Colégio de Santo António: uma história que começou no acolhimento e se fez educação no Faial

No segundo encontro de antigas alunas, a história do Colégio de Santo António voltou a ser contada a partir das suas origens. Monsenhor António Saldanha e a Irmã Amélia Costa revisitaram uma obra que nasceu para responder a uma realidade social difícil e que encontrou na educação e no carisma franciscano os pilares de uma missão que atravessou gerações

Foto: Igreja Açores/CR

Há lugares que permanecem para além do tempo em que foram vividos. O Colégio de Santo António, na Horta, é um desses lugares. Para quem ali estudou, a memória não se resume às salas de aula, às disciplinas ou aos anos passados na instituição. É uma memória feita de pessoas, de formação, de relações e de valores que continuam a acompanhar quem por ali passou.

Foi esse património de memórias que esteve presente no segundo encontro de antigas alunas e professores do Colégio de Santo António, realizado este sábado. Entre reencontros e recordações, houve também espaço para revisitar as raízes de uma instituição que marcou profundamente a vida social e educativa da ilha.

Coube a Monsenhor António Saldanha, antigo aluno do colégio e pároco da Matriz e da Conceição da Horta, conduzir uma viagem aos primeiros tempos desta história, que começa ainda antes de existir o Colégio de Santo António como espaço de ensino. É uma história que remonta ao século XIX, quando a existência de crianças órfãs e abandonadas constituía uma realidade social para a qual era necessário encontrar respostas.

“É uma história muito, muito longa, uma história que começa no século XIX”, recordou Monsenhor António Saldanha, explicando que a preocupação com essas crianças esteve na origem de diferentes iniciativas de proteção e assistência.

Foi nesse contexto que se criaram condições para o acolhimento de crianças em situação de abandono. Esse primeiro espaço de proteção viria a constituir o embrião da obra que, com o passar do tempo, daria lugar ao Colégio de Santo António.

“O espaço de acolhimento para as crianças abandonadas é o embrião daquele que seria, no tempo e hoje, o Colégio de Santo António”, afirmou.

A origem da instituição ajuda, assim, a compreender uma característica que atravessaria toda a sua história: a educação entendida como resposta a uma necessidade humana concreta.

O colégio foi ganhando uma nova dimensão. À resposta social juntou-se a educação, primeiro destinada às meninas acolhidas e, posteriormente, aberta a alunas provenientes de outras ilhas e de diferentes famílias.

Durante décadas, tornou-se uma referência na formação de várias gerações. Para além das matérias escolares, havia uma preocupação com aquilo que Monsenhor António Saldanha descreveu, em declarações ao sítio Igreja Açores, como uma verdadeira formação integral.

“Foi um oásis de formação”, afirmou, recordando a qualidade e o rigor do ensino ministrado.

Artes, letras, ciências, matemática, história ou língua portuguesa faziam parte de uma formação exigente, mas a escola procurava também transmitir valores humanistas e cristãos. Era uma educação que pretendia preparar para a vida. E essa experiência deixou marcas profundas em quem a viveu.

“Fomos a família das irmãs para além de alunos”, recordou-se durante o encontro.

A frase traduz uma dimensão que dificilmente cabe nos registos oficiais: a relação afetiva construída entre as alunas, as religiosas, os professores e a própria instituição.

O rosto franciscano da educação

Essa forma de educar estava profundamente ligada ao carisma das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, uma obra criada pela beata Maria Clara, também ela orfã.

Para Monsenhor António Saldanha, a marca deixada pelo colégio não pode ser separada desse carisma. A formação recebida assentava na transmissão de conhecimentos, mas também numa determinada forma de olhar para o outro e para o mundo.

O testemunho franciscano colocava no centro a atenção aos mais pobres, a simplicidade, a dignidade da pessoa, o diálogo com quem é diferente e o cuidado pela criação. São valores que, na reflexão deixada no encontro, mantêm plena atualidade.

A educação surgia, assim, como algo mais amplo do que a aquisição de competências. Tratava-se de ajudar cada jovem a descobrir o seu lugar na sociedade e a assumir uma responsabilidade perante os outros.

Foi também por isso que o colégio se tornou, nas palavras recordadas no encontro, um “viveiro de vocações”.

Poucas pessoas poderiam falar desta história com a mesma autoridade da Irmã Maria Amélia Costa.

Foi aluna do Colégio de Santo António e, mais tarde, professora na mesma instituição. A sua vida cruza-se, portanto, com duas das dimensões fundamentais da obra: a de quem recebeu e a de quem passou a transmitir.

No encontro, a sua intervenção partiu precisamente dessa experiência e da responsabilidade que, no seu entender, acompanha quem foi formado neste ambiente.

“Quem foi marcado pelo carisma franciscano hospitaleiro tem o dever de fazer a sua parte neste mundo tão desigual e tão polarizado”, afirmou, resumindo essa responsabilidade numa frase simples: “aquilo que tu recebes tens que dar”.

É uma ideia que ajuda a compreender a própria natureza de um encontro de antigas alunas. Regressar ao colégio não significa apenas recordar o passado. Significa reconhecer aquilo que dele permanece e a forma como pode continuar a ser transmitido.

A Irmã Amélia Costa trouxe também para a reflexão os desafios do presente. Numa sociedade marcada pela comunicação digital e por relações cada vez mais mediadas por ecrãs, chamou a atenção para a importância do encontro pessoal.

“Se não partilharmos e não nos relacionarmos presencialmente vamos transformar-nos em robôs frios”, afirmou, defendendo relações de amizade, de paz e de proximidade.

Foi neste contexto que situou a atualidade do carisma franciscano hospitaleiro.

“Este carisma é intemporal”, afirmou, porque a hospitalidade pode responder às necessidades de cada época. Mas hospitalidade, explicou, é mais do que receber. É saber acolher, escutar e acompanhar.

“Sem escutar também não se pode agir, não se pode reagir, não se pode dar uma ajuda”, sublinhou.

A instituição atravessou diferentes épocas e conheceu diferentes configurações, mas a preocupação com a pessoa permaneceu como elemento de continuidade.

Hoje, a missão desenvolvida na Horta continua ligada à proteção e salvaguarda dos direitos das crianças e jovens, acolhendo jovens em situação de risco, meninas e meninos,  procurando proporcionar-lhes um projeto de vida integrado.

A celebração começou com uma missa seguida de um almoço e depois de uma sessão onde foram igualmente partilhadas mensagens de antigas alunas.

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