Grupo VITA alerta para resistência à mudança e lança novos recursos para reforçar prevenção de abusos na Igreja

No quarto relatório de atividades apresentado esta terça feira, o Grupo VITA identifica “desafios estruturais” na prevenção de abusos na Igreja Católica, denuncia resistência à desconstrução da “visão sacralizada” dos sacerdotes e apresenta dois novos recursos pedagógicos desenvolvidos em colaboração com vítimas

Foto: Agência Ecclesia

O Grupo VITA alertou hoje para a persistência de obstáculos que continuam a dificultar a denúncia e a proteção das vítimas de abusos na Igreja Católica em Portugal, sublinhando que a mudança cultural “ainda está em curso”.

No quarto relatório de atividades, apresentado no Seminário de Alfragide, o organismo aponta a “assimetria de poder” nas estruturas eclesiais e a “visão sacralizada” dos sacerdotes como fatores que favorecem o silêncio, a descredibilização das vítimas e uma falsa sensação de segurança.

Apesar de reconhecer “colaboração total” por parte dos bispos e comissões diocesanas, a coordenadora Rute Agulhas admitiu que há “metas por alcançar” e mudanças que “requerem tempo”. Entre os desafios identificados estão a falta de uniformização entre dioceses, equívocos que associam prevenção a debates ideológicos e dificuldades na validação de denúncias, especialmente quando os agressores não são facilmente identificáveis.

Na mesma sessão, o Grupo VITA apresentou dois novos recursos pedagógicos, elaborados em estreita colaboração com vítimas e sobreviventes no âmbito do projeto “Sobre.VIVER”. O primeiro, “A Igreja que Escuta – Diretrizes para encontros entre vítimas e sobreviventes e representantes da Igreja”, resulta da experiência de 11 diligências facilitadas e pretende assegurar que estes encontros de justiça restaurativa decorram com “empatia, segurança e responsabilidade”, promovendo reconhecimento do dano e reparação simbólica. O segundo recurso, um “Guia de Apoio e Escuta” dirigido a familiares e amigos das vítimas, procura responder ao impacto do abuso nos sistemas familiares, oferecendo orientações práticas para lidar com emoções como choque, raiva ou confusão.

O relatório destaca ainda que, em 2025, o Grupo VITA ampliou o alcance das suas iniciativas e passou a integrar a comunidade de impacto coletivo “Junt@s para Cuidar”, que reúne mais de 40 organizações portuguesas e espanholas dedicadas à mudança social na proteção de menores.

Desde 2023, o organismo já sensibilizou e formou mais de 4800 pessoas em 14 dioceses, embora outras sete ainda não tenham solicitado formação. No total, recebeu 850 chamadas e foi contactado por 154 vítimas e sobreviventes. Rute Agulhas sublinhou que a continuidade do grupo, previsto inicialmente para um triénio até 2026, depende da Conferência Episcopal Portuguesa e da CIRP, mas considerou indispensável manter uma estrutura “externa e independente” que seja porta de entrada segura para quem ainda não confia nos mecanismos internos da Igreja.

O relatório reafirma a necessidade de códigos de conduta, canais de denúncia eficazes, formação obrigatória em seminários e prestação de contas pública. Para o Grupo VITA, só um “trabalho em rede sólido” entre dioceses, institutos religiosos e sociedade civil permitirá consolidar ambientes verdadeiramente seguros.

Desde janeiro de 2021, a Igreja Católica em Portugal tem novas diretrizes para a “proteção de menores e adultos vulneráveis”, sublinhando uma atitude de vigilância nas várias atividades pastorais e de colaboração com as autoridades.

Durante o ano de 2022, a CEP pediu um estudo sobre casos de abuso sexual na Igreja em Portugal nos últimos 70 anos a uma Comissão Independente, que validou 512 testemunhos relativos a situações de abuso, que seria apresentado em fevereiro de 2023.

A 22 de maio de 2023, a Conferência Episcopal Portuguesa criou o Grupo VITA para acolher denúncias de abuso, trabalhar na prevenção e acompanhar vítimas e agressores.

(Com Agência Ecclesia)

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