Pelo padre José Júlio Rocha

2026 já disse ao que veio. Preparemo-nos, portanto, para o mais indecifrável de todos os futuros, o mais imprevisível de todos os anos novos de que me recordo. O amanhã de 2026 abre um leque quase infinito de possibilidades, quase todas elas sombrias, de uma sombra fria e pesada, daquelas que adivinham medo, como nos filmes de terror de antigamente.
2026 começou com o mundo escavacado e partido em duas metades e esta é quase a única certeza que eu tenho a respeito deste ano: medo, divisão e mentira em abundância. O ataque dos EUA à Venezuela e a prisão de Maduro fizeram disparar as opiniões que, agora, com as redes sociais, fazem de qualquer marialva um comentador público. O terceiro calhau a partir do Sol agitou-se. Uns consideraram o ato como um gesto heroico de Trump que, finalmente, libertou o povo venezuelano das mãos do ditador. Outros consideram-no um crime contra o Direito Internacional.
Pessoalmente considero o chavismo um erro histórico e Maduro um ditador histriónico, populista e mentiroso ao ponto de me fazer lembrar, pelas espantosas semelhanças de personalidade, apenas outro líder histriónico, populista e mentiroso: Donald Trump. Trump não suporta outro igual a si. Odiá-lo-á com o mesmo ardor com que está apaixonado por si mesmo. Mas ainda bem que Maduro desapareceu da cena política e Deus queira que nunca mais a ela torne. Ele e Chávez, com as suas políticas extremistas, são os grandes responsáveis pelo estado a que o seu país chegou.
No entanto, até o meu gato, o Júlio III, já percebeu que os interesses americanos na Venezuela nada tinham a ver com a libertação do povo das garras do tirano: há outros, bem mais tiranos, bem mais execráveis para com o seu povo do que o ex-líder venezuelano a que Trump, por medo ou desinteresse, não olha. Nem tinham nada a ver com o volume de droga que vem da Venezuela para os Estados Unidos, outra razão mentirosa para atacar o país. É que o presidente das Honduras, reconhecido traficante para os EUA, foi perdoado por Trump. Por uma única razão: bajulou-o. Depois do ataque, Trump vomitou que 99% do tráfico de droga para os EUA acabou, quando a gente sabe que mais de 70% da droga vem da Colômbia, pela via do Pacífico, que não banha a Venezuela. Enfim, mentiras para encobrir uma única verdade: Trump atacou a Venezuela só e apenas para lhe roubar 50 milhões de barris de petróleo. Para nos entendermos, o país mais rico do mundo vai roubar 50 milhões de barris de petróleo a um país em que a população passa fome em parte por causa do estrangulamento económico que lhe impôs: chama-se a isto libertação.
Nada de novo na frente do mundo. A mentira vai prosperando audaciosamente, a tal ponto de se prever que 2026 vai ser o ano global da mentira. Mentira atrai mentira, na razão direta das mentiras e na razão inversa ao quadrado da indiferença com que o mundo vê a mentira destruir o mundo. O próximo tirano a ser destronado é o rei da Dinamarca, um país terrorista e ditador, que tem ameaçado os EUA a partir das suas forças escondidas na Gronelândia. Trump já afirmou categoricamente, sem ser contrariado, que a Gronelândia está cercada de navios e submarinos russos e chineses, em mais uma das suas portentosas mentiras que lhe saem da boca com uma desfaçatez exemplar. A mentira foi lançada; o medo está agora a carburar; o próximo passo é os cidadãos americanos exigiram a tomada da Gronelândia, porque, se assim não for, os EUA desaparecerão.
A Trump só interessam os amigos, ou melhor, quem o bajula. Bajula-o Putin, que afirmou categoricamente que, se Trump estivesse no poder, a guerra nunca teria começado na Ucrânia; bajula-o Cristiano Ronaldo, que lhe foi mostrar os seus préstimos, numa jogada de génio, sabendo que Trump está, nos EUA, acima da lei, e que, portanto, não terá problemas com a justiça por causa daquela rapariga de Las Vegas, quando for jogar lá o mundial; bajula-o a FIFA que, não querendo chatices trumpistas no Mundial, inventou o “Prémio FIFA da Paz”, provavelmente só com um troféu, o de Trump, com o intuito de o bajular de cima abaixo, e de o curar da eterna ferida de não ter recebido o merecidíssimo Prémio Nobel, ele que já bombardeou sete países e diz ter acabado com sete guerras que, ou não existiam ou continuam a existir; bajula-o Milei que, por motivo da bajulação, recebe muitos milhões para apaziguar a dívida externa da Argentina; bajula-o a NATO, que trepida como varas verdes a cada berro de Trump; bajula-o a União Europeia, estrangulada e sem identidade porque é um saco de gatos, e curva-se à generosidade do presidente americano, que exigiu os tais 5% do PIB para a guerra e que esse 5% sejam gastos nos EUA e a Europa agradece; bajula-o toda a sua trupe, todo o seu staff, toda a sua administração, a ponto de, agora, se defender e se acreditar no puramente absurdo: o Donald Trump que aparece nos ficheiros Epstein não é o Donald Trump presidente, mesmo que ele apareça nas fotos: é outro; bajula-o o MAGA, bajulam-no os multimilionários, bajulam-no as empresas petrolíferas, bajula-o o KKK, o ICE, a FOX News; de tal forma que Donald Trump ainda não está acordado, e já está todo bajulado. Liso, lustroso, brunido, brilhante, reluzente, julga-se um diamante, um Adónis, um deus por quem as balas passam sem furar a orelha: ele concentra em si tudo quanto o homem quer. Já tivemos exemplos desses. Deram todos em hecatombe.
O ano global da mentira está aí. Gozemo-lo.
*Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular, na coluna Dorsal Atlântica.