
“Pela autoridade recebida de Cristo, com espírito dorido, mas ainda cheio de esperança, sinto o dever de vos pedir que desistais do vosso intento”, apelou o Papa, numa carta divulgada hoje e endereçada ao superior-geral da FSSPX, padre Davide Pagliarani.
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X, fundada por D. Marcel Lefèbvre (1905-1991), anunciou as ordenações de quatro novos bispos, em Écône (Suíça), na manhã de 1 de julho.
“Após ter amadurecido, por longo tempo, suas reflexões na oração e depois de ter recebido da Santa Sé, nos últimos dias, uma carta que não responde de modo algum às nossas solicitações, o padre Pagliarani, apoiado no parecer unânime do seu Conselho, considera que o estado objetivo de grave necessidade em que se encontram as almas exige tal decisão”, pode ler-se num comunicado.
Leão XIV manifestou o seu profundo pesar perante a intenção de ordenar bispos sem mandato pontifício, sublinhando que “rasgar a Túnica sem costuras de Cristo é um pecado de extrema gravidade”.
“Que o Senhor ilumine as vossas consciências e desperte os vossos corações”, referiu.
“Com este espírito, e cheio de afeto cristão, rogo-vos e peço-vos com todo o coração: voltai atrás! Exorto-vos a considerar atentamente o bem espiritual dos fiéis, porque o ato cismático que praticaríeis privá-los-ia da receção lícita e, em alguns casos, até válida dos Sacramentos que eles amam e buscam para a sua santificação.”
Leão XIV recordou a atitude de “atenção e benevolência” demonstrada pelos seus predecessores, relativamente à FSSPX.
“A Igreja reconhece o apego à vida litúrgica, o empenho na formação sacerdotal, o zelo apostólico e o desejo de fidelidade à Tradição que caracterizam muitas pessoas e comunidades ligadas a essa Fraternidade”, escreveu.
Em fevereiro, o Vaticano tinha anunciado estar em diálogo com a Fraternidade, após esta ter anunciado as ordenações episcopais.
Leão XIV insiste, agora, que “a Igreja está disponível para um caminho de diálogo e de entendimento que o Espírito Santo pode tornar possível e fecundo”.
A 24 de julho, a FSSPX divulgou uma carta aberta ao Papa Leão XIV e ao Colégio de Cardeais e uma declaração de fé, desejando que “possa servir de base para uma discussão franca com a Santa Sé, numa atmosfera tranquila, fraterna e caridosa”.
A 13 de maio, o prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé alertou a Fraternidade Sacerdotal São Pio X para o risco de “cisma”, caso persistam nas anunciadas ordenações episcopais sem mandato do Papa
“Reitera-se o que já foi comunicado. As ordenações episcopais anunciadas pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X não têm o correspondente mandato pontifício. Este gesto constituirá ‘um ato cismático’ (João Paulo II, Ecclesia Dei, n.º 3) e ‘a adesão formal ao cisma constitui uma grave ofensa a Deus e implica a excomunhão prevista pelo direito da Igreja’”, advertiu o cardeal Víctor Manuel Fernández.
Em junho de 2012, a Santa Sé revelou que tinha proposto a criação de uma prelatura pessoal para a Fraternidade Sacerdotal, que esta viria a recusar.
Entre as questões que separam as duas partes destacam-se a aceitação do Concílio Vaticano II (1962-1965) e do magistério pós-conciliar dos Papas em matérias como as celebrações litúrgicas, o ecumenismo ou a liberdade religiosa.
A 19 de janeiro de 2019, o Papa Francisco suprimiu a Comissão Pontifícia ‘Ecclesia Dei’, estabelecida em 2 de julho de 1988 com o objetivo de “facilitar a plena comunhão eclesial” dos sacerdotes, seminaristas, comunidades ou de cada religioso ou religiosa ligados à Fraternidade São Pio X.
As funções da Comissão estão confiadas atualmente ao Dicastério para a Doutrina de Fé.
(Com Ecclesia)