A funcionar desde 1992, o Centro Social e Paroquial de São Roque, em Ponta Delgada, tornou-se uma peça essencial no apoio social da freguesia. A vice-presidente da direção descreve uma instituição que cresce com a comunidade, mas que enfrenta hoje um desafio urgente: reforçar respostas sociais e criar um centro de dia que dê apoio à população envelhecida e às famílias incapazes de acompanhar os idosos.

Trinta e dois anos depois, o Centro Social e Paroquial de São Roque continua a reinventar-se para responder às necessidades da comunidade. Falta-lhe um Centro de Dia, sobram-lhe pedidos de apoio, e os recursos humanos não acompanham o ritmo da procura. Mas Cristina Aguiar, vice-presidente da Instituição, num misto de esperança e orgulho, resume o que mantém a instituição de portas abertas: “Somos a família que muitos já não têm. E enquanto pudermos, estaremos aqui para eles. Sempre!”
O que começou com uma ludoteca, apoio domiciliário e um jardim de infância, transformou-se numa instituição com sete valências, dezenas de funcionários e centenas de vidas tocadas diariamente.
“A nossa freguesia tem orgulho em ter uma instituição como esta”, afirma Cristina Aguiar, que vê no centro “uma mais-valia social e humana” para São Roque.
O projeto que mais desafia a direção é a Vida Nova, uma residência que acolhe 12 pessoas em situação de sem-abrigo – cinco mulheres e sete homens – algumas vindas da rua, outras sem qualquer apoio familiar.
“São pessoas que a família não quer saber ou que não têm mesmo família”, explica Cristina Aguiar.
“A casa deles agora é ali. E digo-lhes muitas vezes: têm de viver como uma família. É o que somos para eles e julgo que eles também nos sentem como tal.”
Recorda, emocionada, o funeral de um utente no verão passado: “Não tinha ninguém de sangue presente. Éramos nós, a família de coração.”
No Serviço de Apoio Domiciliário, os limites já se fazem sentir. O centro serve diariamente 30 refeições de almoço e jantar, garante higiene pessoal a 21 idosos e ainda cuida da roupa de uma utente. Mas a lista de espera cresce.
“A principal carência é humana”, admite a responsável.
“Não conseguimos dar mais resposta por falta de meios humanos. E se o serviço cresce, também os materiais começam a faltar.”
As respostas infantis também são pilares da instituição: creche para 35 crianças, incluindo 10 bebés; uma sala de jardim de infância com 24 crianças; três salas de ATL no Poço Velho e duas na Escola das Maricas, envolvendo quase 100 crianças. Para os mais velhos, o centro de convívio oferece três tardes por semana de atividades, transporte incluído.
“Muitos destes idosos estão sozinhos em casa ou precisam de se relacionar por recomendação médica. Há carência monetária, sim, mas há sobretudo carência afetiva”, afirma.
A Unidade Móvel de Reabilitação, inaugurada em 2000, transporta quatro idosos de São Roque para centros de dia noutras freguesias. Mas, Cristina Aguiar é clara: “Era urgente um centro de dia aqui. As famílias já não conseguem acompanhar os idosos como antigamente. Hoje os filhos trabalham até mais tarde, as reformas chegam mais tarde, e as pessoas começam a precisar de apoio quando já ninguém lhes consegue dar.”
Embora se mantenha como instituição ligada à Igreja, a vertente social ganhou peso.
“A marca paroquial existe, claro, mas hoje prevalece muito mais a resposta social e, sobretudo, uma resposta especializada e competente que requer outros recursos e outras valências que não sejam apenas a caridade, que já é muito. Os valores cristãos estão sempre presentes”, reconhece.
Entre distribuições de refeições provenientes de desperdício alimentar , que chegam diariamente a nove pessoas , e donativos de roupa destinados aos sem-abrigo, o centro tenta não deixar ninguém para trás. Mas a realidade da freguesia permanece exigente.
“Ainda há baixa escolarização, ainda há muita carência emocional. E é aí que tentamos estar, ajudando e orientando”, refere.
Cristina Aguiar não esconde que gerir tantas valências exige coordenação constante, mas identifica sem hesitar qual é a missão mais complexa: “O maior desafio é a Vida Nova. Conciliar 12 ou 13 adultos com histórias tão distintas, com fragilidades e conflitos… às vezes somos chamados várias vezes para conversar, chamar a atenção, orientar.” Ainda assim, insiste: “Não é que as outras valências não sejam importantes. Mas ali sentimos todos os dias o impacto real de estarmos a mudar vidas.”
A reportagem alargada pode ser ouvida este domingo na Antena 1 Açores e no Rádio Clube de Angra e fica disponível em podcast aqui no sítio Igreja Açores.









