Papa diz que sinodalidade é mais do que debate sobre “poder de decidir”

Discurso de encerramento do segundo consistório extraordinário do pontificado sublinha importância de encontros com o Colégio Cardinalício

Foto: Vatican News

O Papa encerrou hoje o segundo consistório extraordinário do seu pontificado com um alerta sobre a sinodalidade, afastando o debate das disputas sobre a autoridade na Igreja.

“Parece-me que a questão da sinodalidade não é antes de mais quem tem o poder de decidir”, disse, no discurso conclusivo que proferiu perante cardeais dos cinco continentes.

Leão XIV sustentou que a questão é “mais profunda”.

“Como guardamos juntos o dom que o Senhor confiou à sua Igreja? Quando esta pergunta se torna o centro do nosso discernimento, também as questões da autoridade, da corresponsabilidade e das decisões encontram o seu lugar justo, iluminadas pela missão e pela fidelidade comum ao Evangelho”, desenvolveu.

O percurso global de receção da XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos, que mobilizou as comunidades católicas entre 2021 e 2024, vai culminar numa inédita Assembleia Eclesial agendada para outubro de 2028, no Vaticano.

O pontífice pediu aos cardeais que acompanhem as dioceses no acolhimento deste percurso.

A intervenção assumiu que a dinâmica sinodal é mais do que um método burocrático de trabalho, sublinhando que esta realidade “nasce do encontro, cresce na escuta e amadurece no discernimento”.

“Quando nos escutamos com humildade e liberdade, dando espaço ao Espírito, as nossas conversações não ficam por um mero intercâmbio de ideias, mas tornam-se um lugar de conversão, no qual crescemos juntos na fidelidade ao Senhor.”

O Papa vincou que o objetivo passa por ajudar as comunidades a interiorizarem um “estilo espiritual” autêntico.

“A verdadeira questão não é quantas conversações saberemos organizar, mas que qualidade evangélica terão os nossos encontros”, precisou Leão XIV.

Assumindo a intenção de manter um ritmo anual nos consistórios (reuniões de cardeais), Leão XIV assumiu que as duas experiências realizadas ajudaram a “redescobrir o significado mais autêntico” destes encontros, promovidos para que “na escuta recíproca e no discernimento comum, o Espírito Santo ajude o Papa a guiar a Igreja”.

“Não um Parlamento, não um congresso em que prevaleçam opiniões ou interesses, mas uma experiência de comunhão ao serviço da missão”, sustentou.

A reflexão conclusiva, com cerca de 20 minutos, advertiu que, num mundo marcado pela polarização extrema, a própria forma como a Igreja “escuta e dialoga faz parte do seu anúncio”.

O Papa evocou ainda a realização, no próximo mês de outubro, de um encontro com famílias e presidentes das conferências episcopais de todo o mundo, para avaliar a implementação da exortação ‘Amoris Laetitia’, publicada por Francisco em 2016.

“A grandeza da escuta reside na sua pequenez, na humildade do diálogo”- Cardeal Grech

Foto: Vatican News

O secretário-geral do Sínodo dos Bispos defendeu hoje que a Igreja Católica deve contrapor a escuta humilde à prepotência de um contexto geopolítico habituado à guerra.

“A grandeza da escuta reside na sua pequenez. Na humildade do diálogo, que se confronta com uma geopolítica habituada, quase resignada, à guerra e à prepotência económica”, sustentou o cardeal Mario Grech, na abertura da quarta sessão do consistório extraordinário, que decorre no Vaticano.

O colaborador do Papa apontou ao processo sinodal como mais do que uma “simples aplicação de decisões já tomadas”.

Numa intervenção divulgada pelo portal de notícias do Vaticano, D. Mario Grech assinalou que a metodologia adotada permitiu percorrer caminhos difíceis, impulsionados pela vontade universal de “caminhar juntos, valorizando os dons e a responsabilidade de todos”.

O cardeal maltês distinguiu um debate temático genérico de uma autêntica “conversação no Espírito”, garantindo que esta última dimensão garante o verdadeiro envolvimento das comunidades católicas.

O itinerário delineado pela Secretaria-Geral visa preparar a inédita assembleia eclesial agendada para outubro de 2028, promovendo um intercâmbio de dons que fortifique o “sentido de pertença ao único povo de Deus”.

O secretário-geral admitiu que a resposta no terreno não será uniforme, alertando que a receção global exige tradução de acordo com tempos próprios “nas culturas, nas instituições, nas práticas pastorais, nas relações eclesiais”.

A reflexão elencou quatro etapas metodológicas, instando as estruturas locais a “fazer memória” do que já emergiu, seguindo-se um esforço para “interpretar”, “orientar” e, por fim, “celebrar” a unidade do percurso.

O responsável da Cúria Romana concluiu a comunicação apelando diretamente à colaboração do Colégio Cardinalício para esta nova fase, vincando que a instituição partilha a “responsabilidade de custodiar a comunhão eclesial e de sustentar a missão”.

A agenda dos trabalhos de sábado prevê a realização de um debate direto com o Papa destinado a planear o “caminho de implementação do Sínodo”, sucedendo-se um jantar no Auditório Paulo VI.

Os cardeais voltam a reunir-se com o Papa Leão XIV na manhã de segunda-feira, no decorrer da Missa da solenidade de São Pedro e São Paulo, na Basílica do Vaticano.

O programa oficial encerra-se na segunda-feira, com a Missa da solenidade de São Pedro e São Paulo.

Leão XIV decidiu convocar os cardeais, pela primeira vez, em janeiro deste ano, num encontro destinado a estabelecer prioridades para a Igreja Católica.

O Colégio Cardinalício tem 241 cardeais oriundos de 92 países dos cinco continentes, incluindo Portugal, entre os quais 117 eleitores.

(Com Ecclesia)

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