Escutar “sem avaliação”, educar o olhar “que procura o que falta”, percorrer caminhos de esperança e “ousar acreditar na potencialidade de cada pessoa humana”

O teólogo Pedro Valinho Gomes afirmou que a educação deve promover a escuta “sem avaliação”, ir além do “mundo fortemente polarizado”, criar “mediações de esperança a cada jovem” e acreditar “na potencialidade de cada pessoa humana”.
Na apresentação das conclusões do simpósio sobre a educação e a escola em Portugal, que hoje terminou em Fátima, o decano da Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lille, França, apontou quatro atitudes para definir a “cartografia educativa” na atualidade: “ampliar a caixa de ressonância”, “cultivar a oftalmosofia”, “imaginar o presente” e “habitar o limiar”.
Pedro Valinho Gomes referiu-se a “transições” que acontecem a um “ritmo tão violento” que “privam a pessoa humana da sua liberdade e desconectam-na do mundo que ela habita”, que convida a “redescobrir a ressonância”, a “reaprender a abrandar o ritmo e a escutar”.
“É preciso um caminho educativo centrado não apenas na formação profissional ou no aumento de conhecimentos e de capacidades, mas também, sobretudo na busca de sentido que aumente a nossa caixa de ressonância em abertura ao outro e ao mundo”, afirmou.
“Num mundo fortemente acelerado e fragmentado, em que os lugares das certezas são substituídos por relações líquidas, comprometemo-nos a criar, nas nossas escolas, tempos e lugares de demora e ressonância: onde se escuta sem pressa, sem avaliação, com atenção e cuidado, e onde cada educador aceita ser alguém diante de quem é possível se perguntar”.
O decado da Faculdade de Teologia da UCL acrescentou que oftalmosofia é uma oportunidade para “cultivar novas oportunidades para a amizade social, além dos antagonismos e das polarizações”, apelou à empatia enquanto “compromisso político sem medida nem cálculo”, que conduz a um compromisso educativo.
“Num mundo fortemente polarizado, em que as evidências nos bastam e o outro nos assusta, comprometemo-nos a educar um olhar que procura o que falta, que se deixa corrigir pelo que não vê, e que reconhece em cada pessoa alguém com lugar na nossa história”.
A quarta atitude proposta que resulta do simpósio sobre a educação e a escola, para Pedro Valinho Gomes, é o desafio de “habitar o limiar”, que se situa “entre promessa e cumprimento, entre regresso às fontes e atualização, entre tradição e inovação”.
“Nesta crise das palavras e das ações capazes de dizer um mundo que vemos chegar a grande velocidade, a educação cristã torna-se necessária (quero mesmo dizer «socialmente necessária»), não por ter já todas as respostas prontas, mas por se apresentar como uma prática de nomear o presente à luz de uma tradição de esperança e de sentido”, afirmou.
Pedro Valinho Gomes lembrou que “a atenção e a paciência que um tal uso das palavras exige são uma arte que a tradição cristã sabe ajudar a praticar”.
“Num mundo fortemente marcado pelo interesse utilitário e a resposta fácil imediata, em que a máquina responde antes de a pergunta ter tempo de nascer, comprometemo-nos a educar para o limiar: a ficar com as questões longas sem as apressar, a encorajar ao que ainda não foi feito, a ousar acreditar na potencialidade de cada pessoa humana”.
Após a apresentação dos compromissos fundamentais por Pedro Valinho Gomes, a sessão de encerramento do simpósio foi uma ocasião para valorizar a reflexão em torno da educação e da escola em Portugal e a necessária humanização, sublinhada por representantes do setor da Educação Cristã em Espanha, Cabo Verde e também da disciplica de Educação Moral e Religiosa Evangélica, em Portugal.
O diretor do Secretariado Nacional da Educação Cristã, Fernando Moita, e D. António Moiteiro, vogal da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé encerraram os trabalhos apontando para a “construção de sonhos” que está confiada a todos os educadores.