Nova Escola abriu hoje o ano letivo com um apelo à formação, ao pensamento crítico e ao diálogo entre fé e cultura. Bispo de Angra quer uma escola aberta a todo o Povo de Deus e à sociedade, um “laboratório de pensamento, de discernimento e de esperança”

A Diocese de Angra deu hoje início ao primeiro ano letivo da recém-criada Escola Diocesana de Formação, um projeto que pretende reforçar a formação dos leigos e criar um espaço de reflexão, conhecimento e diálogo entre a fé, a cultura e a sociedade.
Na sessão de abertura, realizada no Hotel Palácio de Santa Catarina, na ilha Terceira, o bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues sublinhou as razões que estão na origem da iniciativa e a visão que deverá orientar o seu percurso, sobretudo no horizonte pastoral da Diocese, sob o lema “passar à outra margem”.
Para D. Armando Esteves Domingues, a expressão traduz uma Igreja chamada a não permanecer instalada, mas a “atravessar fronteiras”, reconhecer novos desafios e abrir caminhos através da formação, da cultura e do diálogo.
O bispo de Angra apresentou a criação da Escola Diocesana de Formação como resposta a uma necessidade identificada nos organismos de participação da Diocese: proporcionar ao Povo de Deus uma formação “mais profunda, continuada e adequada aos desafios do nosso tempo”.
Mas a proposta, sublinhou, não nasce apenas da necessidade de acompanhar as mudanças da sociedade. O desafio é formar pessoas capazes de viver e interpretar essas mudanças.
“Que tipo de pessoa queremos formar para o mundo que está a nascer?”, questionou D. Armando Esteves Domingues, perante uma realidade marcada pela inteligência artificial, pela transformação digital, pelas mudanças no mundo do trabalho, pela pluralidade de visões do mundo e por profundas transformações culturais e sociais.
É neste contexto que definiu a nova escola como um “laboratório de pensamento, de discernimento e de esperança”.
A ambição é que seja um lugar onde “a fé possa dialogar com a cultura” e a teologia com a ciência, mas também onde diferentes gerações, vocações e sensibilidades possam encontrar-se e aprender umas com as outras.
Para o bispo, uma das tarefas fundamentais da formação é precisamente capacitar para o discernimento: “escutar, dialogar, argumentar, discernir, decidir e assumir responsabilidades”.
A aposta na formação dos leigos ocupa um lugar central nesta visão. O prelado diocesano recuperou a mudança de perspetiva introduzida pelo Concílio Vaticano II sobre o papel dos leigos, que deixaram de ser vistos apenas como aqueles que “ajudam” o clero para serem reconhecidos como “sujeitos da missão da Igreja”.
Daí a importância atribuída à formação, que o bispo considera “uma exigência” e não um luxo.
O objetivo não é formar “mini-padres”, mas “cristãos adultos”, capazes de pensar a própria fé, interpretar criticamente a realidade e assumir responsabilidades na família, na profissão, na cultura, na ciência, na educação e na sociedade.
A Escola não se destina, contudo, apenas aos leigos. É apresentada como uma escola “para todo o Povo de Deus”, aberta também à formação permanente do clero e ao encontro entre diferentes vocações e ministérios.
“Isso implica reconhecer que ninguém possui sozinho toda a experiência, todo o conhecimento ou toda a competência necessária para responder aos desafios do nosso tempo”, disse o prelado.
“As Escolas podem oferecer instrumentos críticos e científicos. As instituições civis conhecem realidades sociais concretas. As autarquias estão próximas das comunidades e dos seus problemas. As instituições sociais conhecem a vulnerabilidade e a exclusão. A cultura e a arte revelam dimensões da pessoa que nenhum discurso pode substituir” prosseguiu explicativamente.
“A Igreja, quando é verdadeiramente sinodal, não tem medo deste diálogo. Pelo contrário: acredita que a verdade não se empobrece quando é procurada em conjunto. É neste sentido que a sinodalidade exige formação” disse ainda sublinhando que a Igreja “precisa hoje de leigos teologicamente competentes. Precisa de cristãos capazes de dialogar com a cultura contemporânea e de colocar a sua competência profissional ao serviço da missão”.
“Precisamos de teólogos e biblistas; de especialistas em Doutrina Social da Igreja e em Direito Canónico; de educadores e comunicadores; de juristas, economistas, cientistas e profissionais das novas tecnologias; de pessoas capazes de compreender o mundo digital e a inteligência artificial” concluiu.
O projeto estrutura-se em três propostas: Curso Básico de Teologia, formação para os Ministérios Laicais e Curso Livre, permitindo diferentes formas de participação e percursos formativos.
A nova estrutura pretende ainda articular-se com as iniciativas de formação já existentes na Diocese, nomeadamente o Instituto de Cultura Católica, os Secretariados Diocesanos, as Escolas de Ouvidoria e os Movimentos, contribuindo para uma cultura de formação permanente.
A escolha do Seminário Maior de Angra para acolher a Escola Diocesana acrescenta uma dimensão histórica ao projeto.
Criado em 1862, o Seminário foi durante décadas uma instituição de formação eclesiástica, mas também uma das poucas possibilidades de formação pós-secundária existentes nos Açores, tendo contribuído para a formação de várias gerações da intelectualidade e das elites dirigentes açorianas.
É nesse espaço de memória que a Diocese pretende agora abrir uma nova etapa. O Seminário mantém a sua missão de formação de sacerdotes e diáconos, mas passa também a acolher uma proposta de formação dirigida a todo o Povo de Deus.
Para D. Armando Esteves Domingues, esta abertura não significa abandonar a identidade da instituição, mas aprofundá-la: uma casa tradicionalmente dedicada à formação sacerdotal passa também a ser uma casa de formação da comunidade diocesana.

O diretor da Escola, padre Nelson Pereira, centrou-se na identidade intelectual da Escola Diocesana de Formação e na relação entre fé e razão.
O responsável partiu de uma expressão atribuída a Santo Agostinho – “a fé, se não for pensada, não é nada” – e recuperou Santo Anselmo de Cantuária para definir a fé como aquela que “procura compreensão”.
É nesta relação entre fé e pensamento que o padre Nelson Pereira, agora também vice-reitor do Seminário Episcopal de Angra, cujos alunos estão deslocalizados no Porto, situa a razão de ser da nova escola. A formação cristã, defendeu, não pode prescindir da inteligência nem limitar-se a uma adesão sem procura de compreensão.
A referência à encíclica Fides et Ratio, de São João Paulo II, serviu para reforçar esta perspetiva de diálogo entre fé e razão. Para o diretor, aprofundar a tradição cristã é também compreender uma parte importante da própria cultura ocidental.
A Bíblia ocupa aí um lugar particular. A Escritura, afirmou, deixou marcas profundas na literatura, na arte e no património cultural, chegando à linguagem e às metáforas através das quais a sociedade interpreta o mundo.
A partir desta dimensão cultural, o padre Nelson Pereira alargou o horizonte da escola para além da comunidade crente.
A Escola Diocesana de Formação pretende ser um espaço de acolhimento para não crentes, de escuta ecuménica e de encontro com outras tradições religiosas. Quer afirmar-se como um “fórum de reflexão crítica e de diálogo aberto com a cultura contemporânea”.
O projeto pretende, assim, colocar a formação cristã em contacto com as grandes questões do presente, sem se fechar numa linguagem exclusivamente interna à Igreja.
A formação é, deste modo, apresentada como instrumento de liberdade e responsabilidade: mais livre é quem conhece, pensa, discerne e é capaz de dialogar com quem pensa de maneira diferente.
A sessão inaugural contou com uma lição de sapiência do professor Frederico Lourenço, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e tradutor da Bíblia, que dissertou sobre São Paulo, apóstolo e poeta.
A EDF parte com 130 alunos de diversas ilhas e permitira a frequência de 24 disciplinas da Filosofia, à Teologia, da Comunicação à Psicologia, da História aos documentos do Magistério, passando por disciplinas mais específicas sobre a Doutrina Social da Igreja, a Pastoral Catequética ou o Direito Canónico.
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