Encontro de espiritualidade centra-se no verbo “cativar”

O Setor Açores Oriental das Equipas de Nossa Senhora (ENS) promove, esta sexta-feira e sábado, um retiro espiritual que terá lugar na Lagoa, orientado pelo padre João Emanuel Pereira, sacerdote da Diocese do Porto.
O encontro reunirá casais do movimento num tempo de pausa, oração e reflexão, centrado na vivência do matrimónio cristão e na identidade batismal, num contexto marcado pelo desafio de manter viva a relação conjugal perante o cansaço, a rotina e a monotonia do quotidiano.
Inspirando-se na obra O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry, o retiro propõe como tema central a ideia do “cativar”, sublinhando que a vida em casal exige um cativar permanente.
“Casamos e o sacramento do matrimónio vale por si, mas há um trabalho contínuo que precisa de ser feito. O cansaço e a rotina desmoralizam muitas vezes a relação, e parar para pensar como recativar é fundamental”, refere o sacerdote portuense, que este ano decidiu articular a Palavra de Deus com a literatura e a poesia, incluindo também textos do poeta Daniel Faria.
Em entrevista ao Igreja Açores, o padre João Emanuel Oliveira destaca ainda a família como “lugar de sinodalidade”, recordando que é pelo Batismo que os cristãos são inseridos num caminho comum.
“O Batismo é o sacramento por excelência da sinodalidade, porque nos faz irmãos e, por isso, capazes de caminhar juntos”, afirma.
Segundo o sacerdote, as Equipas de Nossa Senhora são um exemplo concreto de como o casal pode ser uma verdadeira alavanca para viver melhor o Batismo no seio da família.
“O movimento nasce no âmbito do matrimónio cristão e tem uma estrutura muito bem definida. As equipas, formadas por seis ou sete casais, ajudam-se mutuamente a alimentar a identidade batismal, através da oração pessoal, conjugal e familiar, da leitura da Palavra de Deus e do ‘dever de sentar’, que convida o casal a parar para dialogar”, explica.
Esta dinâmica, acrescenta, não se esgota na relação conjugal, mas estende-se à educação dos filhos e à evangelização das famílias, fazendo das ENS “um verdadeiro movimento de evangelização a partir da identidade familiar”.
O padre João Emanuel Oliveira esteve ontem numa ação de formação nas Capelas, onde abordou a temática do batismo e encontra-se hoje também na Lagoa, aprofundando a reflexão sobre o Batismo, a pertença à Igreja e os desafios pastorais da atualidade.
Para o sacerdote, a falta de consciência da identidade batismal compromete não só o processo sinodal, mas também o sentimento de pertença à comunidade cristã.
“Não basta dizer ‘eu tenho a minha fé’. É preciso paixão por Cristo e responsabilidade no caminhar em comunidade”, sublinha.
O sacerdote da Diocese do Porto alertou, ainda, para a necessidade de um acompanhamento mais contínuo e próximo dos fiéis, sublinhando que o sentido do religioso continua muito presente na sociedade atual, embora nem sempre se traduza numa pertença efetiva à vida da Igreja.
“O sentido do religioso está muito presente na nossa contemporaneidade. As pessoas procuram algo que as ligue ao transcendente”, afirmou, acrescentando que, para os cristãos, essa relação tem um nome concreto: Jesus Cristo. No entanto, reconhece que existe “uma falta de conhecimento e de apaixonamento por esta pessoa”, considerando que a paixão e o amor a Cristo são a chave para um verdadeiro sentimento de pertença à Igreja.
O sacerdote apontou fragilidades na prática pastoral. Apesar dos esforços da Igreja para garantir maior harmonia e continuidade no acompanhamento das pessoas e das famílias, o presbítero reconhece que nem sempre esses caminhos têm produzido os frutos desejados. A questão central está ligada ao sentimento de pertença.
“Se não houver esta consciência de pertença, a pessoa acaba por seguir o seu caminho”, afirmou, sublinhando que se vive ainda muito “um cristianismo cultural, mais por tradição, do que um cristianismo verdadeiramente evangélico”.
Neste contexto, destacou a importância do acompanhamento espiritual personalizado, defendendo que “cada cristão deveria ter um diretor espiritual”, à semelhança da figura do padrinho no Batismo de adultos, como representante da comunidade no caminho de fé. A ausência deste acompanhamento leva muitos a procurar respostas noutras propostas espirituais, nomeadamente ligadas a tradições orientais, que não exigem uma responsabilidade comunitária.
O padre João Emanuel Pereira alertou, por outro lado, para os riscos do individualismo, que contrasta com a natureza comunitária da Igreja Católica.
“Vivemos da comunidade e para a comunidade. Se alguém quiser viver a sua relação com Deus de forma totalmente individual, sem este vínculo comunitário, dificilmente encontra espaço na Igreja”, afirmou.
O padre João Emanuel Pereira salienta a necessidade de uma redescoberta da identidade batismal. “Não é apenas dizer ‘fomos batizados’, é sentirmo-nos pertencentes a Cristo. Ninguém pode dar aquilo que não tem”, concluiu, lembrando que o cristianismo não é apenas uma questão ética, mas uma exigência concreta de amor ao próximo vivido no quotidiano.



