Pelo cónego Hélder Miranda Alexandre

“A regra à qual nos devemos ligar mais fielmente é de não seguir o rebanho que caminha à frente, dirigindo-nos, não para onde se deve andar, mas para onde todos vão”. Estas palavras de Séneca, na sua obra De Vita Beata, continuam pertinentes. Seguir contra a corrente, não pelo gosto da contradição, mas pela consciência e coerência, é um exercício árduo.
Certamente que existe uma imitação que é virtude, sobretudo quando se trata de uma exigência moral. Contudo, o que se assiste muitas vezes é um caminho de modas e de lugares-comuns. Viver assim é criar um rebanho servil. Como escreveu Victor Hugo: “não imiteis nada nem ninguém. Um leão que copia um leão torna-se um macaco”.
Após o encerramento do Jubileu da Esperança, é tempo de agradecer e levar esta bagagem para adiante. Embora as portas se tenham fechado, a graça que elas representam não desaparece. Este Jubileu foi um ano de extraordinária misericórdia, de reconciliação, de milhões que retornaram aos sacramentos e redescobriram a esperança. E esse tipo de movimento espiritual não termina com uma cerimónia.
As baterias apontam agora para a implementação da sinodalidade, mas tal exige cautela e amadurecimento. A Igreja é um Povo em caminho, não simplesmente uma estrutura de grupos. Podemos correr o risco de tanto referir a sinodalidade que suscitemos aversão entre os pares. A sinodalidade não é simplesmente uma técnica, em que se mete um grupo à volta de uma mesa para partilhar umas ideias. E não raras vezes, parece que se não for feito assim não é sinodalidade. Ridicularizamos o seu sentido.
Verdadeiramente, a sinodalidade não é novidade, mas a essência da Igreja. Tudo começou com um grupo convocado pelo Mestre e a história ensina que o associativismo é uma expressão natural da Igreja, como qualquer comunidade e sociedade.
Na sua recente Carta Apostólica “Uma fidelidade que gera futuro”, dirigida aos sacerdotes, o Papa foi bem claro ao escrever que “numa Igreja cada vez mais sinodal e missionária, o ministério sacerdotal não perde em nada a sua importância e atualidade; pelo contrário, poderá concentrar-se ainda mais nas tarefas que lhe são próprias e específicas. O desafio da sinodalidade – que não elimina diferenças, antes as valoriza – continua a ser uma das principais oportunidades para os sacerdotes do futuro.”
Os percursos pendulares da Igreja ou de qualquer comunidade ensinam que o que é hoje deixa de ser amanhã. Por isso, não absolutizar as modas é fruto de maturidade histórica. A Igreja não é deste ou daquele grupo, mas um povo de discípulos missionários. Ninguém é dispensável. É também tarefa de quem governa saber integrar, porque há muitos que podem ser esquecidos, simplesmente porque pensam de forma diferente. Saber integrar quem não assume a sinodalidade como modo de agir é ser também sinodal. Um grupo que se alterna com outro grupo pode sofrer do mesmo síndrome de clericalismo. Isso nada mais é do que poder. Ou será que é este que motiva? Se é assim, não há sinodalidade que resista, nem Evangelho!