Leão XIV alerta para risco de desumanização e rejeita ideia de “inteligência” nas máquinas

Primeiro discurso de um Papa na UNESCO, desde 1980, liga crise ambiental a “crise antropológica”

Foto: Vatican Media

O Papa alertou hoje, em Paris, para o “processo de desumanização” provocado pelo desenvovimento tecnológico, em particular pelos sistemas de inteligência artificial (IA), rejeitando que se possa atribuir às máquinas a “faculdade humana de pensar”, no inicio da sua visita a França.

“Enquanto a inteligência é atribuída aos sistemas computacionais, temos dificuldade em reconhecer a dignidade inalienável da pessoa humana, cuja vida é avaliada com base no critério da eficiência e, quando considerada já não produtiva, é rejeitada e descartada”, denunciou Leão XIV, no discurso à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

“Os seres humanos não podem viver sem sentido. O sentido é o oxigénio da mente”, declarou o pontífice, avisando que, embora os sistemas de IA consigam cruzar dados, “não conseguem responder a perguntas sobre o sentido da existência humana”.

Perante os representantes internacionais, o Papa recorreu à imagem bíblica da Torre de Babel, usada na sua encíclica ‘Magnifica Humanitas’, para criticar “uma desejada globalização sem fraternidade” e os “contactos sem laços que reduzem a vida humana a um comércio” e a “uma mercadoria.

A intervenção deixou críticas à manipulação mediática, “à lógica da violência e à vontade arbitrária dos poderosos”.

“A comunicação tornou-se muito mais rápida, mas não necessariamente mais verdadeira; a informação é abundante, mas não corresponde à sabedoria. Sem uma deontologia compartilhada, os mais variados canais de comunicação correm o risco de multiplicar informações falsas ou de utilizar palavras sem significado, dificultando o diálogo em vez de o promover.”

O Papa destacou a importância da paz, apresentando a guerra como a “mais terrível das obras humanas”, onde a ciência “é colocada ao serviço de uma vontade desumana de destruir e matar”.

A intervenção considerou ainda a atual crise ecológica como uma “crise antropológica”.

“Encontra-se uma vontade de exploração e pilhagem que visa extrair o máximo possível de cada ser vivo, consumindo sem preservar e destruindo sem cultivar”, denunciou o pontífice.

Leão XIV defendeu um compromisso internacional em favor dos “mais pobres e pequeninos: crianças no ventre materno e nos diversos cenários de guerra, pessoas com deficiências físicas e intelectuais, idosos, migrantes e refugiados, e todos os que a soberba exclui como improdutivos”.

O discurso, em francês e inglês, defendeu que a UNESCO deve ser “um lugar onde a humanidade reflete sobre si própria, a sua história e o seu futuro”.

Foto: Vatican Media

“Mesmo no século XXI, não podemos dar por garantido que sabemos quem é a pessoa humana ou o que significa viver como ser humano”, apontou.

À imagem do que tinha feito esta manhã, no Eliseu, Leão XIV deixou críticas à legalização da eutanásia, destacando que a dignidade humana “não é destruída pela doença ou pela dor, nem depende do desempenho de que uma pessoa é capaz”.

O Papa foi recebido no Pavilhão de Honra da UNESCO pelo diretor-geral da instituição, Khaled El-Enany, e pelo observador permanente da Santa Sé, monsenhor Roberto Campisi.

O programa oficial englobou um encontro bilateral na biblioteca e uma passagem pela Praça da Tolerância.

Na mensagem que deixou no livro de honra da instituição, o Papa desejou que a UNESCO continue a promover a “cooperação internacional nas áreas da educação, ciência e cultura”.

O discurso de Leão XIV foi antecedido pela intervenção do diretor-geral da UNESCO, que celebrou a primeira visita pontifícia ao organismo desde 1980.

Khaled El-Enany elogiou a encíclica ‘Magnifica Humanitas’ como um testamento partilhado da “esmagadora primazia da inteligência humana”, sublinhando que a agência foi pioneira ao adotar, em 2021, o primeiro quadro normativo global sobre a ética da IA.

Em sintonia com as preocupações do Papa, o diretor-geral advertiu que nenhuma tecnologia poderá substituir “o discernimento, a consciência moral, o sentido de responsabilidade, a criatividade ou a empatia”.

Antes o Papa já tinha defendido no Palácio do Eliseu, um discernimento perante os avanços da inteligência artificial (IA), num discurso que abordou questões éticas como a manipulação genética, as barrigas de aluguer e a eutanásia.

“Constato com preocupação os desvios atuais das sociedades, que correm o risco de deturpar a ciência e a tecnologia, transformando-as em empreendimentos lucrativos que favorecem as manipulações genéticas, a maternidade de substituição, o tráfico de órgãos ou a oferta de uma morte programada”, declarou Leão XIV, no primeiro discurso da sua visita a França, iniciada esta manhã.

A 15 de julho, a Assembleia Nacional Francesa aprovou a lei da eutanásia e o suicídio assistido, diplomas que o pesidente Macron promulgou a 19 de agosto.

Perante Emmanuel Macron, autoridades políticas e membros do corpo diplomático, o pontífice rejeitou “soluções imediatas” da ciência que ignorem a “consciência”, sublinhando “o valor único e insubstituível de cada ser humano” e do respeito pela vida.

A intervenção citou o escritor francês Georges Bernanos (1888-1948), que alertou contra o “Paraíso das Máquinas”, a respeito dos desenvolvimentos da IA.

Para não perdermos a nossa humanidade no meio do ‘paraíso das máquinas’, que invade e condiciona o nosso quotidiano, é urgente formar os espíritos para um discernimento ético, capaz de distinguir o que é moralmente bom.”

Os conflitos internacionais também marcaram a intervenção, com o Papa a apelar à França para que se mantenha como uma “artífice incansável da paz e do multilateralismo, especialmente no interior da querida Europa”, após elogia o seu papel histórico.

Leão XIV criticou a “convicção errada de que a posse de armas nucleares constitua uma garantia de segurança, alimentando uma nova corrida ao armamento dificilmente controlável”, propondo alternativas diplomáticas.

Numa intervenção em que assumiu as suas “raízes familiares normandas e bearnesas”, o Papa defendeu o modelo de uma “correta laicidade” na relação Igreja-Estado, sem excluir a religião do espaço público ou do ensino, propondo que todos possam “trabalhar em prol do diálogo entre o Estado e as instituições religiosas, para que unam forças ao serviço do bem comum”.

Na abertura oficial da viagem, Leão XIV destacou ainda o “savoir-faire” evidenciado no restauro da Catedral de Notre-Dame, assumindo a reabertura do templo não apenas como uma “proeza técnica”, mas como o “símbolo de uma esperança reencontrada”.

“Um resultado tão belo deve inspirar nos agentes da vida política, social e religiosa do país um novo ímpeto para trabalhar incessantemente em espírito de unidade, com a força de uma esperança viva”, declarou.

Foto: Lusa

A sessão iniciou-se com o discurso de boas-vindas do presidente Macron. O presidente francês distinguiu laicidade do Estado de “negação da religião” e apelou ao trabalho conjunto em áreas como a paz e a regulação da inteligência artificial.

“Quando a República decidiu, há pouco mais de 120 anos, a separação entre a Igreja e o Estado, deu forma a uma laicidade francesa que não é de modo algum a negação da religião”, sublinhou o chefe de Estado, vincando que o país assume o dever de permitir a todos a liberdade de “crer ou não crer, tanto na intimidade como na esfera pública”, desde que se respeitem as leis civis.

“Este é um combate essencial que travamos e continuaremos a travar para proteger os locais de culto”, assinalou Macron na mesma intervenção, denunciando o recrudescimento das “insuportáveis demonstrações de intolerância” que atingem cristãos, judeus e muçulmanos no país.

Perante responsáveis políticos, religiosos e representantes da sociedade civil, o presidente gaulês destacou o impacto das novas tecnologias. Alertando para o risco de “ruturas antropológicas inéditas” face ao desenvolvimento da inteligência artificial (IA), uma inovação que substitui “a consciência pelo desempenho”.

Fazendo eco da encíclica ‘Magnificat Humanitas’, de Leão XIV, Macron sustentou que a IA “deve ser um servo, e não um senhor”, sublinhando a urgência de proteger crianças e adolescentes da dependência de ecrãs e algoritmos.

A história “duas vezes milenar” do cristianismo em França serviu de base para elogiar o esforço coletivo que permitiu reconstruir a Catedral de Notre-Dame em cinco anos, devolvendo-a “não apenas aos católicos, mas a todos os franceses e, mais além, ao mundo inteiro”.

O presidente francês enalteceu a exigência pontifícia de uma “paz desarmada e desarmante”, frisando que a pacificação pressupõe “mais do que o silêncio das armas” e que a República e a Igreja se “cruzam frequentemente com os mesmos rostos” no apoio aos mais frágeis e exilados.

O programa do Papa em Paris prossegue esta tarde com a deslocação a Notre-Dame e uma vigília com milhares de jovens no Stade de France (18h30), que procuram “uma palavra de responsabilidade e de lúcida esperança”.

A viagem decorre até segunda-feira, com passagens pelo Santuário de Lourdes e a cidade de Metz.

(Com Ecclesia e Vatican News)

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