma conclusão de encontro. Os 12 pontos foram construídos a partir da reflexão, da partilha e do discernimento dos jovens e pretendem agora ser traduzidos em atitudes concretas.
É precisamente essa lógica que está também a orientar a preparação da Aldeia 2027. Gisela Batista explica que o Serviço Diocesano à Juventude procurou evitar uma metodologia em que a organização define previamente todo o programa e depois o apresenta aos jovens.
“Temos de criar condições para serem eles a dar as pistas do que querem e depois construirmos juntos”, explicou.
Foi esse o objetivo do trabalho desenvolvido no Laboratório da Fraternidade, onde os jovens foram convidados a refletir sobre espiritualidade, comunidade e missão, ecologia integral e sobre aquilo que não poderá faltar numa futura Aldeia que se queira verdadeiramente fraterna.
“Fizemos essa auscultação”, resume Gisela Batista, sublinhando que as ideias recolhidas constituem agora matéria-prima para a equipa responsável pela preparação da iniciativa.
O caminho para a Aldeia da Fraternidade será, por isso, construído progressivamente. Depois do encontro do Pico, o Serviço Diocesano à Juventude vai trabalhar as propostas apresentadas pelos jovens, procurando responder às suas expectativas e aos seus sonhos.
A intenção é preparar um guião comum, que depois possa ser adaptado pelas diferentes ouvidorias às suas características e condições específicas.
“Vamos fazer uma espécie de guião e depois cada ouvidoria adaptará ao seu estilo e às suas condições específicas”, adiantou a diretora.
A preparação terá também uma dimensão regular, com encontros previstos ao longo dos próximos meses, sendo o primeiro em outubro, em Vila Franca do Campo. O objetivo é que, até ao final do ano, possa ser apresentado um primeiro desenho mais concreto da Aldeia, incluindo elementos identitários como o hino e o logótipo.
Paralelamente, o Serviço Diocesano à Juventude pretende retomar a dinâmica das sextas-feiras no Convento do Santuário do Senhor Santo Cristo, com uma missa para jovens na segunda sexta-feira de cada mês e acolhimento no convento às sextas-feiras, entre as 18h00 e as 20h00.
A entrega da Carta da Fraternidade ao bispo de Angra marca, assim, uma passagem simbólica entre o encontro vivido no Pico e o caminho que agora começa.
Jovens assumem compromisso de levar a fraternidade às comunidades