No primeiro ângelus do novo ano, Leão XIV afirmou que o calendário só faz sentido com o “desejo de bem” e evocou a dignidade de cada vida nascente

O Papa apelou hoje à inauguração de uma “era de paz” entre os povos, no primeiro ângelus de 2026, alertando para os conflitos à escala global e na intimidade doméstica.
“Rezemos todos juntos pela paz. Antes de tudo, pela paz entre as nações ensanguentadas por conflitos e miséria, mas também pela paz nos nossos lares, nas famílias feridas pela violência e pela dor”, declarou Leão XIV, desde a janela do apartamento pontifício, no 59.º Dia Mundial da Paz.
Perante milhares de pessoas reunidas na Praça de São Pedro, o pontífice sublinhou que a passagem de ano exige um compromisso efetivo com o bem comum.
“À medida que o ritmo dos meses se repete, o Senhor convida-nos a renovar o nosso tempo, inaugurando por fim uma era de paz e amizade entre todos os povos. Sem este desejo de bem, não faria sentido virar as páginas do calendário nem preencher as nossas agendas”, disse.
Começando por desejar a todos um “bom ano”, após a Missa a que presidiu na Basílica de São Pedro, o Papa sublinhou que o Jubileu da Esperança, que se encerra a 6 de janeiro, deixa como legado a necessidade de “converter o coração”, transformando “os erros em perdão” e a “dor em consolação”.
A reflexão evocou o dogma da maternidade divina de Maria (Theótokos), definido no Concílio de Éfeso, em 431, que o calendário litúrgico assinala hoje, com Leão XIV a defender a sacralidade da vida humana, desde a conceção.
“O Salvador vem ao mundo nascendo de uma mulher: paremos para adorar este acontecimento, que resplandece em Maria Santíssima e se reflete em cada nascituro, revelando a imagem divina impressa no nosso corpo”, sustentou.
O Santo Padre recordou que o “coração de Jesus” bate por toda a humanidade, incluindo aqueles que o rejeitam ou que “não têm coração para o próximo”, esperando que estes “mudem de vida e encontrem paz”.
O Dia Mundial da Paz, instituído em 1968 pelo Papa Paulo VI (1897-1978), é celebrado pela Igreja Católica no primeiro dia do novo ano.
Após a oração, Leão XIV deixou votos de “paz e todo o bem” aos peregrinos presentes, recordando a mensagem que escreveu para esta jornada, com o tema ‘Que a paz esteja com todos vós. Uma paz desarmada e desarmante’.
“Caríssimos, com a graça de Cristo, comecemos hoje a construir um ano de paz, desarmando os nossos corações e abstendo-nos de toda a violência”, apelou.
O Papa agradeceu as “inúmeras iniciativas” promovidas por ocasião do Dia Mundial da Paz e, no início deste ano em que se assinala o oitavo centenário da morte de São Francisco, concedeu a bênção do Santo de Assis: “Que o Senhor vos abençoe e vos guarde, vos mostre o seu rosto e tenha misericórdia de vós”.
“Que a Santa Mãe de Deus nos guie no caminho do novo ano. Felicidades para todos”, concluiu.

Já antes, na primeira missa de 2026, Leão XIV pediu um ano vivido como “caminho aberto” de liberdade.
“O mundo não se salva afiando espadas, julgando, oprimindo ou eliminando os irmãos, mas sim esforçando-se incansavelmente por compreender, perdoar, libertar e acolher todos, sem cálculos nem medos”, disse Leão XIV, na homilia da Missa da solenidade litúrgica de Santa Maria, Mãe de Deus, com a participação de milhares de pessoas, no Vaticano, e transmissão online.
Por ocasião do 59.º Dia Mundial da Paz, o Papa apresentou o rosto de Deus como “total gratuidade”, evocando a figura do Menino Jesus “desarmado e desarmante, nu e indefeso, como um recém-nascido no berço”.
Leão XIV contrapôs a lógica do poder divino à do domínio humano, citando Santo Agostinho para lembrar que Deus se fez homem para libertar a humanidade, com uma reflexão sobre o dogma da maternidade divina de Maria (Theótokos), definido no Concílio de Éfeso, em 431.
“Na maternidade divina de Maria, observamos o encontro de duas realidades imensas e desarmadas: a de Deus, que renuncia a todos os privilégios da sua divindade”, e a da pessoa que, com “confiança, abraça totalmente a sua vontade”, explicou.
O Papa desejou que o ano de 2026 seja encarado como um “caminho aberto” e de “renascimento”, estabelecendo um paralelo com o povo de Israel que, ao sair do Egito, trocou a segurança da escravidão pela incerteza da liberdade.
“Muitas das certezas do passado tinham-se perdido, mas em troca havia a liberdade, que se concretizava num caminho aberto para o futuro”, sustentou, convidando os católicos a viverem os próximos meses “sem grilhões nem correntes”.
“É bonito pensar deste modo o ano que começa: como um caminho aberto, a descobrir, no qual por graça nos podemos aventurar, livres e portadores de liberdade, perdoados e doadores de perdão, confiantes na proximidade e na bondade do Senhor que sempre nos acompanha”, disse.
A poucos dias da conclusão do Jubileu da Esperança, Leão XIV evocou o legado de São João Paulo II no final do Grande Jubileu do ano 2000, desafiando a Igreja a uma “corajosa disponibilidade” para anunciar o Evangelho.
“Abeiremo-nos com fé do Presépio, qual lugar por excelência da paz desarmada e desarmante, lugar de bênção, no qual podemos recordar os prodígios que o Senhor realizou”, apelou.
A celebração marcou o início do novo ano civil e teve como tema “A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmante e libertadora”, com o Papa a pedir que os crentes se tornem, uns para os outros, “espelho da bondade” de Deus.
Cumprindo a tradição, um grupo de crianças participou na celebração, vestidos de Reis Magos, em representação dos ‘sternsinger’ (cantores da estrela) que na Alemanha, Áustria e Suíça passam pelas casas para anunciar o nascimento do Senhor e recolher ofertas para as crianças necessitadas.
Como habitualmente, no ciclo de celebrações do tempo litúrgico do Natal a que o Papa preside no Vaticano, a Missa concluiu-se ao som do hino ‘Adeste Fideles’, cuja autoria tem sido atribuída ao rei D. João IV (1604-1656).
(Com Ecclesia e Vatican News)