287 romeiros reunidos no Nordeste refletiram sobre a identidade cristã a partir do batismo

“Queremos ranchos que não ressuscitem na Quaresma e depois morram na Páscoa”- Rui Melo, presidente da Comissão Administrativa do Movimento de Romeiros de São Miguel

Foto: Clife Botelho/Diário da Lagoa

O Centro Municipal de Atividades Culturais do Nordeste acolheu, na manhã deste domingo, o retiro espiritual dos Romeiros de São Miguel, reunindo 287 romeiros, num momento de preparação, reflexão e renovação espiritual para a próxima romaria quaresmal em São Miguel, centrados no Batismo, um sacramento que exige compromisso e um caminho permanente de conversão.

O presidente da Comissão Administrativa do Movimento Romeiros de São Miguel, Rui Melo, sublinhou que o principal objetivo do encontro é a preparação espiritual dos ranchos que, em breve, irão para a estrada, de forma a que deixe de existir, de uma vez por todas, “ranchos que ressuscitam na Quaresma e depois morrem a seguir à Páscoa”.

“Queremos deixar bem claro que a romaria não se cinge apenas à Quaresma. Queremos colaboradores da Igreja, não profissionais da Igreja”, afirmou, reforçando que o espírito da romaria deve prolongar-se na vida quotidiana.

Segundo Rui Melo, o romeiro é alguém que caminha sem saber exatamente porquê, carregando dores, fragilidades e esperanças, num percurso onde todos, como pecadores, procuram a conversão.

A preparação das romarias passou também pela valorização da oração e da responsabilidade de rezar pelas intenções confiadas aos romeiros. Rui Melo pediu “seriedade e responsabilidade nas rezas pedidas e rezadas” por intenção de terceiros, tendo desafiado o bispo de Angra a integrar uma romaria.

A manhã de domingo começou com palavras de boas vindas, em que o Ouvidor do Nordeste destacou a responsabilidade dos pais na formação cristã e lembrou que caminhar nos caminhos da ilha convida à contemplação da criação.

“Ser romeiro é ter um olhar contemplativo sobre a beleza que Deus nos deu, sem custar um cêntimo. A romaria não é apenas rezar terços e cuidar de devoções particulares”, frisou.

Em nome da comunidade anfitriã- os romeiros do Nordeste- David Feijó deu as boas-vindas aos participantes e agradeceu a todas as instituições que acolhem os romeiros durante as pernoitas no período da Quaresma.

“Quem acolhe, dá o que tem”, afirmou, lembrando que no Nordeste todos os irmãos romeiros vivem um verdadeiro testemunho de comunhão, irmandade, partilha e fé.

A tradição secular das romarias foi evocada por António Miguel Soares, presidente do Município,  ele próprio romeiro,  e aprofundada pelo romeiro Norberto Leite, que fez uma viagem pela história do movimento. Recordou os períodos de maior fragilidade, como a proibição das romarias após a implantação da República, a gripe espanhola e a retoma dos percursos na década de 30. Destacou ainda a reorganização do movimento à luz do Concílio Vaticano II e a criação do Grupo Coordenador Diocesano nos anos 80.

“A romaria quaresmal tem de traduzir-se na romaria que é a vida, a grande peregrinação da vida”, afirmou.

Na reflexão espiritual, o Padre Jorge Sousa alertou para o risco de os sacramentos passarem ao lado da vida concreta das pessoas.

“No Batismo entramos numa vida nova, passamos a pertencer a Cristo e deixamos de caminhar sozinhos. Se reconhecêssemos o Cristo que há em nós e no outro, o mundo seria diferente”, sublinhou, lembrando que pelo Batismo somos povo de Deus, irmãos e filhos de Deus.

Também Carmo Rodeia, diretora de comunicação da diocese refletiu sobre a “Amizade social e a fraternidade universal como um projeto de Deus”, sublinhando que a romaria além de escola de fraternidade é também uma escola de sinodalidade em que todos caminham juntos, cientes da responsabilidade que cada um tem no rancho.

“A amizade social e a fraternidade universal são a expressão adulta do nosso batismo” disse ainda.

O retiro terminou com a intervenção do Bispo de Angra, que agradeceu a oportunidade de também ele fazer retiro e reforçou a importância da preparação espiritual e do cumprimento do regulamento das romarias, sempre guiados pelo Espírito Santo.

“Nunca vivam os sacramentos como um prémio. Um romeiro é uma luz, mas tem de ser exemplo”, afirmou, deixando uma forte provocação aos presentes para refletir sobre o que cada um é como cristão.

Esta preparação para a Quaresma começou com a eucaristia na Igreja Matriz do Nordeste e depois uma caminhada em rancho único desde a Igreja até ao centro Municipal de Atividades Culturais.

As Romarias Quaresmais são uma das expressões mais características da piedade popular em São Miguel, que se realizam todos os anos durante o período das semanas da Quaresma, tempo de preparação para a Páscoa.

Cada grupo de romeiros – o romeiro com um xaile, lenço, bordão e terço – percorre a ilha de São Miguel durante uma semana, visita o maior número de igrejas e ermidas dedicadas a Nossa Senhora, além de outros templos sob outras invocações, sempre com mar pela esquerda, cantando e rezando em todo o percurso, e dormem em casas particulares ou em salões paroquiais.

Ao todo visitam cerca de 100 lugares de culto, distribuídos pelas 64 freguesias/ 65 paróquias de São Miguel.

Como o povoamento da ilha é predominantemente litoral, o itinerário da Romaria apresenta caraterísticas circulares, fazendo-se no sentido dos ponteiros do relógio. A saída de cada rancho ocorre antes do amanhecer, e a entrada nas localidades para as pernoitas, acontece logo a seguir ao pôr-do-sol.

Os Romeiros possuem uma estrutura interna própria, com uma hierarquia e cargos específicos: o Mestre, o Contramestre, o Procurador das Almas, o Procurador das Almas, dois Guias, e dois ou mais Ajudantes, entre estes um Despenseiro. O Mestre e o Contramestre são nomeados pelo pároco da localidade, quanto aos restantes cargos são nomeadas pelo Mestre.

As tradicionais romarias da Quaresma tiveram origem na sequência de terramotos e erupções vulcânicas ocorridas no século XVI na ilha de São Miguel.

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