Vem de novo

Por Nuno Cardoso Dias

 

Eu sei, eu sei: esta vida são dois dias o Carnaval são três.

Mas, vão ver, mais baile aqui, assalto ali, o desfile dos miúdos e a coisa acaba antes de dizermos malassada, até porque não se deve falar com a boca cheia, e malassadas ou se comem frescas ou perdem a graça.

Quando dermos por nós é quarta-feira.  Como o tempo passa. Mais uns dias e estamos na Páscoa e daí ao Verão é um tiro: mete-se o Santo Cristo, o Espírito Santo e antes que demos por isso estamos estendidos na toalha, barrados a protector, a trabalhar para a vitamina D, que o bronze anda desvalorizado. Isso é que é vida.

Será?

Pode ser diferente. Depende de nós. “Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás” “Convertei-vos e crede no Evangelho”.

Gosto da quarta-feira de cinzas. Pela fragilidade, pela memória, pela promessa, pela proposta.

Gosto das Cinzas pela fragilidade. As cinzas impostas em cruz. É o mais frágil dos gestos. Mal se sente. Pó sobre pó. Ao primeiro sopro podem dispersar.  Bela maneira de começar a quaresma.

Gosto das Cinzas pelo que lembram. Os mesmos ramos com que abrimos a Páscoa anterior são agora cinzas perfumadas de incenso.

Gosto das Cinzas pelo que prometem. As cinzas envolvem-se na terra e tornam-na fértil. Como notava um texto do Cardeal Tolentino, ‘A Quaresma  coincide com o irromper da primavera, e a coincidência não é apenas de calendário, mas de fundo.”  Tudo o que estava dormente retoma, renasce, reergue-se.

Gosto das Cinzas pelo que propõem: jejum, esmola e oração. Como dizia Francisco: não são três exercícios independentes, mas um único movimento de abertura, de esvaziamento.

Lembra-me o Samuel Úria. Talvez nem tenha pensado nisto, mas estava mesmo inspirado, quando escreveu, na sua música Vem de Novo:

E se o que eu pagar

P’lo que já esqueci

Por perder o pavor de perder-te

Por nem saber quem és

Pois, se se enrugar a noção do meu melhor

Venho, velho, desconhecer que nada sou

Mas se se enrugar a noção do meu melhor

Vem, de novo, deseducar-me de estar só.

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