Por Carmo Rodeia

Durante estes dias do simpósio europeu “Shaping Synodality in Europe: From Vision to Roadmap” (Moldando a sinodalidade na Europa – Da visão ao roteiro), que decorreu na cidade de Wels, na Áustria, e no qual tive a graça de participar, discutimos a questão da sinodalidade, contextualizando-a numa eclesiologia batismal e projetando o contributo da Europa para o processo sinodal em curso na Igreja.
Os 21 grupos de trabalho pediram caminhos mais claros para a consulta, a responsabilidade, a tomada de decisões e a prestação de contas, bem como a criação de espaços eclesiais que permitam uma participação efetiva de todos.
A conferência foi organizada em cooperação com a Universidade Católica Privada de Linz e a Taskforce Europeia do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE), sob o patrocínio deste organismo.
A organização e os participantes não quiseram fazer um documento final. Mas os relatórios dos grupos de trabalho deverão ser submetidos à Presidência do CCEE, tendo em vista a elaboração de um roteiro para as Igrejas europeias até à Assembleia Eclesial do Sínodo, prevista para outubro de 2028.
“Se nada é verdadeiramente maior do que o batismo, por que razão ele frequentemente exerce tão pouca influência visível na nossa vida como Igreja?”. A interrogação foi lançada pela teóloga pastoral Klara-Antonia Csiszar, vice-reitora da Universidade Católica Privada de Linz e presidente da conferência, sublinhando a igualdade de condição de todos os católicos conferida pelo batismo.
A questão, cinco anos depois de ter sido colocada a toda a Igreja, a partir de uma intuição do Papa Francisco que convocou um sínodo sobre sinodalidade, não é simplesmente saber se devemos parar ou avançar com a sinodalidade, num momento crucial entre dois tempos já definidos: um dirigido às Igrejas locais e nacionais e outro dirigido à Igreja universal. A questão mais premente hoje é discernir o que deve continuar, o que precisa de ser corrigido e o que deve ser abandonado.
Foi neste horizonte que decorreu este simpósio internacional, que reúniu cerca de 200 participantes, de 31 países. Mais do que fazer um balanço de um processo, importa perguntar que Igreja europeia está a nascer deste caminho e se ela será capaz de responder à Europa de hoje.
Porque a Europa mudou profundamente.
É uma Europa secularizada, envelhecida, culturalmente diversa e marcada por uma crise de confiança nas instituições. Crescem os nacionalismos, os populismos e identidades mais fechadas; a diversidade cultural, que pode ser riqueza, nem sempre encontra formas de convivência; e a secularização significa também a perda de poder e de autoridade social da Igreja.
Como sublinhou Tomáš Halík, que fez porventura a mais lúcida conferência do simpósio, estas transformações estão a reconfigurar o espaço europeu, com a mais do que evidente perda de relevância da Igreja. Mas, talvez essa perda de influência possa ser também uma oportunidade: “a Igreja não precisa de recuperar o poder perdido, mas de reencontrar a sua identidade e a sua missão”.
O teólogo conhecido pelos seus livros, que partem sempre de uma leitura dos sinais dos tempos, afirmou que a Europa não precisa de uma Igreja que procure reconquistar o seu lugar. Precisa de uma Igreja capaz de oferecer profundidade espiritual a uma sociedade que, apesar de tecnologicamente avançada, continua a procurar sentido, comunidade, esperança e respostas perante o sofrimento e a morte.
Temos mais comunicação e estamos mais sós. Mais informação e nem sempre mais sabedoria. Mais tecnologia e, muitas vezes, menos presença.
A tecnologização trouxe possibilidades extraordinárias, mas também um simulacro de felicidade e eficácia. As redes sociais alimentam uma espécie de dopamina permanente: estamos sempre ligados, felizes, ativos e, tantas vezes, profundamente sós.
Também a Igreja precisa de discernir esta sedução pela tecnologia. Podemos substituir o encontro pela videoconferência, a participação pela transmissão, a comunidade pelo consumo de conteúdos religiosos. Mas o cristianismo não é apenas contacto. É presença, encontro e comunhão. Implica relação. Implica paciência. Implica momentos de silêncio de olhos cravados noutros olhos, condições sem as quais nunca conseguiremos entrar e compreender verdadeiramente o Mistério.
É aqui que a sinodalidade encontra o seu verdadeiro sentido e também o seu maior risco.
Podemos parar, reduzindo-a a uma experiência passageira. Ou podemos avançar multiplicando reuniões, consultas e estruturas, sem verdadeira conversão, evangelização ou comunhão. Convicta de que este é um caminho irreversível embora muito mais lento do que gostaria, na verdade não posso deixar de intuir algum imobilismo, quase seis anos depois do inicio do processo, apesar dos bons documentos por ele produzidos e de algumas experiências que com ritmos diferentes e alcances ainda por avaliar vão surgindo em diferentes contextos. E isso é bom. Dá-nos esperança e ânimo para continuar mesmo que haja determinação organizada para parar.
Acompanho o Papa Leão: é preciso avançar, mas talvez mudando o centro de gravidade.
A sinodalidade não pode ser um fim em si mesmo. A pergunta decisiva é: este modo de caminharmos juntos ajuda a Igreja a anunciar Cristo, a formar discípulos, a servir os frágeis e a gerar comunhão ou pelo contrário, o seu carácter reivindicativo, diante de uma certa desconfiança, fragiliza o processo?
A conversão das estruturas é necessária, mas não é suficiente. A sinodalidade não pode transformar-se numa disputa pelo poder, numa reivindicação ou numa simples transferência de lugares. Uma verdadeira Igreja sinodal não elimina a autoridade: purifica a forma de a exercer e chama todos à corresponsabilidade. Mas todos, mesmo! Com igual dignidade, embora naturalmente de forma diferenciada conforme cada carisma.
Por isso, escutar, discernir e agir têm de permanecer unidos.
Escutar não significa que todas as opiniões tenham o mesmo peso, nem que a decisão possa ser indefinidamente adiada, com sinais que tanto dão para a `esquerda´ como para a `direita´. Uma Igreja que escuta muito, mas decide pouco, gera frustração. O discernimento só se completa quando conduz à decisão e à ação. E esta escuta deve começar pelas periferias reais: jovens, famílias, pobres, migrantes, idosos, trabalhadores precários, intelectuais, afastados e pessoas feridas pela própria experiência eclesial. E são tantas…
Se escutarmos apenas quem já está dentro, corremos o risco de ouvir apenas a nossa própria voz. Tal como podemos identificar constrangimentos. Por vezes, confundimos sinodalidade com reivindicação, corresponsabilidade com transferência de poder ou participação com substituição de quem manda. É humano. Mas é também um sinal de que precisamos de conversão. E ela é válida para quem possa ter a tentação reivindicativa porque sente o perfume da oportunidade da sua voz ser escutada mas, sobretudo, para quem tem medo de partilhar aquilo que erradamente confundiu como poder.
Uma paróquia pode ter conselhos, grupos e assembleias participativas e, apesar disso, estar espiritualmente moribunda. E uma paróquia onde a eclesiologia batismal não é vivida no concreto da ação pastoral pode dizer-se muito sinodal mas nunca o será efetivamente. Podemos ter estruturas sinodais sem verdadeira comunhão.
Por isso, acima de qualquer estrutura estão a oração, a Palavra de Deus, a formação, a evangelização e o anúncio explícito de Jesus Cristo.
Sem isso, a sinodalidade corre o risco de se tornar uma espécie de gestão participativa do declínio ou algo desejado apenas por um conjunto de pessoas bem intencionadas mas mal quistas, porque colocam em causa o status quo.
Talvez por isso a palavra-chave seja koinonia: comunhão.
Num continente marcado pela solidão e pela fragmentação, uma comunidade cristã capaz de acolher, reconciliar, perdoar e permanecer pode ser já um sinal do Evangelho.
Alguém deveria poder entrar numa comunidade cristã e perceber: “Aqui há algo diferente. Aqui há uma presença. Aqui Cristo está vivo.”
E chegamos à pergunta fundamental:
Que Igreja precisa a Europa para voltar a encontrar Cristo , e que conversão precisamos nós próprios de fazer para sermos essa Igreja?
A Europa não precisa simplesmente de uma Igreja mais forte, mais influente ou mais presente nas estruturas. Precisa de uma Igreja configurada a Cristo e que o encontre na rua.
Precisamos de nos descentrar de nós próprios para O mostrar a Ele.
Isto exige uma conversão pessoal: passar de uma fé recebida para uma fé vivida; de uma prática religiosa sem interioridade para uma relação pessoal com Cristo; do medo para a confiança; do poder para o serviço.
Não podemos pedir à Europa que volte a Cristo se Cristo não ocupa o centro das nossas próprias vidas, da vida dos influencers da Igreja. E há muitos corações doentes!
Não podemos anunciar misericórdia se não sabemos perdoar, falar de esperança se vivemos dominados pelo medo, ou pedir unidade enquanto alimentamos divisões.
A Europa poderá voltar a encontrar Cristo quando encontrar cristãos que O tenham realmente encontrado. E isso acontecerá menos através de grandes estratégias ou programas muito estruturados do que através da santidade concreta de homens e mulheres que rezam, trabalham, educam, cuidam, acolhem, perdoam e permanecem fiéis, servindo e não servindo-se, com agendas pessoas e ambições humanas.
Talvez seja essa a verdadeira missão da Igreja europeia: não recuperar o poder, mas recuperar a profundidade; não ocupar espaços, mas tornar Cristo presente; não centrar-se em si mesma, mas descentrar-se para O mostrar.
Por isso, a pergunta final que trago deste simpósio é também a mais exigente: Se a Europa encontrasse hoje a Igreja através de nós, encontraria Cristo?
É diante desta pergunta que começa a verdadeira sinodalidade. E é também aí que começa a nossa conversão.