A saga incompleta dos “mais pequeninos”

Por Padre José Júlio Rocha

Foto: Igreja Açores/Arquivo

A cena acontece naquele que, à data, considero o melhor romance de todos os tempos: “Os Irmãos Karamázov”. O intempestivo Dimítri, apaixonado e iracundo, emborca copos atrás de copos de vodka, numa tasca de uma cidade russa sem nome. Entra na Tasca o velho Snegiriev, capitão na reforma, um pobre que vive num mísero isbá (casa de camponeses russa). Deve dinheiro a Dimítri, que não põe água a pintos. Este agarra o capitão pela barba e arrasta-o pelo chão da taberna, até à rua coberta de neve, continuando a arrastá-lo pela rua fora, aos gritos “paga-me já o que me deves” e puxando-o sempre pela barba até escorrer sangue. Snegiriev tem um filho de dez anos que corre atrás do pai e de Dimitri, chorando, ajoelhando-se diante de Dimítri e pedindo-lhe que não humilhe o pai. Riem-se na taberna, riem-se na rua, a criança pede então ao pai que se encha de coragem, que responda, que se defenda, até porque o pai é mais forte do que ele.

Mais tarde, o ingénuo Aliosha, irmão de Dimítri, vai ao isbá de Snegiriev para lhe entregar dinheiro como forma de desculpa por parte da família Karamázov. Snigiriev atira o dinheiro (de que tanto precisa) ao chão e, vermelho de indignação, com o queixo a tremer e as lágrimas a bordejar, calca-o aos pés e vai-se embora. Tem uma ofensa impagável. Dimítri, por sua vez, no dia seguinte já nem se lembra da ofensa que fez ao pobre capitão.

Porque é que o capitão não reagiu à violência de Dimítri Karamázov, mesmo sendo mais forte? E porque é que ficou com uma ofensa eterna, se podia resolver o assunto com dois socos no focinho de Dimítri? Pela mesma razão que um pastor alemão tem medo do gato da casa, que tomou conta do território e é ele que manda, apesar de não ter a força física do cão. O poder reside sobretudo na cabeça. Dimítri tem uma personalidade que podíamos chamar “forte”, o capitão tem-na débil. Não consegue enfrentar Dimítri, tem dentro de si um peso, no confronto com Dimítri, do qual já não se livra: o medo.

Já Freud, para quem também “Os Irmãos Karamázov” eram a obra prima, considerava que, quando duas pessoas se encontram, gera-se imediatamente uma distância vertical entre elas: há sempre uma mais “forte” do que a outra e outra mais “humilde”. Isso também acontece connosco. Há sempre pessoas que respeitamos mais e pessoas a quem damos menos importância. As primeiras são capazes de nos ofender. E nós somos capazes de ofender as segundas, mesmo sem dar por isso, porque somos mais importantes para elas do que elas para nós. Freud chamava “mecanismo de projeção” à seguinte cadeia: o patrão zanga-se com o empregado; o empregado briga, em casa, com a mulher; a mulher ralha com o filho; o filho bate no cão; o cão rasga as calças que estão no fio. Essa hierarquização de relações que, segundo os sociólogos, permite a criação de estruturas sólidas de poder numa comunidade, é também a responsável pelas grandes injustiças e desigualdades do mundo.

Jesus veio contrariar toda essa lógica. A parábola do Pobre Lázaro é um exemplo acabado. O rico passava os dias em lautos banquetes, vestindo linho fino. Nada do outro mundo. O problema é o Pobre Lázaro, em chagas, acompanhado por cães, à espera de uma misericordiosa esmola que não chega, porque o rico nem dá por ele. É essa indiferença do rico para com o pobre, do forte para com o fraco, do grande para com o pequenino que acaba por levar o rico à sua própria perdição.

Quando Jesus diz que os primeiros serão os últimos; que quem se humilha será exaltado e quem se exalta será humilhado; que veio para servir e não para ser servido; que não nos chamemos doutores, mas irmãos; que os pobres e os que choram serão bem-aventurados; que quem quer ser grande, seja o servo de todos; quando Jesus, no seu último gesto antes da Paixão, sabendo que o Pai Lhe tinha dado todo o poder, exerce esse poder ajoelhando-se e lavando os pés aos discípulos, está em poderosa contradição com o que entendemos por mundo. O de hoje e o de sempre.

Nisto talvez possamos entender Nietzsche, para quem o cristianismo era para fracos, decadentes e pobres, renunciando à força telúrica da vida plena do “super-homem das massas”, que vence pela sua própria força interior, sem precisar da lei nem da moral. Duas visões do mundo e do homem brutalmente opostas.

Para mim, logicamente, Jesus, que é a Verdade, tem razão. E essa razão, vamos encontrá-la no infinitamente belo capítulo 25 de São Mateus, nos “irmãos mais pequeninos”. Aí Jesus diz aos bem-aventurados que serão salvos porque Jesus teve fome, sede, estava nu, era estrangeiro, doente ou prisioneiro, e eles estenderam-lhe a mão. A Jesus? Sim. Jesus é cada um dos “irmãos mais pequeninos”. Ao identificar-se com os “mais pequeninos”, Jesus vira do avesso a nossa lógica que, mesmo 2000 anos depois, continua corrompida: Jesus veio sobretudo para “os mais pequeninos” e a Igreja existe sobretudo por causa desses “mais pequeninos”, para que se restabeleça, na Terra, esse Reino Messiânico, onde “o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito; o novilho e o leão comerão juntos, e um menino os poderá conduzir.

A pergunta última a nós, Igreja, é até onde estamos dispostos a ir nessa radical viragem do avesso.

*Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular, na rúbrica Dorsal Atlântica

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