Papa propõe jejum de gestos e palavras que magoam os outros

Leão XIV assinala início do tempo da Quaresma, apelando a “verdadeira conversão”

Foto: Vatican Media

O Papa assinalou hoje o início do tempo da Quaresma com um apelo ao jejum de comportamentos ofensivos, durante a audiência geral realizada na Praça de São Pedro.

“Hoje, Quarta-feira de Cinzas, iniciamos a Quaresma, tempo de graça e conversão. Peçamos ao Senhor que disponha os nossos corações para ouvir e viver a sua Palavra, jejuando de gestos e comentários que magoam os outros e nos afastam do seu Coração misericordioso”, disse, na saudação aos peregrinos.

Leão XIV pediu que o tempo de preparação para a Páscoa seja vivido “com coração aberto” e que todos estejam “empenhados na oração e na fraternidade”.

“Com esta jornada de jejum e oração, começamos o nosso itinerário quaresmal. Que o Senhor, com a sua graça, nos impulsione a uma verdadeira conversão. Deus vos abençoe”, acrescentou, nas saudações aos peregrinos de língua portuguesa, presentes na audiência pública semanal.

Na sua catequese, Leão XIV refletiu sobre a identidade da Igreja como “mistério” e “sacramento”, recorrendo aos documentos do Concílio Vaticano II (1962-1965).

“A Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano”, recordou, citando a constituição dogmática ‘Lumen Gentium’.

O Papa explicou que a Igreja é uma “presença santificadora no meio de uma humanidade ainda fragmentada”, atuando como sinal de reconciliação e unidade.

“Importa é estarmos juntos porque somos atraídos pelo Amor de Cristo, que derrubou o muro da separação entre pessoas e grupos sociais”, sustentou.

“A condição da humanidade é uma fragmentação que os seres humanos são incapazes de reparar, embora o anseio pela unidade habite nos seus corações. É nesta condição que entra em ação a obra de Jesus Cristo, que, pelo Espírito Santo, vence as forças da divisão e o próprio divisor”, disse ainda.

Durante as saudações aos peregrinos polacos, o pontífice recordou o 95.º aniversário da primeira aparição de Jesus Misericordioso a Santa Faustina Kowalska, a celebrar no próximo dia 22 de fevereiro.

“Que a Quaresma seja um tempo de encontro com Cristo através do Sacramento da Penitência e das obras de misericórdia”, desejou aos fiéis de língua polaca.

Leão XIV exortou ainda os jovens, os doentes e os recém-casados a viverem a Quaresma com um “intenso espírito de oração”, para que cheguem à Páscoa “interiormente renovados”.

A jornada do Papa nesta Quarta-feira de Cinzas prossegue esta tarde, como é tradição, no bairro romano do Aventino, com a procissão penitencial desde a Igreja de Santo Anselmo e a Missa com a imposição das cinzas na Basílica de Santa Sabina.

Os católicos de todo o mundo começam hoje  a viver o tempo da Quaresma, com a celebração das Cinzas, que são impostas sobre a sua cabeça durante a Missa.

A Quarta-feira de Cinzas é, juntamente com a Sexta-feira Santa, um dos únicos dias de jejum e abstinência obrigatórios.

O jejum é a forma de penitência que consiste na privação de alimentos; a abstinência, por sua vez, consiste na escolha de uma alimentação simples e pobre.

A sua concretização na disciplina tradicional da Igreja era a abstenção de carne, particularmente nas sextas-feiras da Quaresma, mas pode ser substituída pela privação de outros alimentos e bebidas, com um caráter penitencial.

Nos primeiros séculos, apenas cumpriam o rito da imposição da cinza os grupos de penitentes ou pecadores que queriam receber a reconciliação no final da Quaresma, na Quinta-feira Santa.

A partir do século XI, o Papa Urbano II estendeu este rito a todos os cristãos no princípio da Quaresma.

Na Liturgia, este tempo é marcado por paramentos e vestes roxas, pela omissão do ‘Glória’ e do ‘Aleluia’ na celebração da Missa.

A renúncia quaresmal é uma prática em que os fiéis abdicam da compra de bens adquiridos habitualmente noutras épocas do ano, reservando o dinheiro para finalidades especificadas pelo bispo da sua diocese.

O Papa apelou na sua mensagem de Quaresma, à “abstinência de palavras” que ferem o próximo, propondo maior atenção a quem sofre.

“Gostaria de vos convidar a uma forma de abstinência muito concreta e frequentemente pouco apreciada, ou seja, a abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo”, escreve Leão XVI, numa mensagem intitulada ‘Escutar e Jejuar. A Quaresma como tempo de conversão’.

No texto, o pontífice sublinha a necessidade de desarmar a linguagem, na sociedade contemporânea.

“Peçamos a graça de uma Quaresma que torne os nossos ouvidos mais atentos a Deus e aos últimos. Peçamos a força dum jejum que também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro”, escreve.

A Quaresma é um período de 40 dias (não se contabilizam os domingos), marcado por apelos ao jejum, partilha e penitência, que serve de preparação para a Páscoa, a principal festa do calendário cristão.

A maior festa cristã, que evoca a Ressurreição de Jesus, é celebrada no domingo após a primeira lua cheia que se segue ao equinócio da primavera, no hemisfério norte, dia 5 de abril, este ano.

(Com Ecclesia e Vatican News)

Papa propõe “jejum” de palavras ofensivas e maior escuta do “clamor dos oprimidos”

Scroll to Top