Padre José Júlio Rocha desafia peregrinos a “libertar o coração” para aprender a perdoar

Concelebração foi juntamente com a procissão solene os momentos mais participados desta festa, profundamente enraizada na ilha Terceira

Foto: Concelebração do Domingo da Serreta

Na Festa de Nossa Senhora dos Milagres, na Serreta, o padre José Júlio Rocha afirmou que o perdão, embora humanamente difícil, só é possível quando se cultiva um coração livre, tendo em Maria o exemplo de quem soube entregar-se, amar e perdoar.

“Libertem o vosso coração como Maria libertou”, afirmou o padre José Júlio Rocha aos peregrinos que participaram na Missa da Festa de Nossa Senhora dos Milagres, na Serreta, este domingo.

Partindo da liturgia proclamada , o padre José Júlio Rocha centrou a sua homilia na experiência humana da dor, da esperança, do amor, da ofensa e, sobretudo, do perdão, apresentando este último como um caminho de libertação interior.

“É quase humanamente impossível perdoar sempre em todas as circunstâncias”, reconheceu, lembrando, contudo, que “Jesus diz coisas impossíveis”: perdoar sempre e amar sempre.

É precisamente nessa aparente impossibilidade que, segundo o sacerdote, se manifesta a ação de Deus.

“É nesta utopia, nesta limitação humana que entra a graça de Deus”, afirmou.

“Não é a nossa força que vale alguma coisa, é a graça de Deus que opera em nós que nos faz ultrapassar os nossos limites.”

“O perdão é o mistério supremo”

A reflexão sobre o perdão surgiu associada às feridas que marcam as relações humanas. O sacerdote observou que são as pessoas que nos são mais próximas aquelas que, muitas vezes, mais nos magoam.

“O inimigo, a pessoa que não nos diz nada, nunca nos ofende; se tanto, viro-lhe as costas”, afirmou. Pelo contrário, “o meu irmão, a minha esposa, o meu pai, o meu amigo, o filho… esses é que nos ofendem”, porque são aqueles com quem nós contamos. Perante esta realidade, o sacerdote colocou os peregrinos diante do que definiu como “o mistério supremo do perdão”.

E deixou uma advertência sobre a coerência da vida cristã: “É uma hipocrisia ajoelharmos-nos diante do sacrário e não usarmos de amor para com os nossos irmãos”.

A figura de Nossa Senhora dos Milagres surgiu, aliás, como modelo dessa liberdade interior que permite enfrentar a adversidade sem ficar prisioneiro da mágoa.

O sacerdote recordou Maria como aquela que “se entregou, que se fez serva” e que, perante as dificuldades e as ofensas, soube permanecer fiel e perdoar.

Ao recordar episódios da vida de Maria — desde o momento em que soube que seria mãe, passando pela fuga para o Egito e pela perda de Jesus no templo — o padre José Júlio Rocha sublinhou a necessidade de os cristãos cultivarem também um coração livre. E advertiu para as consequências de permanecer agarrado à mágoa: “Enquanto não aprendermos a perdoar, vamos viver amargurados porque vivemos aprisionados num sentimento que nos corrói”, comparando esse sofrimento interior a “um cancro da alma” que pode roubar a paz e até o sono.

A mensagem deixada aos peregrinos foi, por isso, um convite à libertação interior: “Libertem o vosso coração como Maria libertou”.

Para o padre José Júlio Rocha, a relação com Deus não pode ser separada da relação com o próximo.

O pobre como “categoria teológica”

Foi neste contexto que a homilia abordou também a questão da pobreza. Recordando que “todos os evangelhos nos falam dos pobres”, o sacerdote afirmou que “o pobre é a figura principal do Evangelho”.

Mas a pobreza, explicou, não pode ser entendida apenas como ausência de dinheiro ou de bens materiais.

“O pobre é todo aquele a quem posso ajudar, oferecendo-me”, afirmou ao dizer que “a pobreza é uma questão relacional”.

A falta de empatia para com o outro é, também ela, uma forma de pobreza.

“Não é só falta de dinheiro, ou falta de bens materiais; é sobretudo a falta de empatia com o próximo, com o irmão”, enfatizou.

Antes de chegar ao tema do perdão, o sacerdote partiu da própria experiência dos peregrinos que chegam ao santuário.

“Em cada passo que se dá, em cada volta, tudo tem a ver com sofrimento e com a esperança”, afirmou, considerando que são precisamente essas duas realidades que continuam a alimentar a peregrinação à Serreta.

“Aqui chegam a este santuário dor e esperança; são elas qie alimentam este santuário”, afirmou.

Na sua reflexão, o sofrimento não deve ser entendido apenas como uma realidade negativa, mas também como uma força capaz de ajudar a enfrentar os obstáculos.

“Nada há no mundo que valha realmente a pena que não tenha dor e esperança”, afirmou.

E acrescentou: “Tudo o que tem sentido neste mundo tem dor e tem esperança”.

A esperança, por sua vez, foi apresentada como referência fundamental para o cristão, “como a estrela polar que liga qualquer cristão”.

Mais peregrinos na Serreta

A Festa de Nossa Senhora dos Milagres teve este ano como tema “Peregrino, que dizes de ti mesmo?”, numa edição marcada por vários momentos de celebração eucarística e por uma presença significativa de peregrinos.

A pregação da novena esteve a cargo do padre Pedro Lima, enquanto entre sexta-feira, sábado e domingo foram vários os sacerdotes que presidiram à Sagrada Eucaristia.

Também este ano se verificou um aumento das peregrinações organizadas ao santuário. O restabelecimento da estrada entre o Raminho e a Serreta contribuiu para facilitar o acesso, refletindo-se num maior fluxo de peregrinos durante os dias da festa.

Depois desta celebração animada pelo coro da Igreja de Nossa Senhora dos Milagres realizou-se a habitual procissão pelas principais ruas da freguesia. Esta segunda-feira, haverá tolerância de ponto na ilha para os funcionários da administração publica regional e local, de forma a que se possa celebrar a segunda-feira da Serreta.

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