Rotinas estáveis “dão segurança” às crianças no regresso às aulas

Entrevista com Mónica Domingues. Psicóloga defende restrições às redes sociais para crianças e alerta para riscos do isolamento digital

Foto: Mónica Domingues

Mónica Domingues considera que as crianças não deveriam ter acesso às redes sociais antes dos 16 anos e defende uma utilização dos ecrãs acompanhada pelos pais. No regresso às aulas, alerta também para a importância das rotinas, do sono e da atenção aos sinais de ansiedade.

“Eu diria que as crianças não deveriam participar em redes sociais até terem 16 anos”, diz Mónica Domingues, do Comissariado dos Açores para a Infância, que alerta para a necessidade de estabelecer limites à utilização das novas tecnologias por crianças e adolescentes.

Em entrevista ao Igreja Açores, a especialista defende que as restrições devem ser adequadas à idade e ao estádio de desenvolvimento de cada criança, de forma a garantir que existe capacidade para compreender os conteúdos e as interações a que estão expostas.

Mas Mónica Domingues sublinha que a tecnologia não deve ser “diabolizada”. Os ecrãs podem ter utilidade, nomeadamente na comunicação entre crianças e familiares que vivem ou trabalham longe, mas a utilização deve ser acompanhada.

“Não podem ser o único foco de interesse das crianças. Não podem ser a única atividade de que elas gostam.”

A supervisão dos pais deve, por isso, abranger não apenas o tempo de utilização, mas também os conteúdos e as interações estabelecidas online.

A psicóloga chama ainda a atenção para um comportamento que pode passar despercebido: o isolamento de crianças e adolescentes dentro do próprio quarto, aparentemente tranquilos, mas permanentemente ligados ao mundo digital.

“Um filho que está em casa, que é todo certinho e que os pais não sabem o que é que ele está a fazer, mas está fechado no seu quarto, pode ser um perigo tão grande como aquele filho que está sempre fora de casa”, alerta.

A ausência de conhecimento dos pais sobre as interações que os filhos mantêm através da internet pode esconder situações particularmente graves, incluindo casos de aliciamento sexual.

A preocupação com os ecrãs estende-se também ao sono. A utilização próxima da hora de deitar pode dificultar o adormecimento, pelo que a psicóloga recomenda a criação de rituais previsíveis e tranquilos, como um banho ou a leitura de uma história.

A questão dos ecrãs surge num contexto mais amplo de preparação para o novo ano letivo. Para Mónica Domingues, a transição entre as férias e o regresso à escola pode provocar “ansiedade”, “tensão” e “preocupação”, embora algumas crianças sintam simultaneamente “entusiasmo e alegria” por reencontrarem a escola e os colegas.

Por isso, considera fundamental começar alguns dias antes a reorganizar os horários e a estabelecer rotinas.

“Importa preparar as crianças para esse período e importa organizar rotinas estáveis e estarmos disponíveis para ouvir as crianças sobre os seus receios, as suas expectativas.”

Sono, alimentação e utilização dos ecrãs são, neste contexto, áreas fundamentais, uma vez que influenciam o comportamento, o humor e a própria aprendizagem, nomeadamente a atenção e a memória.

A psicóloga recomenda ainda horários regulares para dormir e acordar, incluindo ao fim de semana, de forma a manter o ritmo biológico das crianças.

Por outro lado, dores de cabeça ou de barriga, irritabilidade, dificuldade em adormecer, resistência em falar sobre a escola ou preocupação excessiva com o desempenho e com as relações com os colegas são alguns dos sinais a que os pais devem estar atentos.

Nestas situações, defende, é necessário manter um “estado de alerta”, sem entrar em pânico, procurando conversar com a criança e, quando necessário, com professores, escola ou profissionais especializados.

Mesmo quando as famílias não dispõem de condições económicas ou habitacionais ideais, existem comportamentos que podem favorecer a integração e o sucesso escolar.

“Eu até costumo dizer que mesmo um pai que não sabe ler nem escrever pode ajudar um filho na sua integração na escola”, afirma Mónica Domingues.

Participar nas reuniões, mostrar interesse pelos cadernos e trabalhos, valorizar a escola e incentivar os filhos são formas de acompanhamento que não dependem do nível de instrução dos pais.

“Se os pais olharem para a escola como aliada”, estão a contribuir para a integração e o sucesso das crianças.

A psicóloga reconhece, contudo, que existem situações familiares que exigem uma intervenção especializada e articulada entre a escola e outras entidades, como a Saúde, a Segurança Social ou as autarquias.

Para as próprias crianças e adolescentes, uma das estratégias para enfrentar as dificuldades passa por evitar a comparação permanente com os outros.

“Não somos todos iguais. Somos todos únicos e especiais”, afirma a psicóloga, lembrando que as crianças têm diferentes capacidades, ritmos e pontos de partida.

A par da escola, considera importante que tenham atividades de que gostem, que lhes proporcionem prazer, motivação e oportunidades de socialização.

No regresso às aulas, a mensagem de Mónica Domingues passa, assim, pelo equilíbrio: menos dependência dos ecrãs, mais acompanhamento parental, rotinas estáveis e atenção ao bem-estar emocional das crianças.

A entrevista pode ser ouvida este domingo, depois do meio-dia, no programa Igreja Açores, na Antena 1 Açores e no Rádio Clube de Angra, ficando posteriormente disponível em podcast em www.igrejaacores.pt.

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