Oração e acolhimento são duas marcas desta comunidade contemplativa composta por três religiosas da América Latina que estão no santuário do Senhor Santo Cristo em missão há quatro anos

Em janeiro de 2022 a diocese de Angra anunciava a chegada de três irmãs sul americanas do ramo contemplativo da Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor, para servirem no santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres em Ponta Delgada, depois da saída das religiosas de Maria Imaculada.
Jaqueline Mendes, brasileira, Juana Salvatierra, peruana e Magdalena Pico do Equador, vieram discretas, com a missão de rezar, escutar e acompanhar, e hoje são parte integrante da vida espiritual do Convento da Esperança e de milhares de peregrinos que ali encontram refúgio e esperança. A missão, segundo a superiora, irmã Jaqueline Mendes, é clara: “Somos peregrinas da esperança. E aqui encontramos todos os elementos essenciais da nossa vocação: oração, silêncio, vida litúrgica, acompanhamento e ecologia espiritual.”
Do ponto de vista da irmã Jaqueline, a superiora da comunidade, os quatro anos mostram que a espiritualidade no Santuário permanece profundamente ativa.
“As pessoas continuam a procurar-nos, continuam a pedir oração. Ligam, escrevem, deixam pedidos. Chegam famílias inteiras – desde a gestante à criança já nascida – todos vêm depositar aqui a sua vida. É uma fé muito bonita, muito enraizada nesta terra”, diz.
A comunidade tornou-se ponto de apoio para devotos diários e para grupos que, ao longo do ano, passam pelo convento. A superiora reconhece: “Aqui, o Senhor Santo Cristo é visto como a chave do segredo, o lugar onde as pessoas entregam tudo.”
Chegadas com o propósito de “aprender”, as irmãs garantem que hoje falam “a mesma língua”, não apenas espiritual mas também cultural e a adaptação tem sido “gradual”.
“O sotaque ainda não,” sorri a irmã Jaqueline, “mas a língua espiritual sim. Sentimo-nos mais em família, mais em casa. Conhecemos histórias, pessoas, vidas.”
Ainda que contemplativas, não são irmãs de clausura e isso cria grande proximidade.
“As pessoas tocam-nos, olham-nos nos olhos, abrem o coração. Temos acompanhamento espiritual, momentos de oração em comum, adoração diária e transmissão online que muitos seguem. Estamos interligados.”
O ano jubilar de 2025 trouxe um brilho especial : mais participação, mais grupos, mais momentos fortes de oração. Entre eles, o encontro histórico que reuniu todas as congregações religiosas da ilha, incluindo as de clausura, no dia da vida consagrada.
“Foi muito bonito e muito significativo. Só daqui a 25 anos teremos algo semelhante.”
As irmãs do ramo apostólico da Congregação continuam próximas e celebram em conjunto jubileus, orações e momentos comunitários. Além delas, cresceu um grupo expressivo de leigos parceiros na missão contemplativa, cerca de 30 presencialmente e mais de 100 na vertente virtual internacional. Todos unidos pela oração ao Senhor Santo Cristo.
“É uma família que se alarga. A espiritualidade não fica apenas connosco. Os parceiros elevam os pedidos, criam uma rede de oração muito bonita” avança a religiosa.
Apesar das sementes lançadas, a irmã Jaqueline admite que há desafios: “Precisamos de novas vocações. Não somos tão jovens e esta missão é muito bela, mas precisa de continuidade.”
Outro obstáculo é a língua portuguesa, que dificulta a vinda de irmãs de outros países. Ainda assim, algumas missionárias já manifestaram interesse em viver a experiência.
“Mas precisam aprender ao menos um ‘bom dia’. Aqui trabalhamos diretamente com peregrinos; é indispensável comunicar” acrescenta.
A comunidade prepara um novo ciclo de oração: encontros semanais de Lectio Divina, que se iniciarão na primeira quinta-feira da Quaresma, na Quinta-feira de Cinzas, e segue até à Semana Santa.
“É uma inspiração divina”, afirma a superiora.
“Queremos abrir janelas, levar as pessoas à Palavra de Deus, para além da Via Sacra”, explica.

Nestes quatro anos, as irmãs já acompanharam dois reitores, mas garantem que a dinâmica se mantém firme: “A vida do Santuário está mais ativa e movimentada, mas a nossa missão é clara. A liberdade é total e o objetivo é comum: viver e alimentar a espiritualidade própria do Senhor Santo Cristo, em sintonia com a nossa congregação.”
Além disso, tornaram-se guardiãs da imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres, aprofundando o culto impulsionado pela madre Teresa da Anunciada.
O ramo ativo da Congregação das Irmãs do Bom Pastor já se encontrava presente na diocese, nomeadamente através do apoio a pessoas excluídas e vítimas de violência doméstica, com uma casa-abrigo em Ponta Delgada. Fundada no século XIX por Maria Eufrásia Pelletier, a congregação dedica-se à proteção e promoção de crianças, jovens e mulheres vulneráveis, contando atualmente com cerca de quatro mil membros e 500 associados em cinco continentes. É também uma organização não-governamental com estatuto consultivo especial no Conselho Económico e Social das Nações Unidas (ECOSOC), especialmente ativa no combate ao tráfico humano.
As Irmãs do Bom Pastor sucederam às religiosas de Maria Imaculada, que durante mais de 60 anos foram zeladoras da imagem do Santo Cristo no Convento da Esperança e que deixaram o espaço em maio de 2021.
A chegada das irmãs é celebrada foi celebrada esta segunda-feira com uma eucaristia, momentos de oração ao longo do dia e um almoço convívio.