Pela fé e pelos toiros os forcados da Tertúlia voltaram a caminhar até à Serreta

Na XI peregrinação do grupo ao Santuário de Nossa Senhora dos Milagres participam 50

Foto: Igreja Açores/TO

Pelo 11º ano consecutivo, os forcados da Tertúlia Tauromáquica Terceirense cumpriram, esta sexta-feira, a tradicional peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora dos Milagres, na Serreta. A caminhada, a pé, que partiu do Alto das Covas, em Angra do Heroísmo, reúne forcados no ativo, antigos elementos do grupo, familiares e amigos num momento de fé, agradecimento e convívio, sempre na sexta-feira que antecede o fim de semana da Festa da Serreta.

Entre cânticos, conversas e momentos de descontração, o grupo percorre o caminho até ao Santuário de Nossa Senhora dos Milagres. É uma caminhada marcada pela amizade e pelo convívio, mas, sobretudo, por um propósito que todos reconhecem: agradecer e pedir proteção.

Para Raul Luís, este foi um momento especial, já que realizou a peregrinação pela primeira vez. A participação surge tanto por uma promessa coletiva como por uma motivação pessoal.

“Venho pela promessa do grupo e individualmente”, explica. Mas, acima de tudo, há uma intenção comum: “Pedimos sempre pelo bem do grupo. Espero que corra tudo bem e que todos consigamos rezar pelo bem do grupo, que Deus esteja sempre connosco”, afirma.

A fé assume, assim, um lugar particular na vida dos forcados. Uma ligação que, para Bernardo Belerique, atual cabo dos forcados, é especialmente evidente nos momentos de maior tensão.

Belerique acompanha a peregrinação há cerca de uma década.

“É uma data importante. É aqui que agradecemos a Nossa Senhora o apoio que nos dá ao longo do ano.”

Entre a fé e a atividade tauromáquica existe, admite, uma relação muito próxima.

“Há muita fé, sobretudo porque há medo”, reconhece.

“A fé está muito ligada à tauromaquia, sobretudo nas horas de aperto, porque temos medo e receio e, por isso, recorremos ao transcendente. Queremos que as coisas corram bem”, explica.

Ser cabo nesta caminhada é, por isso, bem diferente de assumir a responsabilidade dentro da arena.

“Hoje é mais fácil ser cabo do que nos dias de corrida”, brinca. Aqui, explica, é “um dia de alegria e convívio, num ato de fé, mas com uma descontração diferente”.

Para César Fonseca, a peregrinação é mais do que um simples ajuntamento. A tradição, que remonta a 2005 e teve início com Adalberto Belerique, mantém uma dimensão de agradecimento e de união.

“É importante agradecermos a Nossa Senhora dos Milagres. Um forcado pede que corra tudo bem e que ninguém se magoe”, afirma.

Mas há uma outra dimensão que considera essencial: a social. A caminhada junta pessoas que, embora ligadas à tauromaquia, desempenham hoje diferentes papéis na vida do grupo.

“Temos forcados que já estão aposentados e temos todas as pessoas fora do grupo, fora da praça, que rezam connosco e fazem connosco o caminho”, salienta.

É precisamente essa capacidade de reunir gerações e pessoas de diferentes percursos que dá à peregrinação um significado especial.

Entre os participantes está também Sebastião, que acompanha a peregrinação desde a segunda edição, depois de ter sido convidado por um amigo forcado.

O que o faz regressar todos os anos?

“O convívio. Para falarmos de tauromaquia”, responde. Mas rapidamente acrescenta aquilo que considera essencial: “O que me traz é a amizade e a fé à Senhora dos Milagres.”

A dimensão religiosa não é, para si, meramente simbólica. “Agradece-se ou faz-se uma promessa. Levamos a sério.”

E há um momento que marca particularmente a chegada.

“Este santuário é especial. O silêncio fala por si. Vamos a cantar e a rir, mas quando entramos na igreja reina o silêncio.” É uma mudança quase imediata. O silêncio assume o lugar das palavras.

Artur Freitas, `forcado fora da praça´, também faz questão de acompanhar o grupo. Falhou apenas a primeira edição da peregrinação.

“Acompanho-os porque os forcados são muito importantes e precisam de apoio”, explica. É também uma forma de manter uma amizade construída ao longo dos anos: “É presença, é apoio e é convívio. Falamos de toiros e, quando entramos na igreja, a conversa é outra.”

A caminhada é longa e exige resistência. São cerca de 22 quilómetros, com o chamado `carro-vassoura´ a acompanhar o percurso.

Este ano, Artur Freitas decidiu ainda levar consigo o filho, de apenas oito anos.

“Arrisquei trazer o meu filho”, conta, admitindo que a experiência permite perceber aquilo que dificilmente se explica apenas por palavras.

“O espírito de grupo é contagiante. Não consigo explicar. Temos que viver e experimentar.” E, talvez, seja precisamente essa a essência desta peregrinação: experimentar um caminho rezado com amizade e sentido de gratidão e de cuidado pelo outro.

“Afinal, somos uma família”, concluí Sebastião.

A Festa da Serreta começou no passado dia 4 com a novena preparatória, pregada pelo padre Pedro Lima e animada por vários grupos e movimentos. Este fim-de-semana são esperados milhares de peregrinos no Santuário que estará sempre aberto até segunda feira.

O Dia maior será o domingo com três missas, sendo que a da festa é às 16h00 e será presidida pelo padre José Júlio Rocha. Segue-se a procissão solene.

A devoção a Nossa Senhora dos Milagres está intimamente ligada à história e cultura da ilha Terceira, bem como à resistência de uma certa identidade terceirense.

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