Vila Franca do Campo volta a encher-se de mochilas às costas, camisolas coloridas e passos apressados que percorrem as ruas com um destino comum: as pessoas. A Missão País despede-se esta semana da vila micaelense, onde nasceu a primeira missão açoriana e onde, pelo terceiro e último ano consecutivo, dezenas de universitários quiseram deixar marca. O lema que os guiou foi simples e exigente: “A paz esteja convosco.”

A frase ecoa o Evangelho – as palavras de Cristo aos discípulos – e ganha atualidade nas palavras recentemente repetidas pelo Papa Leão XIV. Para quem veio, a paz não é teoria; é encontro, serviço e muitas horas de porta em porta.
Entre os missionários está Vicente Cerejo, natural de São Miguel e estudante de Medicina na Universidade dos Açores. Chegou por convite de amigas e, apesar de já ir no terceiro ano do curso, vive agora a primeira experiência.
“A experiência está a ser especial. Às vezes até as palavras são complicadas… não é fácil escrever uma coisa só com palavras. Às vezes é preciso um abraço.”
Para o jovem estudante, a semana não termina quando a missão acabar.
“Agora é que começa realmente a minha primeira missão. Até agora eu só tinha existido. Quando acabar esta missão já sei o que é que posso fazer para cumprir uma missão”, afirmou.
Também Gonçalo Tanissa, universitário em Évora, participa pela primeira vez, depois de ouvir durante anos o entusiasmo do irmão mais velho.
“Ser discípulo hoje é olhar para esta alegria que nós recebemos e espalhá-la. Ao verem a nossa alegria, as pessoas ficam tocadas”, afirmou.
Surpreender-se, mesmo depois de cinco anos
Beatriz Novais, 22 anos, estudante de Engenharia Química na Nova, soma já cinco missões. Ainda assim, garante que continua a haver espaço para a novidade.
“Está a ser muito surpreendente. Já fiz várias missões e ainda assim consigo ver que há tanta coisa para anunciar.”
Este ano está colocada na escola e fala da força dos mais novos.
“A alegria dos miúdos e a simplicidade com que vivem a vida tem sido transformador.”
No regresso a casa, a missão continua em gestos concretos.
“Às vezes ligar a um amigo é um porta-a-porta. A minha família vai precisando… e fazer este serviço às pessoas que estão na minha vida” concluiu.
Construir raízes nos Açores
A chefia da missão que passa por vários locais- a escola, o centro de acolhimento para jovens com deficiência, a Creche, o Lar de Idosos ou no porta a porta, casa a casa- quer que a experiência não seja apenas uma visita anual. Mariana Sousa, estudante de Medicina, veio de Lisboa para os Açores e, depois de ter sido missionária, assumiu agora a responsabilidade de coordenar cerca de 60 jovens.
“A minha missão foi capacitar as mãos dos outros para fazer tudo isto.”
Ligada ao movimento de Schoenstatt, sente que é preciso dar espaço aos universitários açorianos.
“A alegria de viver em Cristo é tão grande que é impossível não querer partilhar. A Igreja pode ser nossa também.”
Apesar do entusiasmo, os números ainda são pouco expressivos – apenas quatro ou cinco jovens locais. Mesmo assim, a esperança mantém-se.
“A missão começou há pouco tempo cá. Espero que para o ano tenhamos cada vez mais.”
A continuidade parece garantida: a Missão País permanecerá ligada à Universidade dos Açores e, na próxima edição, deverá rumar a outra zona do arquipélago.
Nos bastidores do serviço está um trabalho diário de interioridade. Inês Carvalho, aluna em Évora e chefe de oração, regressou à ilha depois da experiência do ano passado.
“Precisamos de conseguir encher-nos de alegria para darmos a nossa alegria também à comunidade.”
Ao longo da semana, os temas sucedem-se – confiança, entrega, dúvida – numa ponte constante com a vida real.
“Jesus não quer simplesmente que estejamos em paz. Quer que a paz permaneça em nós e que consigamos levá-la aos outros.”
Para o padre Tiago Tédeu, que acompanha o grupo, a presença destes jovens tem sido um sinal claro.
“Não é apenas momento de oração, mas também de convívio e, sobretudo, de entrega à comunidade.”
O sacerdote destaca a aceitação por parte dos vilafranquenses e a dedicação em tarefas que vão das visitas porta a porta à ajuda a quem mais precisa.
“É nos jovens que nós encontramos a esperança para o mundo de hoje.”
Vindos de realidades como Schoenstatt, Centros Universitários da Companhia de Jesus, Opus Dei ou Comunhão e Libertação, os missionários trazem consigo a imagem da Mãe Peregrina e a vontade de deixar um abraço que perdure para lá da semana.
Entre expectativas, cansaço e gratidão, repetem as palavras que orientaram cada dia: a paz esteja convosco. E partem com a certeza de que, semeada em Vila Franca do Campo, a missão continuará a crescer noutras terras açorianas – e na vida de cada um.
Este ano a Missão País está em 75 lugares envolvendo universitários de 60 faculdades diferentes. Está presente em Lisboa, Porto, Coimbra, Évora, Aveiro, Braga, Leiria, Santarém, Algarve, Madeira, Covilhã, Setúbal e Açores.
A Missão País nasceu em 2003 de uma dupla vontade de 3 estudantes universitários da Universidade Nova de Lisboa: entregar parte do seu tempo à missão e ter na sua faculdade algo que os aproximasse de Deus.
Assim, seguindo o exemplo da Grande Missionária – Nossa Senhora – deixam tudo e partem com Cristo por Portugal fora. Desde de aí, a Missão País tem vindo a crescer ano após ano, contando atualmente com: 23 anos de vida, 257 lugares missionados, 4140 jovens mobilizados e 75 missões de norte a sul de Portugal, in cluindo as duas regiões autónomas.
A Missão País em Vila Franca do Campo termina no próximo sábado, a partir das 14h00, com a apresentação do teatro, um momento de partilha, com que termina sempre cada missão.
Universitários da Missão País chegam a Vila Franca do Campo para o último ano








