Este domingo celebra-se o Dia do Migrante

A Diocese de Angra está a reforçar o Serviço da Mobilidade Humana com apoio psicológico, uma rede de mediadores e, numa próxima fase, uma residência de acolhimento para migrantes, deslocados e refugiados. No 112.º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, que a Igreja Católica assinala este domingo, o padre Duarte Melo sublinha que a resposta cristã deve traduzir-se em “gestos concretos” de acolhimento, proteção e integração.
“Não com palavras abstratas, mas através de uma resposta efetiva às pessoas que chegam aos Açores”, é o desafio deixado pelo padre Duarte Melo, que acompanha a reorganização do Serviço da Mobilidade Humana da Diocese de Angra. O sacerdote considera que a Igreja tem a obrigação de criar “avenidas de inserção e de acolhimento” para quem chega à região, particularmente para as pessoas que se encontram em situação de maior vulnerabilidade.
A Diocese de Angra está, neste momento, a estruturar um serviço de apoio psicológico, já com um psicólogo em funções, e dispõe de um espaço de acolhimento no Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres. O projeto envolve a Mobilidade Humana, a Cáritas, o Santuário, a Irmandade do Santo Cristo e o Economato da Diocese, numa lógica de parceria que o padre Duarte Melo apresenta como uma expressão concreta da sinodalidade.
“Estamos a trabalhar em parceria para termos aqui um projeto credível e um projeto que, de facto, seja assertivo na resposta social”, afirma. A resposta pretendida, acrescenta, passa pela “inclusão e proteção” das pessoas que chegam à Diocese de Angra.
Segundo o sacerdote, a presença de migrantes nos Açores tem aumentado e constitui também um contributo para a região, tanto no plano cultural como económico. Estima que existam cerca de 10 mil imigrantes no arquipélago, a maioria concentrada em São Miguel, num contexto em que há necessidade de mão de obra e em que empresários têm manifestado preocupação com a disponibilidade de trabalhadores.
Mas, para o padre Duarte Melo, a imigração não pode ser reduzida à sua dimensão laboral.
“A riqueza cultural, as histórias que eles trazem, toda a complexidade e toda a vivência dos seus países” representam também um benefício para as comunidades de acolhimento, por contribuírem para uma sociedade “mais aberta” e “mais plural”.
Uma das preocupações apontadas pelo responsável da Mobilidade Humana é a situação das famílias que ficam separadas durante os processos migratórios. O sacerdote recorda a própria história da emigração açoriana, marcada pela partida de homens e mulheres para países como os Estados Unidos, Canadá e Bermudas, muitas vezes deixando para trás mulheres, filhos e outros familiares.
A experiência migratória atual reproduz, em alguns casos, essa separação. Por isso, defende, a Igreja deve também contribuir para “juntar famílias” e criar condições para uma integração efetiva.
Entre os grupos acompanhados estão jovens migrantes que chegam aos Açores para estudar e que, por vezes, não dispõem de uma rede familiar ou social de apoio. A Irmandade do Senhor Santo Cristo deverá assumir um papel de mediação, juntamente com elementos da sociedade civil.
O projeto pretende ainda alargar-se a outras ilhas. No Pico, segundo o padre Duarte Melo, está já a formar-se um pequeno núcleo de apoio à imigração, com a participação do psicólogo da Mobilidade Humana e o envolvimento local.
A próxima etapa prevista pela Diocese é a criação de uma residência de acolhimento.
“Neste momento estamos com um apoio psicológico, com um grupo de mediadores e um próximo passo será a residência de acolhimento”, explica o sacerdote.
O objetivo é que o atual projeto, ainda numa fase inicial, possa crescer e transformar-se numa estrutura capaz de dar resposta continuada. O padre Duarte Melo recorre à imagem de uma semente para descrever este caminho: “que seja árvore de abrigo, embora agora seja semente”.
Leão XIV coloca as crianças migrantes no centro da mensagem
Este domingo celebra-se o 112.º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, este ano dedicado particularmente às crianças e adolescentes que vivem experiências de migração e deslocação.
Na mensagem para esta jornada, com o tema “Mesmo uma só destas crianças”, o Papa Leão XIV chama a atenção para os milhões de menores obrigados a abandonar as suas terras devido a guerras, pobreza, violência, catástrofes ambientais e outras situações de crise.
O Papa recorda que, por detrás dos números das migrações, existem pessoas concretas e histórias de sofrimento. Na mensagem, sublinha que “não se trata de números ou estatísticas” e que cada criança possui uma dignidade que deve ser reconhecida e protegida.
O apelo foi retomado por Leão XIV após a Audiência Geral de 23 de setembro, quando chamou a atenção para a vulnerabilidade dos menores nas rotas migratórias.
“As crianças e os adolescentes são os mais vulneráveis”, afirmou o Papa, referindo situações de violência, tortura, exploração e outras experiências traumáticas, e apelando à responsabilidade de todos na sua proteção e acompanhamento.
A mensagem pontifícia alerta ainda para as mortes nas rotas migratórias, o tráfico e a exploração, o recrutamento de menores para conflitos armados, a violência sexual e os casamentos forçados. Leão XIV considera que a dignidade das crianças migrantes é atingida de múltiplas formas e pede uma resposta que coloque a pessoa no centro.
Para Duarte Melo, esta preocupação do Papa deve ser entendida como um apelo à ação. O sacerdote relaciona a mensagem de Leão XIV com a necessidade de combater fenómenos como a xenofobia e o populismo e de responder às situações de sofrimento provocadas pela separação das famílias e pelas experiências vividas durante os percursos migratórios.
“A Igreja tem como princípio fundamental esta missão”, afirma, defendendo uma solidariedade que não fique apenas no discurso.
“É preciso gestos proféticos, gestos salvíficos, gestos sacramentais”, que passem concretamente por “acolher, proteger e integrar”.
O Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, instituído em 1914 pelo Papa Bento XV, é apresentado pela Diocese de Angra como uma oportunidade para renovar o compromisso com as pessoas migrantes e refugiadas e, simultaneamente, para consolidar respostas locais.
Para o padre Duarte Melo, a Igreja deve ser precisamente esse espaço de acolhimento: uma comunidade capaz de transformar a atenção aos migrantes em acompanhamento concreto e de fazer da integração uma responsabilidade partilhada.