Professor e escritor, que regressou à Igreja Católica depois de anos de afastamento, diz que a instituição continua a ser uma “força do bem fundamental” e vê sinais de renovação entre a população jovem que está muito comprometida. Defende uma Igreja capaz de contrariar a polarização política e de recuperar a dimensão comunitária do cristianismo

Frederico Lourenço considera que “a Igreja nunca foi tão indispensável como hoje”, numa altura em que as sociedades ocidentais enfrentam um crescente individualismo, polarização política e relações humanas cada vez mais mediadas pela tecnologia. O professor e escritor, que regressou à Igreja Católica depois de vários anos de afastamento, afirma mesmo que a ausência da Igreja deixaria “um vazio” que seria trágico para a humanidade.
“No mundo em que nós vivemos hoje, a Igreja Católica é uma força do bem fundamental”, afirma Frederico Lourenço, defendendo que a sua missão passa por concretizar a mensagem de Jesus, promovendo o amor, a compreensão e a capacidade de resistir às tendências que “insistem em dividir as pessoas”.
Apesar da redução da prática dominical e do envelhecimento de alguns movimentos e estruturas eclesiais, Frederico Lourenço diz ter uma visão otimista sobre o futuro do cristianismo. Aponta, em particular, para sinais de maior interesse entre os jovens em vários países e para o regresso de pessoas ao catolicismo.
“A minha visão é otimista, eu vejo que as camadas mais jovens estão a despertar para a importância de ouvirem esta mensagem”, afirma, relacionando esse despertar com a necessidade de encontrar referências estáveis num mundo cercado pela tecnologia e pelo isolamento.
“O nosso relacionamento não pode ser com o telemóvel”, alerta. Para o professor, a Igreja oferece precisamente uma resposta à necessidade de reconstruir relações humanas e de viver em comunidade: “A primeira coisa que a Igreja nos ensina é que temos de aprender a viver em comunidade”.
Frederico Lourenço reconhece que os números relativos à frequência das igrejas em vários países ocidentais possam apontar para uma diminuição, mas entende que essa realidade não significa necessariamente perda de vitalidade da fé, como denota a sua própria experiência. O exemplo da comunidade da Igreja de Santa Cruz, em Coimbra, que conhece diretamente e onde, segundo relata, “as eucaristias estão a abarrotar de pessoas”, dá-lhe a convicção de que pode haver um caminho de renovação a partir de comunidades mais pequenas e participativas.
“A partir de uma pequena comunidade, podemos formar uma comunidade maior”, afirma, sustentando que a mensagem cristã conserva uma dimensão intemporal: “A mensagem de Jesus era intemporal, há dois mil anos, é intemporal hoje e será intemporal sempre”.
“Não vamos adaptar a mensagem de Jesus a uma mensagem política”
A intervenção da Igreja perante as grandes questões políticas e sociais é outro dos pontos fortes da entrevista, que será transmitida este domingo no programa Igreja Açores, depois do meio-dia, na Rádio Clube de Angra e na Antena 1 Açores, ficando posteriormente disponível em podcast em www.igrejaacores.pt.
Frederico Lourenço valoriza a posição de hierarquias católicas que, em diferentes contextos, mantêm posições críticas mesmo quando estas entram em tensão com orientações políticas dos países onde estão inseridas, como pro exemplo nos Estados Unidos da América onde os bispos católicos nem sempre têm estado de acordo com o presidente Donald Trump.
“Nós não vamos adaptar a mensagem de Jesus a uma mensagem política. Nós temos que ser fiéis àquilo em que acreditamos”, afirma, considerando que esta atitude é particularmente importante num contexto de forte polarização política.
Sem se apresentar como tendo respostas políticas para os problemas atuais, incluindo a questão migratória, defende que a Igreja deve permanecer fiel à sua mensagem. E considera que o cristianismo continua profundamente ligado à matriz cultural e política do Ocidente.
“A sociedade ocidental está definida pelo cristianismo há muitos séculos”, afirma, acrescentando que os valores da democracia e dos direitos humanos estão “absolutamente inspirados na mensagem cristã”.
São Paulo e a universalidade da Igreja
A figura de São Paulo ocupa também um lugar central na reflexão de Frederico Lourenço. Considera-o decisivo para a expansão do cristianismo para além do contexto judaico e para a construção de uma Igreja com vocação universal.
“Foi ele que empurrou a Igreja para a frente”, afirma, destacando a visão de Paulo de uma mensagem destinada a chegar a todos os povos.
Num mundo marcado por divisões e polarizações, o professor catedrático de Coimbra recupera ainda aquela que considera ser uma das ideias mais revolucionárias do apóstolo: a de que, perante Deus, não existem as distinções humanas que estabelecem hierarquias entre pessoas.
“Nós somos todos filhos de Deus”, sublinha.
É também por isso que considera Paulo “o apóstolo do amor”, defendendo que essa deve ser uma chave fundamental para interpretar as passagens das suas cartas que hoje levantam maiores dificuldades.
A entrevista aborda ainda a relação dos católicos com a Bíblia. Frederico Lourenço considera que a Igreja mudou significativamente a sua atitude perante a leitura das Escrituras, incentivando hoje os fiéis a conhecerem e estudarem os textos bíblicos.
Essa leitura, porém, deve ser acompanhada de contexto histórico e de capacidade crítica. “Temos de ter tudo isso em linha de conta, para fazermos uma leitura mais rica e que nos ajuda a crescer na fé”, defende.
É neste sentido que valoriza iniciativas como a Escola Diocesana de Formação, por permitirem uma aproximação à Bíblia que não dispense o conhecimento do contexto histórico, cultural e social em que os textos foram produzidos.
A entrevista completa com Frederico Lourenço pode ser ouvida este domingo no Igreja Açores, depois do meio-dia, na Rádio Clube de Angra e na Antena 1 Açores, e posteriormente em podcast em www.igrejaacores.pt.