A cultura do “Show-Off”

Por padre Carlos Simas

Foto: Padre Carlos Simas, ouvidor da Ribeira Grande e mestre pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

Vivemos numa era em que aparecer parece, muitas vezes, mais importante do que ser. A sociedade contemporânea transformou o “show-off”, a exibição constante de conquistas, estilos de vida e opiniões, numa prática quase obrigatória. Não se trata apenas de vaidade individual, mas de um fenómeno social profundamente enraizado na forma como comunicamos, relacionamos e construímos a nossa identidade.

As redes sociais são o palco principal desta dinâmica. Fotografias cuidadosamente editadas, frases inspiradoras, estrategicamente escolhidas, e momentos de felicidade permanentemente expostos criam uma narrativa idealizada da vida. O quotidiano, com as suas falhas, rotinas e silêncios, raramente encontra espaço. Assim, o “show-off” não é apenas mostrar o que se tem, mas encenar aquilo que se gostaria de ser, ou que se quer que os outros acreditem que se é.

Este comportamento é alimentado por um sistema de validação constante. Gostos, partilhas e comentários funcionam como aplausos digitais, reforçando a ideia de que o valor pessoal depende do reconhecimento público. Aos poucos, a fronteira entre identidade e performance esbate-se. As pessoas começam a viver experiências não tanto pelo seu significado íntimo, mas pelo potencial de serem exibidas. Uma viagem, uma refeição ou até um gesto solidário tornam-se conteúdos, mais do que vivências.

O “show-off” também reflete desigualdades sociais. A exibição de sucesso material, corpos padronizados e vidas aparentemente perfeitas acabam por criar uma pressão silenciosa sobre quem observa. Comparações constantes geram frustração, ansiedade e a sensação de insuficiência. A sociedade do espetáculo, como já antecipavam alguns pensadores, como o filósofo francês, Guy Debord, não mostra apenas, mas impõe modelos de felicidade e sucesso difíceis, ou impossíveis de alcançar.

No entanto, este fenómeno não deve ser visto apenas como superficialidade. Ele revela uma necessidade humana antiga: o desejo de pertença e reconhecimento. A diferença é que, hoje, esse desejo é amplificado por tecnologias que transformam cada indivíduo num potencial protagonista. O problema surge quando a busca por visibilidade substitui a autenticidade e quando o valor pessoal passa a depender do olhar externo.

Questionar a cultura do “show-off” não significa rejeitar a partilha ou a expressão pessoal, mas refletir sobre os seus limites. Talvez o verdadeiro desafio das sociedades atuais seja reaprender a viver momentos que não precisam de ser mostrados, a construir identidades que não dependam de aplausos e a valorizar o que é sentido, e feito com verdade e para ser comunicado pela verdade, mesmo quando não é visto. Num mundo obcecado com a exibição, a discrição pode tornar-se um novo ato de liberdade.

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