Fé é “um armistício na guerra de ser humano”, defende Madalena San Bento na XXII Conversa na Sacristia

Iniciativa decorreu esta quarta-feira na Sacristia da Igreja de São José

Foto: Igreja Açores/PCSJ

A fé como “armistício na longa e penosa guerra de se ser humano” marcou a reflexão apresentada por Madalena San Bento na XXII edição da iniciativa Conversas na Sacristia, realizada esta quarta-feira à noite, na Igreja Paroquial de São José, em Ponta Delgada.

Partindo da Carta aos Hebreus -“A fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de factos que não se veem” (Hebreus 11:1) – a oradora apresentou a fé como uma decisão pessoal, assumida “por conta e risco”, num contexto em que a razão não oferece provas definitivas da existência de Deus, mas onde a intuição humana insiste em procurá-Lo.

No centro da intervenção esteve a ideia de que Deus representa conforto e garantia num cenário marcado pela limitação humana.

“Pode onde eu não posso; começa onde a minha natureza se limita e acaba”, sintetizou, defendendo que, apesar da desigualdade da relação entre o ser humano e o divino, a simples ideia de Deus oferece uma segurança que mais nada consegue assegurar.

Madalena San Bento descreveu Deus como “um oásis no deserto das insuficiências” e uma presença capaz de pacificar, ainda que por instantes, a inquietação constante da condição humana. Para a oradora, acreditar é encontrar coragem para admitir que não estamos sós na solidão que nos une aos outros.

Outro dos eixos centrais da reflexão foi a tensão entre a liberdade humana e a expectativa de intervenção divina. Segundo a interveniente, o ser humano deseja simultaneamente um Deus que respeite integralmente o livre-arbítrio e a ordem natural do mundo, mas que, em momentos de aflição, intervenha, altere o curso dos acontecimentos e ofereça auxílio particular.

“Queremos um Deus justo, mas tememos que a justiça O torne insensível à nossa angústia; queremos um Deus perfeito, mas receamos que a perfeição O afaste da nossa condição”, sublinhou, apontando para a dificuldade em conciliar grandeza e proximidade sem diminuir o divino.

A fé foi ainda apresentada como “ousadia da crença”, um desafio que se coloca contra a improbabilidade racional da existência de Deus. Mais do que um dado adquirido, trata-se de uma escolha consciente, sustentada na esperança e no maravilhamento, mesmo na ausência de provas empíricas.

Ao longo da intervenção, foi também evocada a perspetiva de Jean-Jacques Rousseau, que via na impossibilidade de ver Deus não uma limitação da Sua grandeza, mas antes uma oportunidade para uma crença mais profunda, reconhecendo-O nas Suas manifestações e na evidência interior.

A reta final da reflexão centrou-se em passagens bíblicas como o Sermão da Montanha e o Eclesiastes, destacando-as como exercícios de simplificação de uma realidade complexa e convites à aceitação do ritmo próprio da existência.

A citação “Tudo tem o seu tempo determinado” foi apresentada como uma das mais genuínas explicações da contradição humana e um apelo à aceitação de uma ordem que nem sempre coincide com os desígnios individuais. A tentativa de “desregular o ritmo desta dança”, afirmou, é precisamente o contrário da fé.

Concluindo, Madalena San Bento descreveu a humanidade como permanentemente inquieta, desejosa e carente de orientação. Prescindir da ideia de Deus seria, para muitos, “um terreno árido e desprotegido”. Assim, a fé surge não como negação das dúvidas, mas como caminho de confiança numa ordem maior — uma esperança de que Deus seja, para além de conforto, verdadeira providência.

As Conversas na Sacristia são um projeto da Igreja de São José de diálogo com o mundo e a cultura contemporâneos propondo reflexões sobre a fé, a cultura e a religião.

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