Sexta sessão dos Diálogos contra a Maré decorreu na Biblioteca Pública e Arquivo Luís Silva Ribeiro, em Angra

Realizou-se hoje a sexta sessão dos “Diálogos Contra a Maré”, uma iniciativa da Biblioteca Pública e Arquivo Luís Silva Ribeiro e o Seminário de Angra, que percorreu o legado social do papa Francisco, o Papa que “veio do fim do mundo” e que, em pouco mais de uma década, mudou a linguagem, as prioridades e o ritmo da Igreja.
“Francisco iniciou muitas coisas que não conseguiu completar. Agora esperamos que o caminho sinodal permita concluir as reformas que precisam de ser completadas… apesar da sua idade, o papa Francisco trouxe juventude e frescura à Igreja e isso deve ser continuado” afirmou o padre José Manuel Pereira de Almeida.
O assistente Nacional da Comissão Justiça e Paz, relembrou dois gestos emblemáticos do pontificado: a visita a Lampedusa, que inaugurou a sua denúncia global da indiferença perante os migrantes e os vulneráveis, e o regresso à Praça de São Pedro após o internamento hospitalar na Clínica Gemelli, que sublinhou a sua “proximidade e relação”.
“O seu pontificado foi isso: uma vida que foi Palavra e relação”, acrescentou.
Para o presbítero, que é vice reitor da Universidade Católica Portuguesa, a encíclica Fratelli Tutti permanece o grande documento deste pontificado, pela centralidade do diálogo inter-religioso, da amizade social e da fraternidade como ponte num mundo polarizado. Francisco, disse, “desmancha pré-compreensões”: é “um coração de avô onde cabemos todos”.
“A fraternidade foi levada a sério”, disse o padre Pereira de Almeida.

Coube a Carlos Correia, co-organizador desta iniciativa com o padre José Júlio Rocha, abrir o encontro. Sem rodeios, descreveu um mundo “desorientado”, onde Francisco se tornou farol ao denunciar “um sistema que descarta os que não podem pagar”. Recordou a imagem da “Igreja em saída”, hospital de campanha, feita de pastores com “sapatos com lama”, sempre em movimento “para que a doença não ganhe terreno”.
Contrapôs o “grito” de Francisco à pressa, à ansiedade e à cultura do imediato para salientar que hoje, “perdeu-se a profundidade”, sintetizou Carlos Correia, antes de situar os cristãos “como os discípulos de Emaús”, em travessia constante.
Ao avançar da noite, os textos do Papa surgiam como pontos de viragem. Laudato Si’, Fratelli Tutti e Laudate Deum foram descritas como “sirenes” a alertar para a interligação de tudo: economia, ambiente, vida humana. Documentos que, recordou Carlos Correia, mostram que a justiça social e a justiça climática “têm a mesma exigência” e que Francisco, inspirado em São Francisco de Assis, se tornou “um Papa anticapitalista”, denunciando uma economia que “mata”, endeusa o dinheiro e “põe em causa a casa comum”.
O pedido de cancelamento da dívida dos países pobres aos países ricos foi outro dos pontos sublinhados, assim como a coerência entre a palavra do Papa e a sua vida: “Foi profeta, mas foi sobretudo testemunho”, afirmou.

“Esta economia mata”: o alerta que virou programa
O economista Nuno Martins, participante da rede internacional da “Economia de Francisco”, colocou o foco na dimensão económica. Explicou que a frase “esta economia mata” não é mera retórica, mas uma denúncia da ligação direta entre desigualdade, pobreza e ameaça à vida humana.
Focou a questão da distribuição de riqueza, que classificou como “problema ético e técnico” do capitalismo atual. Defendeu uma “economia da vida”, baseada numa nova compreensão do valor, onde o mercado não seja a única medida do bem-estar. E concordou com Pereira de Almeida: a gratuidade deve voltar a ser central.
“Nem tudo tem de ter um preço”, afirmou.
Como moderador da sessão, o padre José Júlio Rocha fez um alerta claro: “Francisco não pode ser reduzido a uma vírgula na história da Igreja. Trouxe dinamismo, colocou temas na agenda global, abriu trilhos que o Sínodo deverá continuar”.
O diretor da Biblioteca, Avelino Santos, destacou o alcance da iniciativa: “O Papa Francisco marcou a agenda e desafiou as estruturas da sociedade”. Sublinhou que Laudato Si’ e Fratelli Tutti são textos com capacidade de convocar todos — crentes e não crentes — para o cuidado da casa comum e para a construção de pontes num mundo fragmentado.
Com transmissão via YouTube e Facebook, a sessão ganhou dimensão transatlântica, fazendo do auditório de Angra um espaço de encontro entre várias disciplinas e sensibilidades. Uma noite de diálogo livre, onde fé e razão se cruzaram para pensar “a economia que faz viver” e o mundo que Francisco ajudou a pôr em movimento.