A partir do tema do Projeto Pastoral- “Cristão, que dizes de ti mesmo?” a Mensagem – “Da Quaresma à Páscoa: para que ressuscite o homem novo!”- convida à purificação interior, à renovação do coração e a gestos concretos que combatam a indiferença e o comodismo

Na Mensagem para a Quaresma, que começa esta quarta-feira com a imposição das cinzas, o bispo de Angra faz um apelo à vivência deste tempo de forma mais “profunda e transformadora”, convidando a rever hábitos, a reforçar a oração, a praticar o jejum com sentido e a assumir uma partilha mais concreta com os mais necessitados.
O convite inspira-se no ensinamento de Jesus Cristo, sobretudo nas antíteses presentes no Evangelho de Mateus, onde se destaca a expressão: “ouvistes o que foi dito… eu, porém, digo-vos”. A mensagem reforça que não se trata de abandonar tradições, mas de lhes dar um sentido mais profundo, vivido “em espírito e verdade”.
Entre as propostas está a revisão de hábitos e atitudes. A “verdadeira penitência” é apresentada como “abertura ao encontro com Cristo”, permitindo que Ele “toque” a vida do fiel, cure feridas e conduza a uma mudança real. O apelo inclui “menos ruído, menos conflitos e mais escuta, presença familiar e palavras de reconciliação”.
Outra dimensão destacada é a oração entendida como “diálogo íntimo” com Deus. A orientação é rezar não apenas por obrigação, mas como quem conversa com um amigo, privilegiando o silêncio, a gratidão e a participação em momentos comunitários de fé.
O jejum, outro sinal crucial deste tempo litúrgico, é proposto como “libertação interior”, indo além da alimentação. A sugestão inclui reduzir excessos, afastar-se de ambientes negativos e até “jejuar” de atitudes e comportamentos que ferem relações, como a agressividade nas redes sociais ou a falta de respeito, lembrando aqui a mensagem do papa Leão XIV para esta Quaresma.
“O respeito pode ser uma chave para caminhar com todos: Jesus ensina-nos a ter respeito radical pelos outros, deixando a cada um o seu espaço vital, sem ter julgamentos mortíferos e «rotulagens» em relação ao irmão, sabendo dar o primeiro passo para buscar caminhos de paz e reconciliação com todo e qualquer irmão, sem o reduzir a uma coisa, a uma mercadoria, objeto de cobiça ou desejo de posse”, pode ler-se na mensagem.
“Jejuar é desistir de resolver assuntos sérios através das “redes” onde se mistura verdade com mentira, juízos com condenações e de onde ninguém sai `homem novo´, mas `mais homem velho´! Jejuar é alimentar um diálogo no amor e na verdade que tudo ilumina e esclarece se deixarmos o Espírito Santo entrar nesse diálogo. Jejuar é escolher o vazio que permite a Deus ser tudo em nós”, afirma ainda.
Por fim, destaca-se a partilha com os mais necessitados, entendida não apenas como doação material, mas como “proximidade humana”. A Mensagem – “Da Quaresma à Páscoa: para que ressuscite o homem novo!” – incentiva gestos concretos de atenção, tempo e cuidado com pessoas em situação de solidão, sofrimento ou exclusão.
A mensagem conclui com um apelo à reflexão pessoal e comunitária, sublinhando que a Quaresma é um tempo privilegiado para reencontrar o essencial, fortalecer relações e renovar a vida através do amor, da fé e da solidariedade.
D. Armando Esteves Domingues recorda que esta “quadra litúrgica Quaresma/Páscoa está cheia de manifestações de fé e piedade, enraizadas na história cristã, na vida das famílias, movimentos e paróquias” que “dizem bem quem fomos e somos como cristãos”, retomando a pergunta essencial deste ano pastoral diocesano centrada no Batismo: “Cristão, que dizes de ti mesmo?”.
Propondo um horizonte temporal mais dilatado do que os 40 dias da Quaresma até ao Pentecostes, a Mensagem relembra que “há duas etapas que se complementam: a Quaresma de 40 dias, mais focada em nos “despirmos do homem velho que se corrompe por desejos enganosos e nos revestirmos do homem novo” e depois da Páscoa ao Pentecostes, período marcado pelas festas do Divino Espírito Santo no arquipélago.
“Aproveitemos este tempo bom para encontros transformadores com Cristo e com os irmãos”, olhando os tradicionais pontos da espiritualidade e “dando-lhes um sentido mais profundo”, ao lembrar que a igreja inicia um período que é uma “peregrinação e não um conjunto de eventos isolados e inconsequentes. A Quaresma existe para que a Páscoa seja a vitória do Homem Novo em cada batizado”, conclui sublinhando a importância das bem aventuranças.
Na Mensagem desta Quaresma D. Armando Esteves Domingues explicita ainda o destino da Renúncia Quaresmal, que já tinha sido anunciado pelo Comunicado do Conselho Presbiteral, a favor da Cáritas da Diocese de Leiria-Fátima.
“Dada a calamidade que se abateu sobre algumas regiões do país, foi decidido que a Renúncia Quaresmal deste ano seja enviada para a Cáritas e Diocese de Leiria. Pela urgência que se vive, a nossa Diocese já adiantou 40.000 € por conta da Renúncia” lê-se no texto.
“A onda de solidariedade que se criou em Portugal, após as sucessivas tempestades, é, na verdade, uma clara afirmação do que de melhor nós temos: uma capacidade de compaixão que se exprime em partilha de bens. Todos sofrem quando um irmão sofre. Oxalá seja esta uma marca da nossa Quaresma que prepara a Páscoa. Tudo o que se recolher a mais será enviado no final. Apelo à generosidade!”, conclui.
A Quaresma é o período de 40 dias do calendário cristão que antecede a Páscoa e serve como tempo de preparação espiritual para celebrar a ressurreição de Jesus Cristo. Inicia-se na Quarta-feira de Cinzas e prolonga-se até à Quinta-feira Santa, sendo tradicionalmente vivido como um tempo de conversão, reflexão e renovação interior. Durante este período, os fiéis são convidados a intensificar a oração, praticar o jejum e exercitar a partilha com os mais necessitados. O número quarenta tem um forte significado simbólico, recordando os 40 dias que Jesus passou no deserto em jejum e oração antes de iniciar a sua missão pública. Assim, a Quaresma é entendida como um caminho espiritual de preparação, mudança de vida e aproximação a Deus.
Esta quarta-feira, o bispo de Angra presidirá na Sé, às 18h00, na habitual celebração de imposição de cinzas.