Do Batismo de Jesus ao nosso

Por Carmo Rodeia

Foto: Igreja Açores/GM

No último domingo do Tempo de Natal celebrámos o Batismo do Senhor, como pudemos escutar na liturgia. A diocese de Angra fixou o mês de janeiro como a data favorável para a constituição de equipas que irão animar os Centros de Preparação para o Batismo (CPB), tema central deste ano pastoral e também do triénio que se viverá na Igreja destes nove pedaços de terra.

Mais do que uma formação estes CPB´s, que podem ser de ouvidoria, de zona pastoral ou até de paróquia, conforme aquilo que cada realidade local exigir ou aconselhar, como se lê na Carta Pastoral do senhor Bispo, Batizados na Esperança – “Propõe-se que, até ao fim deste ano pastoral de 2025/2026, em cada paróquia, ouvidoria ou zona pastoral, seja constituída uma Equipa do Centro de Preparação para o Batismo (CPB)”-  pretendem ser espaços de acompanhamento das famílias que pedem o sacramento do Batismo para os seus filhos, tal como cuidam do seu crescimento dando-lhes de comer, proporcionando-lhes condições de saúde ou de escolaridade, conscientes de que as crianças são seres humanos com direitos naturais. Numa perspetiva cristã, diria, que uma família que assim se defina, não poderá (ou não deverá, pelo menos!) negar a uma criança esse direito de ser envolvida pela graça e pelo amor de Deus, logo de tenra idade, sem ter de esperar pela idade adulta e pela vontade própria com o argumento de que a criança logo se batizará quando quiser e se quiser, porque o primado da liberdade assim o determina.

Estes Centros de Preparação para o Batismo, à semelhança dos do matrimónio, devem por isso, ter equipas formadas por leigos com responsabilidade pastoral na zona ou ouvidoria, cujo testemunho de vivência do Batismo seja importante para os outros, que sejam acompanhados por um assistente espiritual, sacerdote ou diácono e que, tal como indica também a Carta pastoral de D. Armando Esteves Domingues, possam  organizar o Catecumenato de acordo com o Ritual de Iniciação Cristã de Adultos (RICA), que prevê etapas bem definidas durante o processo de formação dos adultos que desejam receber os Sacramentos da Iniciação Cristã: Batismo, Eucaristia e Confirmação.

Sendo o Batismo o primeiro sacramento que nos inicia na vida cristã, o grande desafio que se coloca a estes Centros, que podendo parecer estruturas devem ser acima de tudo pessoas, de coração e mente aberta para acolher todos e a todos acompanharem nas suas dúvidas, inquietações e até contradições, é interpelar e tocar as famílias que pedem este sacramento sobre as  mudanças necessárias nas práticas religiosas para que todos os batizados tenham uma consciência das implicações do seu batismo, de tal maneira que sejam força transformadora da sociedade em que se inserem.

O Batismo é sobretudo uma passagem para uma vida nova. Como Jesus, todos nós batizados, e as famílias não podem ficar de fora,  somos convidados a viver uma vida nova, a participar ativa e criativamente num modo renovado de sermos Igreja.

Hoje já não vivemos num ambiente de cristandade, em que a cultura e a religião se contagiavam e a moral da Igreja, bem como as normas, determinavam a maneira de agir em sociedade. No entanto, acredito que pelo diálogo entre a fé e a cultura, as nossas cidades cada vez mais secularizadas e indiferentes ao fenómeno religioso ( por variadas razões que este espaço não permite esmiuçar e que até têm origem na própria Igreja que se demitiu do seu papel), que olham para a igreja (quando olham) apenas como um prestador de serviços, podem ganhar a esperança de um estilo de vida diferente desde que nos consciencializemos da herança de que somos portadores. Pelo Batismo somos mais do que as nossas tradições e hábitos: trazemos em nós a marca de Deus, que nos projeta sempre para mais além dos nossos sentimentos e projetos individuais. Por isso, insisto na pergunta que deve interpelar cada membro das futuras equipas do Centro de Preparação para o Batismo, que naturalmente hão-de ser elementos ligados à Pastoral da Família, à juventude, à catequese e à liturgia: que mudanças são precisas operar nas práticas religiosas para que elas sejam uma força transformadora da sociedade e não apenas a vivência individual de um sacramento, através de um rito.

Nos evangelhos vemos o relato do seu incómodo ao ver tantas regras, obrigações e outras tantas determinações que escravizavam o homem tornando a religião de então num conjunto de preceitos e ritos. O sábado é o topo de gama. Em alternativa apresentou o amor como fonte e cume de todas as coisas e as bem-aventuranças como caminho, tudo sempre com uma enorme liberdade. O que quero dizer é que Jesus andou sempre em contramão com a elite e o poder do seu tempo, da religião à sociedade, aqueles que por cumprirem com todos os preceitos pareciam (ou achavam-se!) mais próximos de Deus. Ainda assim, não foi esses que ele procurou, buscando sempre os doentes, os estrangeiros, os famintos, os foragidos e aqueles que de uma forma ou de outra eram os proscritos da sociedade. Até o ladrão que com ele foi crucificado ele “abraçou” no meio do seu próprio sofrimento, esquecendo-se de si.

Também hoje precisamos de cristãos assim: que acolham antes de fazer perguntas; que dialoguem em vez de impor regras; que abracem em vez de fecharem a porta.

Quem dera que os nossos Centros de Preparação para o Batismo sejam efetivamente este espaço de encontro e não de preparação meramente litúrgica para um dia de festa. Também a vivência deste sacramento implica que olhemos para ele não como uma meta mas como o início de um caminho, para quem o pede e para quem o explica.

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