Quase três décadas depois do sismo de 9 de julho de 1998, a Ribeirinha é a única paróquia do Faial que continua sem igreja paroquial. O novo projeto foi redimensionado para tornar a construção financeiramente suportável pela comunidade

A comunidade da Ribeirinha recebe este domingo o bispo de Angra, numa celebração simbólica de ação de graças pela abertura do novo ano pastoral, apresentado na Horta esta sexta-feira, e pela primeira visita de D. Armando Esteves Domingues à paróquia. A ocasião acontece num momento particularmente significativo para uma comunidade que, 28 anos depois do sismo de 9 de julho de 1998, continua a celebrar numa antiga escola primária e tem agora um novo projeto para a construção da sua igreja paroquial.
O padre Roberto Cabral, pároco da Ribeirinha há cerca de um ano, assumiu como um dos principais desafios do seu ministério levar este processo a uma nova etapa. O projeto foi recentemente reformulado e redimensionado, procurando adequar a futura igreja à dimensão da comunidade e, sobretudo, às suas possibilidades financeiras.
“Temos o projeto, temos o orçamento que está dentro daquilo que nos é possível pagar”, explica o sacerdote, sublinhando que a solução foi pensada para não comprometer financeiramente a paróquia durante décadas.
“Temos de atender à nossa realidade, à dimensão da comunidade, às circunstâncias sociais também, temos de atender também que é uma comunidade pequenina”, afirmou em declarações ao Sítio Igreja Açores.
A nova proposta resulta da reformulação do projeto anterior, num trabalho desenvolvido com o arquiteto João Paredes. A opção passa por concentrar os recursos na construção da igreja, deixando para uma fase posterior outros equipamentos ou valências paroquiais.
“Não quisemos construir uma coisa só porque sim”, afirma o padre Roberto Cabral. “Fazemos com dignidade”, tanto do ponto de vista arquitetónico como da celebração litúrgica.
O projeto prevê uma igreja com cerca de 450 metros quadrados e capacidade para aproximadamente 100 pessoas, além dos espaços considerados necessários ao funcionamento litúrgico e pastoral, como salas de catequese. O custo estimado da edificação ronda 1,6 milhões de euros, sem contar com a aquisição do terreno, que já foi feita.
A concretização da obra deverá contar com o protocolo existente com o Governo Regional, à semelhança do que aconteceu com as restantes igrejas afetadas pelo sismo, e a Comissão Fabriqueira espera também poder contar com o apoio da Câmara Municipal da Horta. Segundo o pároco, já terá existido disponibilidade informal da autarquia para colaborar no processo.
“Esperemos, e certamente poderemos contar, porque já houve, de forma informal, essa disponibilidade, também com a colaboração da Câmara Municipal”, afirma.
A Ribeirinha foi uma das freguesias mais afetadas pelo sismo de 1998, tanto ao nível do património religioso como habitacional. A antiga igreja paroquial ficou destruída e a comunidade passou a utilizar a antiga escola primária, cedida pela Câmara Municipal da Horta. O que começou como uma solução provisória transformou-se numa realidade que dura há quase três décadas.
“É uma coisa provisória, que há muitos anos acaba também por não ter a dignidade que um espaço litúrgico merece”, considera Roberto Cabral.
Das quatro igrejas do Faial que ficaram totalmente destruídas pelo sismo e tiveram de ser reconstruídas de raiz, a Ribeirinha é a única que continua sem novo templo. O lugar de Espalhafatos, pertencente à freguesia, integrada na mesma comunidade paroquial, já tem a sua igreja reconstruída.
Para o sacerdote, o atraso deixou marcas profundas.
O processo conheceu avanços e recuos, alterações de projeto e períodos de estagnação. O pároco reconhece que, no início, a dimensão da destruição e o número de igrejas afetadas tornaram a reconstrução particularmente complexa, mas considera que a espera prolongada acabou por criar uma ferida própria na comunidade.
“Passados 28 anos, ainda não tem a igreja e há feridas que ficaram pessoas que se envolveram e já partiram e outras que estando envolvidas estão a ficar cansadas e mais velhas”, recorda.
A nova igreja também não será construída no local da antiga. A opção prende-se com questões de segurança e com a proximidade de uma falha sísmica identificada naquela zona, além do histórico de destruição da igreja em anteriores crises sísmicas.
Duas gerações sem conhecer a igreja paroquial
O impacto da espera prolongada ultrapassa a ausência de um edifício. O padre Roberto Cabral fala de uma comunidade que foi envelhecendo enquanto aguardava por uma solução.
“Há já quase duas gerações que não se lembram de ir à igreja, porque quando nasceram a igreja estava destruída”, sublinha. E acrescenta: “Isso causa feridas na comunidade. É evidente que, se se construir a nova igreja, essas feridas irão sarar, mas deixam a marca.”
A paróquia da Ribeirinha reúne cerca de 420 pessoas, enquanto a comunidade propriamente dita da Ribeirinha ronda as 210 a 215 pessoas. É uma comunidade pequena, mas que, segundo o pároco, tem demonstrado uma capacidade de resistência pouco comum ao longo de quase três décadas.
“É também um exemplo de resiliência e, sobretudo, um exemplo de Igreja viva, que é, afinal de contas, a Igreja: são as pedras vivas, são as pessoas.”
Ao longo dos anos, a população manteve iniciativas de angariação de fundos para a futura igreja, apesar da sucessiva ausência de uma data concreta para o início da obra.
“É difícil, quando ouvimos falar de algo que parece que não quer chegar, manter as pessoas motivadas”, reconhece o sacerdote.
“São 28 anos. Será que é desta? Eu acho que nunca estivemos tão perto”, conclui o sacerdote.
Apesar das dificuldades, Roberto Cabral considera que o processo atingiu agora um ponto diferente.
“Nunca estivemos tão perto de isso se tornar uma realidade” sublinha.
Ainda será necessário cumprir vários procedimentos: aprovação do projeto, tramitação no âmbito do protocolo existente e preparação do concurso público para a construção. Mas, pela primeira vez, a comunidade dispõe de um projeto ajustado à sua dimensão e às suas possibilidades financeiras.
O pároco, que chegou à Ribeirinha há um ano, recebeu do bispo o desafio de ajudar a conduzir o processo até à construção da igreja.
“Não vim como o salvador da pátria”, diz, lembrando que o desafio lhe foi lançado por D. Armando Esteves Domingues, que entendeu que poderia ter o perfil para levar o processo “a algum porto”.
A nova igreja é, por isso, mais do que uma obra para esta comunidade. Para Roberto Cabral, poderá representar também o encerramento de um dos últimos capítulos do sismo de 1998 no património religioso do Faial.
“Para a própria ilha do Faial, será o limpar, digamos assim, a última ruína que fica do sismo de 1998.”
Mas, para o sacerdote, a celebração deste domingo deverá deixar uma mensagem que ultrapassa a própria construção, pois mais importante do que as paredes, mais importante do que qualquer obra, são as pessoas, a sua missão e a sua entrega a Jesus, reconhece.
Este domingo a celebração presidida pelo bispo, com a presença de todo o clero faialense, insere-se num fim de semana de festa, em honra do padroeiro, São Mateus, e funciona simultaneamente como um momento de arranque do ano pastoral diocesano.
Para chegar à outra margem Igreja açoriana precisa de estar “em conversão contínua”