Para chegar à outra margem Igreja açoriana precisa de estar “em conversão contínua”

D. Armando Esteves Domingues abriu na Horta o novo ano pastoral da Diocese de Angra, desafiando as comunidades a uma conversão permanente, ao acolhimento e a uma missão que atravesse as “margens” humanas e pastorais. “Passar à outra margem” significa, para o bispo, deixar o conforto, criar pontes e voltar a colocar Cristo no centro da missão

Foto: Igreja Açores/CR

“Jesus diz-nos hoje: passemos à outra margem.” Foi com esta expressão que D. Armando Esteves Domingues lançou, esta noite, na Horta, o desafio à Diocese de Angra para o novo ano pastoral. A imagem bíblica tornou-se o fio condutor de uma intervenção centrada na conversão, no acolhimento e na missão.

Para o bispo de Angra, a primeira condição para chegar à outra margem é a própria transformação da Igreja.

“Não podemos chegar à outra margem sem uma Igreja em conversão contínua”, afirmou, advertindo que é possível estar dentro da Igreja e, simultaneamente, permanecer longe do Evangelho.

“Podemos estar dentro da Igreja e estar longe do Evangelho, podemos ocupar funções e estar longe da missão”, disse D. Armando Esteves Domingues, defendendo que Deus “quer converter-nos antes de nos enviar”.

A conversão, contudo, não pode terminar em si própria.

“Não podemos converter-nos e ficar sentados”, sublinhou. O caminho interior deve conduzir à missão e traduzir-se numa Igreja capaz de sair ao encontro de quem está fora.

A “outra margem” não é apenas um destino geográfico, disse ainda.

“Há margens que não se veem no mapa”, lembrou o bispo, referindo-se às distâncias humanas e pastorais que atravessam hoje as comunidades. Famílias que se afastaram, pessoas fragilizadas, doentes, presos, quem vive sozinho ou quem deixou de encontrar lugar na comunidade são algumas dessas margens.

Por isso, “a Igreja nunca poderá estar de portas fechadas, mas deve promover pontes”.

O desafio implica uma mudança de atitude: “Passar à outra margem é passar do fazer para o relacionar, deixar de organizar para envolver, deixar de estar no conforto para ir ao encontro”.

A meta, ressalva, por outro lado, não é recuperar posições sociais ou aumentar números.

“Não estamos para recuperar posições no ranking do mundo”, afirmou o prelado ao sublinhar que a missão é chegar às pessoas para lhes levar Cristo e contribuir para uma humanidade mais unida.

O sinal de que essa missão acontece será, segundo o bispo diocesano, simples e profundamente humano: que alguém possa dizer “encontrei um irmão, encontrei esperança, encontrei Cristo”.

O Faial como metáfora da missão

A escolha do Faial para a abertura do ano pastoral ganhou, na reflexão do bispo de Angra, um significado particular. Ilha de passagem e de encontro, onde se cruzam vários mundos, sobretudo pela vocação iatista,  o Faial “foi sempre uma ilha de passagem para o mundo”, habituada pelas tragédias  a “reerguer-se e a fazer vida nova”. Também a Diocese, defendeu D. Armando Esteves Domingues, precisa de aprender a partir “de paróquia em paróquia, de ilha em ilha”.

Neste capítulo, a proximidade do Pico, separado pelo mar, serviu igualmente como metáfora. Na Igreja, a unidade não é apenas física. As margens precisam de se tocar, vencendo medos e preconceitos e fortalecendo relações.

O Faial traz ainda na sua memória a experiência da fragilidade e do recomeço. “Sabe o que significa perder, recomeçar”, observou o bispo, encontrando nessa experiência uma imagem do próprio processo cristão: morrer para o pecado para renascer para uma vida nova.

A missão nasce, por isso, também da alegria.

“Precisamos de uma Igreja alegre que já é missionária”, afirmou D. Armando Esteves Domingues, convidando os cristãos a redescobir “o espanto e a alegria” de se terem encontrado com Jesus.

Uma paróquia sem igreja a acolher a Diocese

O simbolismo estará presente também no próprio local da celebração de abertura deste novo ano pastoral. A paróquia da Ribeirinha, onde decorrerá no próximo domingo uma eucaristia de ação de graças pelo começo deste novo tempo, não tem desde 9 de julho de 1998, altura do sismo que destruiu por completo quatro igrejas do Faial, um templo.

O padre Marco Martinho, ouvidor da Horta, destacou a alegria de acolher e o significado deste contexto. A comunidade torna visível que “as pedras vivas é que fazem a Igreja”.

Mais do que uma circunstância, a ausência do edifício tornou-se uma imagem coerente com o desafio lançado: a Igreja faz-se de pessoas, de relações e de comunidades capazes de acolher.

Um ano pastoral para continuar processos

O padre Jacob Vasconcelos, diretor do Serviço de Coordenação Pastoral, apresentou as linhas de ação para o novo ano, sublinhando que a caminhada não começa do zero.

“Muitos dos objetivos do ano passado são processos e, por isso, não devem ser postos de parte”, explicou. Alguns devem ser continuados; outros, iniciados onde ainda não chegaram, acrescentou a partir da apresentação do subsídio que contém o Projeto Pastoral para 2026/2027.

A intenção do Projeto Pastoral, afirmou,  não é “sobrecarregar as paróquias”, mas criar meios para que possam continuar o caminho, reservando tempo para escutar o Espírito Santo, discernir e responsabilizar mais pessoas.

O lema “Como chegar à outra margem” concretiza-se em três palavras: conversão, acolhimento e missão.

Entre as propostas estão retiros, momentos de acolhimento, o estímulo ao espírito de vizinhança, horários mais adequados às famílias e uma maior abertura dos movimentos à pastoral comunitária. Está também prevista a criação de equipas informais para a chamada “pastoral do bater à porta”, procurando chegar a pessoas que já não frequentam habitualmente as comunidades.

O padre Jacob Vasconcelos evocou ainda o beato João Baptista Machado, missionário açoriano no Japão e padroeiro da diocese, para sublinhar que o desafio para este ano pastoralnão exige começar tão longe: “Comecemos pela nossa paróquia, pela nossa ilha.”

O subsídio pastoral inclui também três catequeses sobre os temas do ano.

A dimensão do acolhimento ganhou rosto no testemunho de Cláudia Silveira, diretora técnica da Casa de Infância de Santo António, instituição com 168 anos de história.

A responsável apresentou uma realidade marcada por uma longa tradição de acolhimento, proteção e transformação de vidas, destacando o papel das religiosas Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada conceição que ajudaram a consolidar uma verdadeira cultura de acolhimento, que tem passado por várias fases e hoje é mais do que uma resposta residencial, procurando proporcionar condições para a construção de projetos de vida integrados e autónomos.

“Criar pontes onde há muros”

Outro dos testemunhos da noite veio da pastoral penitenciária. Rosa Leal, ligada há 18 anos ao projeto Caminhos e Vidas, que desenvolve a chamada obra da cadeia, no estabelecimento prisional da Horta, uma cadeia de apoio, falou de uma missão marcada pela persistência, mas também pela dificuldade em encontrar voluntários.

“Levo amor, persistência, entrega, e levo Jesus nesta viagem e missão”, afirmou, sem esconder que leva também “desânimo e tristeza”.

Na prisão, porém, permanece uma convicção: “Ninguém está excluído nem do amor nem da sua misericórdia.”

A reclusão não apaga a dignidade da pessoa, defendeu Rosa Leal. Dar tempo a quem está privado de liberdade é uma forma de estabelecer relações e “criar pontes onde há muros”.

O projeto na Cadeia de Apoio da Horta inclui assistência religiosa, dinamismo cultural, cursos de profissionalização e apoio a pessoas sem família. Um trabalho que procura transformar uma margem de exclusão num espaço de esperança.

“Mesmo com o mar bravo, convido todos a embarcar nesta pastoral de esperança”, afirmou.

Foto: Igreja Açores/CR

A sessão contou com um apontamento musical do coro Stella Maris que interpretou um tema cristológico, outro mariano e outro de natureza mais ecuménico.

A celebração de abertura do ano pastoral prossegue este domingo, às 16h30, na Ribeirinha, a única comunidade paroquial dos Açores sem uma igreja desde o sismo de 1998. Foi uma das quatro igrejas do faial arrasadas pelo simo que afetou as ilhas do Faial, Pico e São Jorge e que deixou um rasto de destruição no parque habitacional e também no património religioso da ilha do Faial e no Pico.

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