O pároco das Capelas e responsável diocesano pela Pastoral Universitária vê no crescimento de adultos e jovens que procuram o Batismo um sinal de mudança profunda: a passagem de um cristianismo recebido por tradição para uma fé assumida por convicção. E diz que os sacramentos não podem ser tratados como etapas sociais que se encerram depois de cumprida uma determinada obrigação familiar.

A França, historicamente marcada pelo cristianismo mas hoje profundamente secularizada, pode estar a revelar um novo caminho para a Igreja europeia. É essa uma das leituras que o padre Nuno Pacheco de Sousa faz da recente visita do Papa Leão XIV a terras gaulesas. Para o sacerdote o mais significativo não é simplesmente o regresso de algumas pessoas à prática religiosa, mas o aparecimento de uma geração que se aproxima da Igreja por escolha e convicção.
“Finalmente vamos poder, também claro está aqui nos Açores e na Igreja em Portugal, ter cada vez mais uma massa de gente adulta e também jovem que adere ao catolicismo, adere à Igreja, não porque sempre foi assim, não por uma questão sociológica ou familiar, não pelo costume, por cultura, mas sim por convicção perfeita”, afirma.
É neste fenómeno que o sacerdote encontra talvez o sinal mais interessante da atualidade da Igreja: o cristianismo pode estar a deixar de ser, para muitos, uma herança cultural para voltar a ser uma decisão pessoal.
“Não estamos a nível vivencial, mas talvez em busca de alguma coisa que nunca viveram, têm curiosidade. Exatamente em busca de sentidos, um sentido que não sabem dizer exatamente qual é”, explica, referindo-se sobretudo às novas gerações. E é precisamente por isso que considera que “a França pode e deve ser um sinal para todos nós europeus”.
A imagem que o padre Nuno Sousa recupera para interpretar este momento é a da “primavera da Igreja”, expressão associada ao pontificado de Bento XVI e que, na sua leitura, pode ganhar agora uma nova atualidade.
“Talvez seja aqui que o Papa Leão nos esteja a mostrar que, afinal, é um pontificado de continuidade com todos os antecessores”, afirma, considerando que houve um trabalho prévio de “plantar” e “semear uma nova primavera” na Igreja.
O sacerdote associa esta renovação também ao caminho iniciado por Francisco, particularmente à atenção dada às periferias. A Igreja, diz, foi chamada a descobrir realidades que florescem fora dos centros tradicionais do catolicismo. Agora, a experiência francesa pode mostrar outra dimensão dessa transformação: uma Igreja que cresce não necessariamente onde o cristianismo continua a ser uma referência cultural dominante, mas precisamente onde essa referência deixou de ser automática.
O Batismo de adultos assume, neste contexto, um significado particular. Para o padre Nuno Sousa, estas pessoas chegam à Igreja carregando perguntas que ultrapassam a dimensão estritamente religiosa.

Recorrendo ao pensamento do filósofo sul coreano Byung-Chul Han, descreve uma sociedade em que o indivíduo se sente cada vez mais pressionado pela produtividade e pela necessidade de encontrar uma resposta para aquilo que é para além das suas funções.
“Num batismo de adultos, num batismo de gente mais velha, que vai por convicção, não se está preocupado em agradar ninguém. Não se está preocupado em encontrar padrinhos ou madrinhas. Não se está preocupado em ser só uma questão social”, afirma. O que está em causa é “encontrar-se a si própria e encontrar respostas diretamente” a um vazio. Esse vazio torna-se particularmente evidente quando terminam as tarefas e as exigências quotidianas.
“Quando a porta se fecha, quando os ecrãs se apagam”, diz, permanecem perguntas fundamentais sobre a identidade, o sentido e o valor da própria existência.
É aí que, na sua perspetiva, se encontra uma das razões para a procura religiosa contemporânea: “Há esta falta de resposta e […] com esta conversão, com esta busca, está no fundo uma sede de transcendência, de verdade, de um sentido”.
Esta mudança obriga também a repensar a relação entre Igreja e sociedade. Para o padre Nuno Sousa, uma sociedade secular não deve ser confundida com uma sociedade contra a religião.
“O Estado não é confessional, mas também não pode ser contra qualquer religião”, afirma, defendendo uma sociedade aberta aos contributos das diferentes tradições religiosas. A Igreja, diz, deve aceitar que já não é maioritária e abandonar uma postura centrada na defesa das suas próprias tradições.
Neste ponto, a secularização pode acabar por ser uma oportunidade. Ao deixar de poder contar simplesmente com uma cultura cristã dominante, a Igreja é obrigada a perguntar o que permanece essencial na sua mensagem.
“A fé, como o Papa Francisco dizia e muito bem desde o início, não é sempre assim, não foi sempre assim, não pode ser só tradições”, recorda.
Para o sacerdote, este rompimento com o “catolicismo tradicional ou cultural” não deve ser necessariamente visto como uma perda. Pode ser “uma tremenda oportunidade e liberdade para todos os nossos católicos” para fazerem a diferença nas suas vidas e na sociedade.
Mas a renovação não se esgota no momento em que alguém pede o Batismo. O padre Nuno Sousa chama a atenção para o risco de os sacramentos serem tratados como etapas sociais que se encerram depois de cumprida uma determinada obrigação familiar.
A preparação para a Confirmação levou-o recentemente a refletir sobre pessoas que parecem encarar os sacramentos como o encerramento de um capítulo ou até como uma apresentação pública.
“Muitas vezes faltando […] a convicção”, observa, quando o percurso religioso acontece sobretudo porque “o avô, o pai ou a mãe assim obrigaram”.
Por isso, estabelece um critério decisivo: “Se a consequência do Batismo ou de qualquer sacramento não for trazer uma esperança à vida de cada um, a esperança da ressurreição de Jesus à sua vida e à vida da Igreja, eu acho que nós estamos a falhar os sacramentos e a preparação”.
A consequência do Batismo, acrescenta, deve ultrapassar as portas dos templos.
“Precisamos ser chamados pelo Batismo a sermos santos, a trazer esta esperança no dia a dia, porque a santidade vive-se bastante fora da porta da Igreja.”
Se o cristianismo está a entrar numa nova fase, também a própria Igreja terá de mudar. O padre Nuno Sousa imagina uma Igreja “muito mais liberta dos seus protagonismos eclesiásticos”, “muito mais sinodal”, aberta ao diálogo e à escuta.
Isso implica, na sua perspetiva, ultrapassar formalismos e clericalismos, de padres e leigos, mas também a tendência para transformar determinadas estruturas paroquiais em realidades demasiado pesadas.
O desafio é passar de uma pastoral centrada na manutenção para uma pastoral capaz de gerar algo novo.
“Que o nosso cansaço pastoral não seja o de manter, o de puxar, o de tentar […] manter algum espírito do povo e espírito folclore”, afirma, defendendo que o esforço pastoral deve ser antes “a força criadora de toda uma nova geração de católicos”.
A renovação que imagina não passa, contudo, por uma Igreja uniforme. O sacerdote reconhece que a Igreja pode tornar-se também espaço de polarização ideológica e de diferentes sensibilidades, incluindo movimentos mais conservadores, tradicionais ou carismáticos.
A sua resposta é procurar uma Igreja capaz de acolher essa diversidade sem transformar as diferenças em divisões.
“Há um lugar para toda a gente”, afirma, defendendo que é necessário aceitar “esta multiplicidade, formas e dispersões que o Espírito está a suscitar”, sem deixar que nenhuma das sensibilidades seja simplesmente colocada de lado.
Mais do que escolher entre campos, considera que a Igreja deve criar condições para o encontro: “A nossa preocupação, talvez, devesse ser exatamente encontrar esta gente, fazer com ela caminho, fazer com esta gente os encontros”, evitando “feridas maiores, cisões maiores de extremismos na Igreja”.
Que Igreja pode nascer?
É, no fundo, a grande questão que atravessa a leitura do padre Nuno Pacheco de Sousa sobre a experiência francesa. Uma Igreja que já não pode depender simplesmente de uma sociedade cristã para transmitir a fé terá de encontrar novas formas de anunciar Cristo, acompanhar quem procura e criar comunidades onde essa procura possa amadurecer.
A França surge, assim, não apenas como cenário de uma visita papal, mas como possível laboratório de uma transformação mais profunda: uma sociedade em que o cristianismo deixou de ser culturalmente dominante e onde, precisamente por isso, algumas pessoas podem estar a descobri-lo pela primeira vez como uma escolha.
O padre Nuno Sousa vê aí uma possibilidade de renovação que ultrapassa as fronteiras francesas. A questão não será recuperar simplesmente aquilo que existiu, mas perceber o que pode nascer quando a fé deixa de ser apenas uma tradição recebida e passa a ser uma decisão assumida.
“A França pode e deve ser um sinal para todos nós europeus”, concluiu.
A entrevista integral, interpretada na primeira pessoa pelo padre Nuno Pacheco de Sousa, pode ser ouvida no próximo domingo, depois do meio-dia, no programa Igreja Açores, na Antena 1 Açores e no Rádio Clube de Angra. A entrevista ficará também disponível em podcast em www.diocesedeangra.pt