Jornalista e D. Alexandre Palma, presidente da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais, promoveram debate sobre “reaprender a arte de conversar”

O jornalista João Miguel Tavares defendeu esta quinta-feira, em Leiria, que a Igreja Católica tem uma mensagem de grande relevância para comunicar, mas precisa de ultrapassar um discurso que considerou “excessivamente negativo” e encontrar novas formas de chegar à sociedade contemporânea.
“A Igreja tem um produto incrível para comunicar”, afirmou no debate de abertura das Jornadas Nacionais de Comunicação Social, promovidas pelo Secretariado Nacional das Comunicações Sociais (SNCS), sob o lema ‘Por uma gramática do encontro’.
Numa conversa com D. Alexandre Palma, presidente da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais, o jornalista defendeu uma mudança de “chip” na forma de comunicar, valorizando uma Igreja constituída por “pecadores” e pessoas “frágeis”.
“A mensagem é espetacular”, sublinhou João Miguel Tavares, destacando a “popularidade gigantesca” de Jesus, inclusive fora dos círculos eclesiais. Na sua perspetiva, muitas das dificuldades da instituição estão relacionadas com “deficiências de comunicação”.
“As histórias podem ser a frase certa no momento certo”, afirmou, defendendo uma comunicação capaz de apresentar experiências concretas e testemunhos de vida.
Perante uma sociedade e uma igreja que descreveu como um “mundo de gente perdida”, o jornalista considerou que existe uma procura crescente por uma dimensão espiritual e por aquilo que designou como “verticalidade”.
Para chegar a estes “buscadores”, a Igreja precisa, segundo João Miguel Tavares, de “ter a capacidade de se tornar sexy”, apostando numa comunicação apaixonada.
“Quem comunica tem de vibrar”, afirmou.
“Mostrem-me vidas, não me mostrem palavras”, pediu, alertando simultaneamente para os riscos de uma época excessivamente centrada na performance e na aparência.
Apesar dos desafios, o jornalista reconheceu uma maior abertura às propostas católicas, associando essa mudança à influência do pontificado do Papa Francisco, que considerou ter protagonizado uma “mudança decisiva”.
D. Alexandre Palma reconheceu, por seu lado, que a comunicação da Igreja continua muitas vezes a ser “reativa” e excessivamente limitada ao plano “informativo”.
“Às vezes estamos com o paradigma de comunicação de há 30 anos”, admitiu o bispo auxiliar de Lisboa, defendendo uma transformação que tenha em conta a menor relevância social da mensagem cristã numa sociedade de pós-Cristandade.
Para ultrapassar o “labirinto” e evitar uma atuação marcada pelo mero “tacticismo”, o responsável apelou à ousadia dos profissionais do setor: “Precisamos de exploradores, de profetas”.
Em convergência com João Miguel Tavares, D. Alexandre Palma defendeu a importância de apresentar experiências concretas e pessoas reais. A Igreja deve, afirmou, “contar histórias reais, de gente ferida”, num contexto marcado por “pessoas à deriva”.
“O Evangelho é a legenda do que estamos a viver hoje”, sustentou.
O responsável pela área das comunicações sociais sublinhou ainda que a missão da comunicação católica não pode limitar-se à transmissão de informação.
“O Evangelho não é apenas informação, é mais do que isso”, afirmou.
A presença da Igreja nas plataformas digitais exige também conhecimento das suas linguagens e dinâmicas. “É preciso saber jogar o jogo”, indicou D. Alexandre Palma, defendendo uma utilização das redes sociais que não conduza à sua “instrumentalização”.
Jornadas apostam no trabalho em rede
As Jornadas Nacionais de Comunicação Social decorrem esta quinta-feira no Seminário de Leiria e reúnem responsáveis diocesanos, profissionais de comunicação institucional, jornalistas e produtores de conteúdos digitais.
A iniciativa pretende contribuir para a construção de um “mapa conjunto” para a comunicação da Igreja Católica em Portugal, promovendo uma maior articulação entre os diferentes intervenientes e instituições.
D.Alexandre Palma apontou como prioridade a criação de uma verdadeira lógica de trabalho em rede e alertou para a perda da “arte do diálogo” na sociedade atual. A Igreja, defendeu, deve apostar numa linguagem de “reflexão” e “provocação”, em vez de reduzir a comunicação à divulgação de acontecimentos.
Em declarações à Agência Ecclesia, o bispo auxiliar de Lisboa rejeitou uma conceção da comunicação como um departamento isolado, defendendo que esta deve ser “uma linha que atravessa as diversas expressões da atividade da Igreja”, da liturgia à pastoral juvenil.
A organização das jornadas propõe aos participantes uma renovação da comunicação enquanto espaço de encontro, assumindo a necessidade de formar “construtores de templos de Jerusalém e não promotores de torres de Babel”, com a escuta recíproca como ponto de partida.
Durante a tarde, os trabalhos desenvolvem-se através de dinâmicas de grupo dedicadas a áreas como a organização dos secretariados diocesanos, a comunicação institucional, a produção de conteúdos digitais, o acompanhamento jornalístico do fenómeno religioso, os media eclesiais e o anúncio na missão digital.
As jornadas abordam igualmente os desafios colocados pela inteligência artificial e pelas novas tecnologias.
(Com Ecclesia)