Por Jorge Costa Pereira

A minha vida de docente ensinou-me a valorizar as novas gerações, aquela matéria-prima riquíssima que todos os anos temos entre mãos com o objetivo de ajudar a formar e educar para serem melhores pessoas. Por isso, desconfio por princípio das visões apocalíticas do presente e das projeções que elas determinam para o futuro quando são alicerçadas no postulado, tanto mais frequente quanto mais envelhecemos, de que “no meu tempo é que era bom!”.
Olhar para alguns indicadores da situação do Catolicismo nos Açores de hoje obriga-nos a um equilíbrio exigentíssimo entre a constatação da realidade, a valorização do que temos e o questionamento do futuro sem nos deixarmos submergir na memória dos tempos idos.
Olhamos, por exemplo, para a frequência dos leigos na missa dominical nos dias de hoje e o que vemos? De uma maneira geral, as nossas igrejas estão despovoadas.
Olhamos para as crianças que frequentam a Catequese e o que vemos? Cada vez são em menor número e cada vez são mais as que chegam sem saber uma oração, sinal da perda da sua prática nas famílias.
Olhamos ainda para a frequência das crianças e jovens da Catequese na missa dominical e o que vemos? A maioria ou vai à missa no contexto da Catequese ou simplesmente não vai, se isso só depende da família.
Olhamos para os jovens casais, de entre os poucos que ainda se casam catolicamente, e o que vemos? Um afastamento posterior e persistente da Igreja na maioria deles.
Olhamos para os organismos paroquiais e o que vemos? Muitos deles a definhar sem se conseguirem renovar nem rejuvenescer por dificuldade em encontrar cristãos disponíveis para o serviço na Igreja.
Olhamos para as aulas de Educação Moral e Religiosa Católicas nas escolas dos Açores e o que vemos? Uma deserção assustadora, bastando comparar as frequências de há uma década com as de hoje…
E a lista podia continuar, numa constatação, óbvia para mim, de que a Igreja Católica tem vindo a “perder” sucessivas gerações que, hoje, lhe são maioritariamente indiferentes e que se afastaram da prática dos Sacramentos e do envolvimento na sua comunidade paroquial.
Este parece-me ser um dos problemas centrais que temos pela frente na Igreja dos Açores. Não é obviamente só nosso, mas, na nossa pequenez, afeta-nos sobremaneira. E impõe-se reconhecer que tardamos nas respostas, hesitamos nas prioridades e estamos demasiado influenciados por modismos nalgumas das práticas que seguimos.
É inevitável, sempre que reflito sobre esta realidade que me rodeia e que conheço, deixar-me assaltar por um pessimismo que, admito, é frequentemente inibidor da esperança e do otimismo que devem ser a marca indelével da presença dos cristãos na nossa sociedade.
Por isso, ciclicamente, retorno a um livro que li em 1982, pelas mãos do Professor Eugénio dos Santos, na cadeira de História das Mentalidades, da autoria de Jean Delumeau, e que dá o título a esta crónica. Lá releio as palavras, ainda atuais, de que “o presente é menos sombrio (…) que o futuro continua aberto e que nós temos tendência para exagerar tanto da cristianização de outrora como da descristianização de hoje. Sem dúvida que é real a crise religiosa que vivemos (porquê iludir-se?). Ela é uma travessia do deserto. Mas o deserto purifica.”
Confiante que o deserto que atravessamos no tempo presente nos purificará, uma das poucas certezas que tenho como inevitável é a de todos nós estarmos obrigados a voltar à pureza e à coragem evangélicas dos primeiros cristãos, de tal forma que os nossos conterrâneos possam voltar a dizer de nós “vede como eles se amam!”