Por António Pedro Costa

Há mais de meio milénio que, na ilha verdejante de São Miguel, se cumpre o rito das romarias quaresmais, essa peregrinação sentida que atravessa o tempo e a alma do povo açoriano. À chuva, ao vento, ou sob o fulgor do sol nascente, os romeiros caminham em volta da ilha, no sentido dos ponteiros do relógio, rezando sem cessar as suas Avé-Marias, como um rosário vivo que se desenrola ao longo de caminhos, veredas e memórias. Cada passo é oração, cada oração é um fio invisível que une o homem à terra e ao divino.
Pelas estradas que ondulam entre pastos húmidos e muros de basalto negro, o canto dos mistérios ecoa como música antiga, misturada com o murmúrio das fontes e o sopro dos ventos atlânticos. O verde luxuriante da ilha acompanha-os como um bálsamo, ora colhedor, ora agreste e bravio e nessa comunhão com a natureza, os romeiros encontram forças novas, mesmo quando o corpo já se rende ao cansaço, mas sabem que é preciso continuar a caminhar.
O Procurador das Almas, figura destacada, vai recolhendo pelo caminho as intenções do povo, ou seja, pedidos de cura física, súplicas por trabalho, reconciliações há muito esperadas, promessas de agradecimento por graças recebidas. Em cada nome, em cada lamento sussurrado, ecoa uma esperança antiga. Os romeiros rezam pelas dores dos outros como se fossem suas, e nelas encontram o sentido da sua própria romaria.
À noite, o acolhimento fraterno reanima corpos e corações. As portas das casas abrem-se, humildes e generosas, para os irmãos cansados. Há banho quente, pão, sopa, e uma mesa posta como altar de caridade. A hospitalidade é, aqui, forma de oração, num gesto simples de partilha e redenção no tempo da Quaresma. E quando o sono vem, pesa-lhe a fadiga, mas também o consolo de saber que, na sua passagem, semearam fé e gratidão.
De cada freguesia de São Miguel partem grupos de homens e, hoje, também de mulheres de jornada de apenas um dia, que se fazem ao caminho durante uma semana inteira. Alguns prometeram comer apenas de pão e água, penitência de fé e agradecimento. Em cada igreja, o rancho faz a sua oração de rostos voltados para o altar. Cantam orações antigas, melódicas e lentas, que atravessaram séculos e corações, verdadeiras joias da literatura popular que o tempo não ousou apagar.
Muitas das refeições diárias são oferecidas por anónimos que cumprem promessas silenciosas, presentes discretos, mas cheios de alma. E, quando é o dia das famílias, o encontro é um refrigério de alegria, matam-se saudades, abraçam-se, trocam-se risos, e o guisado ou o caldo ganham sabor de festa, mesmo no meio da penitência.
Ao quarto dia de caminho, já o pensamento se volta para casa, para os filhos, para as esposas, para o lar adormecido à espera. Mas a jornada ainda não terminou, e o regresso é também promessa de mudar, de purificar-se, de renascer.
Quando enfim chegam à freguesia de origem, o povo recebe-os em festa. Há lágrimas e cânticos, há abraços demorados. O corpo, marcado de bolhas, entorses e dores, torna-se testemunho vivo do sacrifício. Mas nenhuma ferida é mais forte que a luz nos olhos de quem cumpriu a promessa.
A romaria é, acima de tudo, um encontro. Com Deus, com a ilha, e com o íntimo de cada alma. É um retiro espiritual feito de passos e chuva, um diálogo silencioso entre o homem e o mistério. E quando o tempo da Quaresma passa, os irmãos romeiros voltam às suas vidas, mas o laço que os une permanece, firme como o vento que sopra do Atlântico. De facto, enquanto houver romeiros na estrada e terços nas mãos, a fé do nosso povo continuará a ecoar por estas ilhas.
Assim, de geração em geração, São Miguel conserva nas suas estradas e nos seus corações esta tradição sagrada onde fé, dor e beleza caminham de mãos dadas. E quando os romeiros regressam a casa, levam consigo a certeza de que cada passo foi oração e cada sacrifício, fé.
A romaria termina nos caminhos, mas continua no coração.